Daniel César
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Crítica

Atuação da Semana: Com vilã de novela mexicana, Adriana Esteves desce tom e brilha

Atriz consegue a façanha de se destacar numa trama de qualidade questionável

Cena de Amor de Mãe com Thelma, de Adriana Esteves, com olhar assustado
Em Amor de Mãe, Adriana Esteves tem dado dignidade a uma vilã idiota - Foto: Reprodução
Daniel César

Publicado em 04/04/2021 às 05:31:21,
atualizado em 04/04/2021 às 08:34:51

Thelma virou uma vilã de novela mexicana com direito a jaula para suas vítimas e até a atropelamento das inimigas em Amor de Mãe. Mas para tirar o tom melodramático e de humor involuntário, Adriana Esteves tem salvado a personagem inverossímil que surgiu na cabeça de Manuela Dias na reta final da interminável trama das 21h da Globo, suspensa por conta da pandemia do coronavírus e que retornou apenas para deixar o público com mais raiva.

Se as atitudes da personagem não fazem praticamente nenhum sentido e têm sido alvo de muitas críticas por parte de internautas, Adriana Esteves segue brilhando em seu posto de uma das melhores atrizes do país atualmente. Difícil saber quando ela tomou a decisão, se ao receber os roteiros estapafúrdios ou no momento de preparação do retorno, mas é evidente que, em algum ponto da trajetória para a volta de Thelma, coube a artista salvar uma personagem completamente perdida pelo roteiro da Gloria Magadan brasileira do século XXI.

Não existe diferença nas atitudes de Thelma e de Bernarda (Daniela Romo), a pérfida vilã de Triunfo do Amor, capaz das maiores maldades idiotas, como colocar uma criança amarrada num trilho de trem. Mas diferente das atrizes mexicanas, em que o público parece gostar de caricatura na composição como parte do tempero de situações absurdas e completamente irreais, Adriana Esteves tentou dar credibilidade à sua vilã.

Diferente de Carminha em Avenida Brasil (2012), quando ela pesou a mão e criou caras e bocas porque o texto e as situações permitiam, com Amor de Mãe tornou Thelma uma vilã tão artificial quanto as malvadas de filmes infantis, Adriana Esteves desceu o tom para tentar dar algum ar de humanidade para uma personagem perdida e que não tinha como ganhar a torcida do público.

Adriana Esteve brilha em cena

É bem verdade que não há como defender a vilã. E não se trata da torcida natural para uma malvada se dar mal, trata-se de ser impossível elogiar as decisões artísticas que a novela dá para Thelma. Ela é um erro ambulante do ponto de vista dramatúrgico e faz apenas o que uma roteirista desesperada por criar cenas fortes pede. Mas sua intérprete conseguiu o que parecia impensável diante de uma personagem de estatura tão baixa.

Normalmente, quando o papel é muito ruim, fica difícil para o artista salvar alguma coisa e oferecer dignidade ao telespectador. Mas neste caso é o que acontece, já que, quanto mais Thelma se afunda com situações esdrúxulas e de humor involuntário - a gente ri de nervoso com essas maldades toscas - Adriana Esteves brilha em cena como se fosse o próprio Sol e tivesse vida própria, sem a necessidade de se apoiar em um texto minimamente aceitável.

A decisão de transformar Thelma numa mulher que fala baixo e que tem o olhar assustado, como se fosse um rato já presa em uma ratoeira, permite ao público ver uma atriz brilhando. Não existe qualquer traço de tentativa de salvar a personagem porque, obviamente a atriz sabe que não há salvação. Mas ela tenta salvar a própria trajetória para que o público veja: a vilã é esdrúxula, mas eu sou uma grande atriz. E ela é maior que a Thelma, é uma extraordinária atriz que brilha até diante de cenas ruins.



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