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"Órfãos da Terra" chega ao fim como grande decepção na Globo

Novela das seis não conseguiu sustentar enredo e se esgotou após primeiro mês

Divulgação/ TV Globo

Publicado em 27/09/2019 às 06:13:05 ,
atualizado em 27/09/2019 às 09:29:42

Por: Thallys Bruno

Duca Rachid e Thelma Guedes voltaram ao horário das 18h após cinco anos e receberam um desafio: aumentar o ibope herdado de “Espelho da Vida” (2018-19). A trama de Elizabeth Jhin enfrentou problemas de audiência e enredo em sua primeira metade, mas se superou e terminou aclamada, apesar de sua baixa média geral. Cabia às autoras de “Órfãos da Terra”, iniciada no dia 2 de abril, apresentar uma história que conseguir elevar os índices e manter o interesse do grande público. Paradoxalmente, os índices aumentaram. Mas o folhetim dirigido por Gustavo Fernandes (estreante como diretor artístico), que termina nesta sexta-feira (27), não conseguiu se sustentar e perdeu fôlego, tornando-se uma grande decepção.

O caminho até “Órfãos” entrar no ar foi complicado. Após “Joia Rara”, última trama da dupla, fracassar por razões semelhantes – o que não a impediu de vencer o Emmy Internacional em 2014 –, Duca e Thelma escreveram uma ideia para a faixa das 21h, chamada de “O Homem Errado”. A sinopse foi aprovada, porém, em setembro de 2016, foi arquivada por inconsistências nos capítulos. Pouco depois, elas apresentaram a ideia central da atual história. Sílvio de Abreu, diretor de dramaturgia da Globo, chegou a pedir uma versão para as 23h, o que a tornaria mais curta e ousada; entretanto, voltou atrás, aprovando a versão às seis.

Sua premissa era baseada na história de Laila Faiek (Julia Dalavia), uma jovem síria que se refugia com os pais no Líbano após a morte do irmão mais novo e, neste país, se torna alvo da cobiça do milionário Aziz Abdallah (Herson Capri), disposto a comprar seu dote. Ela também despertou a paixão de Jamil (Renato Góes), jovem capanga do sheik, e aproveita para fugir com o rapaz e, assim, evitar se casar com o poderoso árabe. No Brasil, eles se reencontram, se casam e têm um filho, Raduan.

Acolhidos por Rânia (Eliane Giardini), os jovens se tornam alvos da cobiça de Dalila (Alice Wegmann), filha de Aziz com Soraya (Letícia Sabatella). Ao mesmo tempo, a esposa do milionário se envolve com Hussein (Bruno Cabrerizo), também um fiel escudeiro do árabe e primo de Jamil. Quando o caso é descoberto, ela morre e Hussein foge. No Brasil, Aziz chega destinado a matar Laila e Jamil e se aproveita de Camila (Anaju Dorigon), filha de Rânia, uma ambiciosa jovem que não suporta receber o casal. No entanto, o milionário é misteriosamente morto e, ao descobrir sobre o pai, Dalila vem ao país destinada a acabar com a vida do casal.

Os primeiros capítulos da novela indicavam para um legítimo novelão. A história de amor de Laila e Jamil empolgava cada vez mais, mérito da química intensa entre Júlia Dalavia e Renato Góes – escolhidos justamente por sua boa sintonia na primeira fase de “Velho Chico” (2016). Ao mesmo tempo, Herson Capri e Letícia Sabatella também se destacavam com tipos promissores e o desenvolvimento dos núcleos central e paralelos era bastante agradável.

Entre os principais núcleos paralelos, aliás, estava o de Bóris (Osmar Prado) e Mamede (Flávio Migliaccio), vizinhos de diferentes religiões, que viviam às turras enquanto seus netos Sara (Verônica Debom) e Ali (Mohamed Harfouch) se apaixonam, para desespero de Abner (Marcelo Médici), também encantado por ela. Com boas situações, o entrecho era o melhor entre os alternativos e valorizava bastante o talento dos atores envolvidos.

Até que, com um mês de novela, Duca e Thelma resolveram matar Aziz. O risco de a novela ser prejudicada sem o seu principal vilão existia e não era pequeno. Infelizmente, o resultado ficou ainda pior: “Órfãos” passou por uma passagem de tempo de três anos em que praticamente nada mudou na vida dos personagens e que desestruturou todo o enredo de maneira irreversível.

Dalila, chegando ao Brasil com o nome falso de Basma, ganhou um novo aliado, o vilão Paul (Carmo Dalla Vecchia). Desde então, a megera tem feito constantes ameaças aos protagonistas, sem uma razão convincente para justificar a vingança. O roteiro também lançou mão de inúmeros sequestros, algo recorrente na obra das roteiristas – como em “Cordel Encantado” (2011), reprisada este ano no “Vale a Pena Ver de Novo”, na qual a mocinha Açucena (Bianca Bin) era frequente alvo da obsessão de Timóteo (Bruno Gagliasso).

Pra piorar, a morte de Aziz foi esquecida durante a maior parte do tempo. Apenas na reta final foi revelado que o vilão foi morto por Camila, para proteger Rânia, disposta a matar o árabe ao descobrir que ele matou Soraya. Todo o período em que o assunto ficou esquecido fez a revelação se diluir e não obter o impacto esperado.

Os núcleos paralelos também não escaparam da estagnação e passaram a andar em círculos. Além do promissor entrecho de Bóris e Mamede – que viria a ganhar algum fôlego apenas nos últimos capítulos, quando o árabe descobre ser portador de mal de Alzheimer –, outras tramas se perderam, como a história de Bruno (Rodrigo Simas), fotógrafo que se apaixonou por Laila no começo da novela, mas acabou se envolvendo com Marie (Eli Ferreira), imigrante refugiada do Congo. A própria ideia de retratar a difícil vida dos refugiados, apesar de algumas pinceladas pontuais, também não foi para a frente de forma convincente.

Tudo isso resultou em um grande desperdício de talentos. Inúmeros nomes tiraram leite de pedra de papeis tão ingratos – casos de Julia Dalavia, Renato Góes, Rodrigo Simas, Danton Mello, Emanuelle Araújo, Bruno Cabrerizo (que apresentou um desempenho mais convincente do que em sua participação em “Tempo de Amar”, em 2017-18), Marco Ricca, Paulo Betti, Nicette Bruno, Carol Castro, Leona Cavalli, Guilherme Fontes, Simone Gutierrez, Glicério Rosário, Paula Burlamaqui, Allan Souza Lima e Betty Gofman.

Entre os que conseguiram se sobressair, pode se destacar a competência de Eliane Giardini, que dignificou sua Rânia; Alice Wegmann, que esbanjou versatilidade e soube dar vida a uma personagem tão confusa; Ana Cecília Costa – um talento sempre lembrado por Duca e Thelma, ótima como Missade (mãe de Laila); Herson Capri e Letícia Sabatella – que, mesmo participando apenas da primeira fase, brilharam absolutos; e merece destaque também a presença do ex-BBB Kaysar Dadour, interpretando Fauze, capanga de Aziz.

Por sua vez, Anaju Dorigon e Bia Arantes se destacaram especialmente quando suas personagens Camila e Valéria (ex-namorada de Bruno e de seu pai Norberto, personagem de Fontes) formaram um casal homoafetivo, conquistando fãs fieis nas redes sociais. Anaju, inclusive, mostrou bons contornos dramáticos nas sequências do envolvimento de Camila na morte de Aziz e revelou-se uma atriz pronta para desafios ainda maiores. O casal, porém, teve uma cena de beijo cortada sem explicações, em meio à polêmica envolvendo a tentativa de censura de uma HQ animada por parte da prefeitura do Rio de Janeiro, durante a Bienal do Livro. Difícil entender.

Outro grande erro da história foi o envolvimento de Elias (Marco Ricca), pai de Laila, com Helena (Carol Castro), esposa de seu grande amigo. O médico traiu a mulher e causou a revolta do grande público, fazendo lembrar outra situação de “Cordel”: a paixão de Florinda (Emanuelle Araújo) pelo duque Petrus (Felipe Camargo), apesar de ser casada com Zenóbio (Guilherme Fontes). Para piorar, Helena chegou a engravidar do amante, mas acabou perdendo o bebê em um acidente provocado por Paul a mando de Dalila. Separada de Elias, Helena passou a se envolver com Hussein, que voltou ao país.

O mau desenvolvimento de todos os entrechos fez com que “Órfãos da Terra” perdesse o encanto inicial e chegasse ao fim completamente apática, praticamente sem mais ter como empolgar. Ironicamente, em “Espelho da Vida” ocorreu o contrário: de um início lento e confuso, evoluiu e passou a emocionar e provocar discussões e comentários sobre os rumos de seus protagonistas e suas vidas passadas.

E o que torna isto ainda mais paradoxal é que a novela de Duca e Thelma termina sua trajetória com uma média geral de 22 pontos, quatro a mais que a trama de Elizabeth Jhin, porém, sem apresentar um décimo da repercussão desta. Este bom desempenho pode ser explicado pelo cenário atual de audiência da emissora, beneficiado pelo crescimento em todas as faixas noturnas, em comparação com o ano passado. A novela também fez sucesso no GloboPlay, onde o capítulo do dia seguinte passou a ser antecipado logo após a exibição original – medida também adotada por “Malhação – Toda Forma de Amar” e que será usada em sua sucessora, “Éramos Seis”.

Duca Rachid e Thelma Guedes são conhecidas pela inventividade de suas sinopses e têm, no geral, um bom retrospecto, graças ao sucesso de tramas como “Cama de Gato” (2009-10) e “Cordel Encantado”. Ou seja, não há dúvidas do talento das roteiristas. Infelizmente, porém, em “Órfãos da Terra” elas não foram felizes. O promissor enredo sobre os refugiados tinha ares de novelão, mas não conseguiu se sustentar e perdeu fôlego após o primeiro mês de exibição, sendo facilmente uma das grandes decepções novelísticas do ano. Não fará falta.


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