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Eleições 2022 na TV afeta emocional e é saudável, diz especialista

Psicólogo explica que não há como fugir e que é até saudável saber controlar


William Bonner, que vai cobrir as Eleições 2022
Eleições 2022 na TV devem estressar público - Foto: Divulgação

O período eleitoral está começando na TV e vai estressar todo mundo que se envolver em política e, consequentemente afetará a saúde emocional dos telespectadores. A afirmação é de Matheus Vieira, psicólogo e professor e que conversou com o NaTelinha. No papo, o especialista garante que não chega a ser uma tragédia ter a saúde mental afetada e que, neste caso, sabendo equilibrar a situação, pode ser até saudável.

Questionado se assistir ao noticiário sobre as Eleições 2022 pode afetar a saúde emocional, ele é enfático. "Entendo que sim, sobretudo porque quando a gente vê o período eleitoral, a gente se depara com coisas que muitas vezes a gente não quer. A maior parte do tempo, mesmo sem perceber, a gente gosta de nos anestesiar das coisas que não nos interessam". E Matheus lembra que as redes sociais cumprem essa função. "As próprias redes sociais fazem isso pra gente, com os algoritmos, criando uma bolha nos mostrando aquilo que nos interessa, aquilo que a gente concorda, aquilo que a gente entende que está dentro do nosso universo, dos nossos valores".

O psicólogo explica, então, que não há como fugir de ter a saúde mental afetada. "Quando a gente se depara no período eleitoral com pessoas falando aquilo que a gente não quer ouvir, com dados que não corroboram com aquilo que eu acredito, isso nos estressa. Há pessoas que vão dizer que isso são dados de realidade, o que também é verdade. A realidade é muito dura, muito frustrante, se comparada com aquilo que a gente imagina, com aquilo que a gente fantasia, que é o que nos dá condições de viver relativamente bem, no entanto não quer dizer que aquilo são dados reais. Realidade quer dizer com a dureza das coisas como elas são e as coisas podem ser mentirosas", justifica.

Ele prossegue. "A realidade pode ser mentirosa também e a mentira da realidade é diferente da fantasia, ou da bolha que me coloca só aquilo que eu quero ver. Então eu me indigno, eu fico aborrecido quando eu vejo partidos eleitorais ou candidatos apresentando dados que são mentirosos ou que eu não concorde, entendendo que o mundo é diferente daquilo que ele fosse".

"Neste primeiro momento, não só pode, como vai estressar, como vai aquecer os ânimos de muitos brasileiros e isso é o esperado. Política é um assunto delicado e não dá pra falar de política sem lidar com o contraditório. Quando a gente lida com o contraditório é comum se estressar, não que isso seja necessariamente algo violento ou ruim, mas estresse no sentido de lidar com a diferença"

Matheus Vieira

Saúde mental e fake news nas Eleições 2022

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As Eleições 2022 também prometem vir recheadas de fake news e os veículos de comunicação podem ser fundamentais para a solução. Já o psicólogo e professor explica como não enlouquecer nesta era. "Em tempos onde a gente fala muito de saúde como bem comum, saúde como um todo, saúde mental, saúde emocional, ela vira uma máxima, mas em alguns momentos é contraditório porque é saudável manter-se com a saúde fragilizada, vamos dizer assim". Uma das chances disso acontecer é na sabatina do Jornal Nacional, prevista para acontecer em agosto e que já teve definida quando Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL) ficarão frente a frente com William Bonner.

O médico compara com o período da pandemia. "Um exemplo recente foi a pandemia que as pessoas diziam 'vamos nos viver saudável emocionalmente', poxa a gente tava numa pandemia, pessoas estão morrendo. A gente tem que ficar trancado em isolamento dentro de casa. É uma resposta natural, é um sinal de ajustamento com o que está acontecendo minha saúde estar fragilizada. Não dá pra eu viver num conto de fadas e perfeitamente saudável, sabendo que estou no meio de uma pandemia e que as pessoas estão morrendo", lembra.

"Na política, sobretudo na polarização e as fake news que vivemos no Brasil. Passar por este período eleitoreiro com a saúde emocional intacta eu imagino que seja um sinônimo de que você está alienado sem entender o que está acontecendo. Você está colocando a política como se fosse um campeonato de futebol e você não gosta de futebol. É um período em que as pessoas estão engajadas politicamente e que querem fazer um voto consciente e que procuram os melhores candidatos, essas pessoas terão suas saúde mental mais fragilizadas", explica.

Para Matheus, é preciso de cuidado, no entanto. "É importante a gente diferenciar em manter uma saúde emocional plena, o que acredito que seja sinônimo de alienação, descolado da realidade e fantasia utópica. Outra coisa é você se engajar vorazmente, onde você perde toda sua saúde emocional, você fica todo estafado, sem forças, como se só a política fosse a força motriz de sua vida. Aí a gente tem dois extremos. É sinal de que temos ajustamento da realidade, que você tem um voto consciente, que você está preocupado com a política, que você se fragiliza emocionalmente porque será tempo de debates, de sermos apresentados ao contraditório e temos que sustentar nossas crenças e isso é desgastantes".

Uma sugestão, na visão dele, é lembrar de outros temas. "E é importante entender que há outras esferas em nossas vidas, de modo que pessoa fragilizar minha saúde emocional, mas não esgotá-las porque minha vida não é feita somente. E é muito importante que a gente tenha fontes seguras e que existe o contraditório. Se a gente encontra um lado com fake news falando algo que não é correto, é importante entender que outro partido também tem suas fake news. Se eu gosto do partido A, importante eu ouvir sobre o partido B, sobre o partido C, fontes de mídia, fontes oficiais, pra gente não tomar uma única fonte como correta e tudo isso está diretamente ligado ao quanto eu quero me alienar ou o quanto eu quero engajar e mobilizar minha saúde mental em prol da política".

Eleições 2022 e as relações

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Para Matheus Vieira dá para manter as amizades e relacionamentos intactos, mesmo num período de eleições na TV.  "Sim, é possível, não quer dizer que seja fácil. Sugiro evitar conversar sobre política, não que isso não deva ser conversado, mas em terreno ou pessoas que estejam propícias a uma conversa frutífera. Onde você esteja disposto a mudar suas convicções e você sente que a outra pessoa também. Afirmações podem surgir, mas quando você está convicto e a outra pessoa também, o máximo que vai sair dessa conversa é discórdia, desavenças, brigas e isso não é legal", conta.

E o profissional explica um levantamento feito nos EUA. "Temos pesquisa que é efeito Backfire e o resultado da pesquisa mostrou que quanto mais você convence uma pessoa, mostrando dados e elementos de que a pessoa está errada, mas a pessoa acredita que você está certa e você é errada. É contraditório, essa pesquisa foi feita nos EUA na época do Trump que, quanto mais dados apresentava às pessoas mais ela continuava achando que estava certa, mesmo com dados contraditórios. Então, se você está convicto e seu amigo ou familiar também, evite tocar no assunto, não porque você está certo ou errado, mas porque essa conversa não vai levar a lugar nenhum. Agora se você está genuinamente não convicto, se você quer aprender mais, se você não tem opinião formada ou a outra pessoa, onde existe um campo fértil para uma discussão e um aprendizado, aí cabe tocar no assunto. Do contrário é melhor falar de outras coisas, churrasco, futebol, música porque esses assuntos pode levar a um consenso maior", conclui.

Como ver TV e proteger a vida

O psicólogo brinca que não é fácil. "É a pergunta de um milhão de dólares porque existe uma linha muito tênue que vai variar de pessoa para pessoa, não existe regra, não existe receita. É como perguntar o segredo da felicidade, pra cada pessoa o segredo vai ser diferente. O quanto eu tenho de informações pra ser bem informado? O que eu sei, entendo como suficiente ou gostaria de saber mais? O quanto eu gostaria de ser a pessoa mais bem informada? O quanto eu estou disposto a afetar as outras áreas da minha vida, seja com a minha família, meu relacionamento amoroso, meus parceiros de trabalho, o quanto estou disposto a deixar a política afetar essas relações?", questiona.

E ele próprio explica. "Essa linha é muito pessoal porque eu posso me sentir informado sabendo muito pouco, mas eu considero suficiente porque minhas relações seguem intocadas. Outras pessoas vão considerar a política algo de suma importância e vão procurar informar cada vez mais os mínimos detalhes, minúcias de candidatos, situações e vão discutir com todos que pensarem diferentes. Porque ele quer se sentir bem informado, quer discutir com outras pessoas, seja quem for e pode colocar em xeque essas relações. Esse equilíbrio é um campo muito pessoal, mas extremos são ruins. Afetar todo o restante da minha vida, familiar, amoroso, profissional, em nome da política, pode ser uma aposta muito alta. Não que a política não seja importante, mas precisamos verificar qual a importância dela. Na outra ponta também, eu não me importar com a política como se ela não fosse relevante, também é ruim, extremos são ruins. Esse ponto de equilíbrio em que eu vou me manter um nível de engajamento, de envolvimento com os assuntos políticos e o quanto eu vou me predispor a discutir e por em xeque as relações, isso é de cada um", conclui.

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