Análise

Sem pudores, Salve-Se Quem Puder entra com os dois pés na comédia rasgada

Sem pudores, Salve-Se Quem Puder entra com os dois pés na comédia rasgada
Divulgação/ TV Globo

Publicado em 02/02/2020 às 08:04:29

Por: Thallys Bruno

Três diferentes mulheres que veem seus destinos se cruzarem ao testemunhar um crime em meio a um furacão no México. É com esta premissa que Daniel Ortiz volta à cena com “Salve-Se Quem Puder”, a novela das sete que estreou no último dia 27 de janeiro e sucedeu a aclamada “Bom Sucesso”, de Rosane Svartman e Paulo Halm. Dirigida por Fred Mayrink, a nova trama caminha sem o menor pudor pela comédia rasgada, com situações que remetem aos desenhos animados.

O furacão une as vidas da romântica Luna (Juliana Paiva), atendente de um hotel no México, criada sozinha pelo pai; a estabanada Kyra (Vitória Strada), uma “patricinha do bem” bastante atrapalhada; e a deslumbrada Alexia (Deborah Secco), uma atriz iniciante que se acha mais do que realmente é. As três carregam histórias diferentes: a primeira quer encontrar a mãe, Helena (Flávia Alessandra), que largou a família ao tentar atravessar a fronteira; a segunda está prestes a se casar com Rafael (Bruno Ferrari); e a terceira, próxima de conseguir seu primeiro papel de destaque na TV, se envolve com Renzo (Rafael Cardoso), a quem conheceu na praia.

O destino coloca as protagonistas na mesma rota quando Alexia as convence a encontrar Renzo, que acabou levando uma joia valiosa da atriz e, quando finalmente conseguem encontrá-lo, presenciam a tia do rapaz, a gananciosa Dominique (Guilhermina Guinle) armando uma emboscada para o juiz Vitório (Ailton Graça). Flagradas, elas precisam fugir e entram para o Programa de Proteção a Testemunhas, mudando não apenas de nome, mas de vida.

Com experiências em outros países, Daniel Ortiz assina sua terceira novela no Brasil e sua primeira autoral, depois de escrever “Alto Astral” (2014-15), pautada em sinopse da falecida autora Andréa Maltarolli; e “Haja Coração” (2016), releitura de “Sassaricando” (1987-88), do veterano Sílvio de Abreu – de quem foi pupilo em “Passione” (2010-11) e no criticado remake de “Guerra dos Sexos” (2012-13). E, mais uma vez, sucede uma novela de Rosane Svartman e Paulo Halm, como havia feito ao substituir “Totalmente Demais” (2015-16) com a adaptação da trama do diretor de dramaturgia global.

Os primeiros capítulos indicaram um tom assumidamente escapista, sem qualquer pretensão, beirando ao farsesco. No entanto, mesmo para isto, o novelista pesou a mão nas situações, dignas dos filmes de comédia pastelão – como o sequestro de Vitório em pleno avião – ou de novelas mexicanas, como a declaração de amor de Juan (José Condessa) a Luna, com direito a mariachis e tudo mais. A elaboração dos efeitos do furacão, em alguns momentos, beirou o fake – em contraponto à beleza das paisagens caribenhas.

A química entre as três personagens centrais já era notada desde as chamadas e foi comprovada pelos primeiros capítulos, com claras inspirações em “As Panteras” e no desenho “Três Espiãs Demais”. Apesar dos tons acima da abordagem de Daniel Ortiz, Vitória Strada se deu bem e se reinventou completamente das duas mocinhas densas que viveu em “Tempo de Amar” (2017-18) e “Espelho da Vida” (2018-19). Juliana Paiva, mesmo com a armadilha do tom mexicanizado de sua mocinha, também acertou. Deborah Secco, às voltas com uma personagem que carrega traços de histrionismo e sensualidade (já vistos em papeis como Darlene de “Celebridade” (2003-04) e Natalie de “Insensato Coração” (2011), ambas de Gilberto Braga), traz a experiência a seu favor e transparece se divertir bastante em sua composição.

No elenco coadjuvante, ainda merecem elogios as boas presenças de Thiago Fragoso, Rafael Cardoso, Otávio Augusto, Guilhermina Guinle, Débora Olivieri, Flávia Alessandra, Leopoldo Pacheco e Felipe Simas. Até o momento, apenas o português José Condessa – intérprete de Juan, namorado de Luna – destoa do bom conjunto.

Outra inspiração pode ser vista na abertura da história, que remete a “A Favorita” – a vinheta traz, de forma animada, um resumo da sinopse central. A parte visual é um grande acerto, mais útil que os coloridos abstratos de “Bom Sucesso”. No entanto, a música escolhida, “Beija-me” (antigo samba dos anos 40 regravado por Ludmilla), não se conecta bem com a plástica da abertura.

Os primeiros capítulos de “Salve-Se Quem Puder” demonstraram que a intenção do novelista Daniel Ortiz é mesmo carregar as tintas na comédia rasgada, sem qualquer pudor, atendendo à proposta cômico-escapista do horário das sete. É uma opção válida, desde que o seu fio condutor não seja afetado e o desenvolvimento dos perfis não atenda a simples conveniências sem relação com o que se quer contar.




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