Reportar erro
Olhar TV

Amor de Mãe termina com destinos atropelados e tramas mal explicadas

Autora precisou acelerar a trama e pesou um pouco a mão na fase final

Lurdes e Domênico abraçados
Lurdes e Domênico enfim se encontraram em Amor de Mãe - Divulgação/TV Globo
Taty Bruzzi

Publicado em 08/04/2021 às 05:21:00,
atualizado em 08/04/2021 às 10:22:46

Amor de Mãe estreou em novembro de 2019 com o desafio de suceder A Dona do Pedaço, uma novela muito popular e que contava, ainda, com o carisma de Juliana Paes no papel da heroína da história escrita por Walcyr Carrasco. Já nos primeiros capítulos era possível perceber que a proposta de Manuela Dias seria resgatar o prazer de se assistir a um novelão. Era comum ler comentários de internautas e pessoas próximas exaltando o texto brilhante da autora distribuído em diálogos emocionantes e cenas fortes.

Se por um lado estava claro que não se tratava de um folhetim com apelo popular, por outro marcava o retorno de Regina Casé à dramaturgia, algo que não acontecia desde uma pequena participação em Cheias de Charme (2012) no papel dela mesma. Mas será que existe alguém mais popular do que a intérprete da Tina Pepper em Cambalacho (1986)?

Se juntando a ela, outras duas atrizes de gerações distintas. Adriana Esteves, a eterna Carminha de Avenida Brasil (2012), e Taís Araújo, primeira atriz negra a protagonizar novelas. Foi assim em Xica da Silva (1996), na extinta TV Manchete, e Da Cor do Pecado (2004). 

O trio de protagonistas acaba tendo suas vidas cruzadas por acaso, mas as diferenças se tornam minúsculas diante de um único papel, o de mãe. Tardia ou de forma precoce, não importa. Ambas alimentam o amor pela maternidade e é inegável que são verdadeiras leoas com suas crias. Só por isso o roteiro já nos garante um "novelão da piiii", mas a autora foi além e nas tramas paralelas trouxe para o telespectador temas relevantes e que rendem ótimas discussões como ativismo, educação, adoção, violência, corrupção e tráfico de crianças.

E foi por esta história complexa, e muito bem contada, que nos apaixonamos ainda na primeira fase da trama. Só que no meio do caminho tinha uma pandemia e as gravações precisaram ser interrompidas. Depois de uma longa pausa, Amor de Mãe retornou com sua fase final e a sensação que temos é a mesma de quando assistimos a um filme na TV que sofreu vários cortes.

Com o desafio de terminar essa história em apenas 23 capítulos, a autora mudou a narrativa, acelerou a trama e o público de casa que lute para não se perder e nem perder nenhum detalhe.

Que comecem os jogos

Talvez o mais difícil de aceitar seja o instinto assassino de Thelma que se manteve escondido até o final da primeira fase de Amor de Mãe. Quando a mãe adotiva de Danilo descobriu que o rapaz era Domênico tudo mudou. Amiga de Lurdes, a comerciante foi testemunha do sofrimento da nordestina, que teve o filho vendido pelo próprio pai a uma traficante de crianças e nunca perdeu as esperanças de encontrá-lo.

A revelação tocou no maior medo de Thelma, que é o de perder o amor do rapaz. Se pararmos para analisar, as histórias das três protagonistas estão ligadas a perdas muito profundas. Enquanto a babá teve um dos filhos roubados, a dona do Tasca do Passeio perdeu o filho biológico em um incêndio. Já Vitória entregou para a adoção um bebê e quando finalmente quis ser mãe sofreu um aborto espontâneo. 

Cada uma delas precisou encontrar um jeito de administrar sua dor, e a escolha da que agora se transformou em uma serial killer foi viver em função desse menino que veio substituir o filho morto. Não sei até que ponto seria justo chamar Thelma de vilã, já que quando ela comprou Danilo estava vulnerável e a traficante se aproveitou dessa vulnerabilidade para convencê-la de que estava ajudando a família do garoto.

Mas é inegável que esse sentimento excessivo lhe fez adoecer, pois nada justifica tirar a vida de outras pessoas. Aí, a dúvida que paira no ar é se a personagem de Adriana Esteves sempre foi uma sociopata, mas soube disfarçar muito bem, ou se esse seu lado mais sombrio só aflorou quando ela se sentiu ameaçada.

A melhor definição seria dizer que o Id e o Ego de Thelma entraram em conflito. Tanto que mesmo depois de ter matado a amiga da juventude, madrinha de Danilo, ela continua a desabafar com Jane (Isabel Teixeira), só que agora através de uma foto. Além disso, não dá para ignorar que a sogra de Camila (Jéssica Ellen) não matou Lurdes, preferindo mantê-la em cativeiro para que quando ela  morresse em decorrência do aneurisma o filho não ficasse sem uma mãe.

A preocupação dela com a alimentação da nordestina mostra o quanto a comerciante tem sentimentos pela babá. E apesar de a situação ser mórbida, a autora conseguiu dar leveza às cenas e destacar o que resta de humano na vilã.

Então, embora muitos internautas tenham dito que a Carminha voltou, são personagens distintas. A vilã da novela de João Emanuel Carneiro era uma mulher fria, incapaz de amar. Enquanto que Thelma ama até demais.

Jogada de mestre

Já que a pandemia está longe de acabar, por que não trazê-la para dentro da novela? Manuela Dias foi ousada e acertou quando usou a crise sanitária na reta final de Amor de Mãe. Com os protocolos de seguranças fazendo parte do nosso dia a dia, nada mais natural do que ver os personagens usando máscaras, higienizando as mãos e mantendo o isolamento.

Parece clichê, mas nunca estivemos tão próximos fazendo uso do distanciamento social. Abordar o assunto em uma novela do horário nobre foi uma jogada de mestre, porque além de fazer o telespectador se reconhecer, reforça a ideia de que a TV tem a função de divertir, informar e prestar serviço.

Escolher personagens para sofrer com a doença, abordar a exaustão dos profissionais da saúde e reproduzir a cena que vimos muito durante o ano passado, que foi os aplausos destinados aos que venceram a Covid-19, foi de uma sensibilidade.

É preciso separar o real da ficção

Faltando dois capítulos para o desfecho desta história, muitas serão as opiniões divergentes sobre os caminhos tomados pela autora. A sensação de perda vai ficar, porque é inegável que Amor de Mãe foi muito prejudicada com a pandemia.  Perde-se a história, as personagens que tiveram seus destinos atropelados, suas tramas violadas ou mal explicadas. Para se ter ideia, dos cinco filhos de dona Lurdes, talvez Camila tenha sido a única com início, meio e fim.

Sandro (Humberto Carrão) que amava Érica (Nanda Costa), que foi afim de Raul (Murilo Benício), que se separou de Lídia (Malu Galli) e reatou com Viória (Taís Araújo), ex-affair de Davi (Vladimir Brichta) que quase teve um flerte com Betina (Isis Valverde), atual mulher de... Sandro. Ufa!

Outro ponto fraco talvez tenha sido esse troca troca de casais que também acaba gerando estranhamento. Bem faz o Álvaro (Irandhir Santos) que apesar de toda sua vilania, o amor que sente por Verena (Maria), e pelo poder, sempre foi sincero.

Assim como o de Lurdes que passou a novela toda correndo atrás de uma pista que a levasse até Domênico e quando o encontrou, nos fez esquecer de todas essas críticas de tão linda, verdadeira e emocionante que foi a cena.  No mais, nos despedimos do folhetim na próxima sexta-feira (9) lembrando que novela vem do termo novelo, que significa o desenrolar de uma história. Eu costumo dizer que toda novela tem uma pitada de realidade e outra de ficção. Cabe a gente discernir um do outro.


Fique por dentro dos próximos capítulos de Amor de Mãe e outras produções acessando o canal de Novelas do NaTelinha

Quer saber mais? Confira o resumo semanal da novela Amor de Mãe de 05/04/2021 a 10/04/2021.   



Mais Notícias