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Olhar TV

Amor de Mãe vai fundo no realismo, sem deixar de ser novela

Novela das 21h de Manuela Dias mostra grande ruptura com A Dona do Pedaço

Regina Casé como Lurdes e seus filhos na novela
Regina Casé, Juliano Cazarré, Jéssica Ellen e Thiago Martins em cena - Fotos: Divulgação/TV Globo
Thallys Bruno

Publicado em 02/12/2019 às 11:33:41

A maternidade é um tema recorrente na teledramaturgia e suas diferentes formas de lidar com a mesma sempre chamaram a atenção do público. É este apelo universal que norteia Amor de Mãe, novela das 21h de Manuela Dias, estreante na faixa mais nobre da Globo. Com a responsabilidade de manter o horário aquecido após o grande sucesso de A Dona do Pedaço, de Walcyr Carrasco, a história se iniciou no dia 25 de novembro e já dá indícios de que seguirá um caminho diferente de sua antecessora – sem, contudo, deixar de ser novela.

O roteiro da autora é pautado em três diferentes protagonistas: Lurdes (Lucy Alves/Regina Casé), Thelma (Adriana Esteves) e Vitória (Taís Araújo). A primeira, uma babá oriunda do interior do Rio Grande do Norte, se muda para o Rio de Janeiro com seus filhos na esperança de encontrar um deles, Domênico, vendido pelo pai. A segunda, por sua vez, é dona de um restaurante, descobre que tem um aneurisma incurável e só vê sentido na vida ao lado do filho Danilo (Chay Suede), que, apesar de amar sua mãe, luta para se livrar de sua superproteção. E a terceira, advogada conceituada, trabalha para o corrupto Álvaro (Irandhir Santos) e não consegue engravidar do marido, o que acaba com seu casamento. Até que, após uma noite de sexo sem compromisso com o ambientalista Davi (Vladimir Brichta), ela se descobre grávida.

Os filhos de Lurdes também trazem importantes conflitos próprios: Érica (Nanda Costa) se apaixona pelo ricaço Raul (Murilo Benício), mas se recusa a levar o relacionamento adiante enquanto ele estiver casado. Ryan (Thiago Martins) trabalha com musicalização infantil e se apaixona pela tenista Marina (Erika Januza), uma mulher focada e bem resolvida. Magno (Juliano Cazarré) lida com o coma de sua esposa Leila (Arieta Corrêa) e a doença da filha Brenda (Clara Galinari) e se vê atraído por Betina (Isis Valverde), enfermeira que cuida das duas; além de ter se envolvido numa briga com o irmão desta, Genilson (Paulo Gabriel), a quem agrediu após vê-lo estuprar uma mulher – a partir disso, ele tem certeza que matou o rapaz.

Amor de Mãe vai fundo no realismo, sem deixar de ser novela

Os primeiros capítulos da novela deixaram claro que há uma visível ruptura entre o estilo de Manuela Dias e a vibe mais “circense” da obra de Carrasco. Apostando em imagens de impacto e realismo, as primeiras cenas não pouparam emoção, graças ao excelente texto da autora e à inspirada direção de José Luiz Villamarim. Entre as principais sequências que merecem destaque, está a que Lurdes mata o então marido ao descobrir que ele vendeu Domênico – abrilhantada pelo talento espetacular de Lucy Alves. Ainda assim, fica claro que o folhetim não foi totalmente abandonado – e que há espaço também para o drama e o humor, como se viu em uma hilária cena em que Lurdes acha dinheiro no mar ao lado de Thelma.

O enredo ainda mostra uma visível preocupação em fugir o máximo possível do maniqueísmo de “mocinhos” e “vilões”. Cada protagonista carrega suas virtudes, porém, não deixa de ter os seus “podres” – como quando Lurdes abandona o cadáver do marido ao fugir para o Rio ou acoberta a agressão de Magno contra Genilson; ou mesmo o constante conflito de Vitória entre a honestidade e a corrupção, visto em uma sequência em que ela atua em defesa de Álvaro mesmo ciente de sua culpa – e, com isso, garante a absolvição. No entanto, também há vilões declarados no enredo – como o próprio Álvaro e o interesseiro Sinésio (Júlio Andrade), irmão de Thelma, que faz de tudo para vender o restaurante.

O elenco, repleto de nomes talentosos, chama a atenção pela acertada escolha de suas protagonistas. Regina Casé, após 18 anos de sua última novela (“As Filhas da Mãe”, 2001/2002), volta a protagonizar uma trama das 21h e brilha absoluta, fazendo de Lurdes uma protagonista muito real e humanizada. Adriana Esteves, de imenso talento já comprovado em outras obras, novamente se entrega com perfeição. E Taís Araújo, mesmo vivendo a ponta mais controversa do protagonismo, esbanja competência e versatilidade. Ainda merecem elogios nomes como Irandhir Santos, Vladimir Brichta, Jéssica Ellen, Chay Suede, Nanda Costa, Isis Valverde, Murilo Benício e Magali Biff; que, mesmo com aparições menores, já demonstram mostrar a que vieram. Bem como a primorosa participação especial de Júlio Andrade, que deixa a novela mais cedo devido ao seu retorno à série Sob Pressão, renovada para mais duas temporadas.

Amor de Mãe vai fundo no realismo, sem deixar de ser novela

Manuela Dias é a primeira autora a ser lançada na faixa desde a veterana Maria Adelaide Amaral (em 2016, com a malfadada A Lei do Amor) – a despeito da constante renovação de autores em outras faixas da programação. Ex-colaboradora das autoras Duca Rachid e Thelma Guedes em novelas como Cordel Encantada (2011) e Joia Rara (2013-14), Manuela ganhou suas primeiras chances como titular em 2016, quando assinou as elogiadas séries Ligações Perigosas e Justiça. Sua primeira investida no formato telenovela estava inicialmente cotada para substituir a problemática O Sétimo Guardião (2018-19), porém, devido ao texto considerado muito culto, foi adiada para depois de A Dona do Pedaço, que fez grande sucesso com personagens de muito apelo popular, a despeito da condução rasa do enredo.

Agora, a autora tem uma grande prova de fogo nas mãos e o desafio de Amor de Mãe é manter o interesse do público do horário, mesmo enfrentando o verão, as festas de fim de ano e o Carnaval. A nova novela das nove mostrou uma visível ruptura com o estilo de Carrasco e, ao longo dos capítulos, evidenciou sua preferência por uma linguagem um pouco mais elaborada. No entanto, também há a impressão de que não irá se distanciar totalmente do bom e velho folhetim – e os episódios iniciais deixaram claro que é uma mistura que pode ser feita com qualidade.

Se o nível inicial apresentado se mantiver ao longo dos próximos meses, o público será bem recompensado.