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A Dona do Pedaço é prova de que Walcyr Carrasco não irá mudar seu estilo

Novela das 21h termina com grande apelo popular e vícios típicos do autor

A Dona do Pedaço é prova de que Walcyr Carrasco não irá mudar seu estilo
Divulgação/ TV Globo

Publicado em 22/11/2019 às 06:17:07 ,
atualizado em 22/11/2019 às 09:00:38

Por: Thallys Bruno

Walcyr Carrasco tem sido, nos últimos anos, uma espécie de curinga da Globo. A emissora tem recorrido à sua expertise para substituir novelas canceladas ou adiadas. E A Dona do Pedaço não fugiu à regra. A trama das 21h, que se encerra nesta sexta-feira (22), recebeu a missão de levantar a audiência da faixa após o fracasso retumbante de O Sétimo Guardião, de Aguinaldo Silva. E conseguiu com louvor, pautada no grande apelo popular de sua história, com um elenco de peso, personagens de fácil assimilação, mas também com vícios dramatúrgicos recorrentes nas obras do autor.

Seu ponto central foi a trajetória de Maria da Paz (Mirella Sabarense/Juliana Paes), filha de uma família de matadores do interior do Espírito Santo, que, separada de seu amor (Amadeu, vivido por Marcos Palmeira), se mudou para São Paulo e começou a fazer bolos e vender na rua para sobreviver – enriquecendo com a rede de lojas Bolos da Paz. Ainda enfrentou a ambição desenfreada da filha Josiane (Agatha Moreira) e do playboy Régis (Reynaldo Gianecchini) e sonhava reencontrar as primas Fabiana (Maria Clara Baldon/Nathalia Dill), criada em um convento, e Virgínia (Duda Batista) – esta última, adotada após fugir do assassinato da mãe, se tornou Vivi Guedes (Paolla Oliveira), uma digital influencer de moda de muito sucesso.

Enquanto isso, Amadeu se casou com Gilda (Heloísa Jorge) e formou família, mas sem esquecer sua amada; Vivi, casada com o ciumento Camilo (Lee Taylor), passou a se envolver com o primo Chiclete (Sérgio Guizé), um matador inicialmente contratado para tirar sua vida; Fabiana, obcecada pela irmã, deixou o convento disposta a destruir sua vida; o irmão de Régis, Agno (Malvino Salvador), mantinha relações homossexuais escondido da família; e o pai adotivo de Vivi, Otávio (José de Abreu), também traía constantemente a esposa Beatriz (Natália do Vale). Ainda completava o enredo a tresloucada família de Eusébio (Marco Nanini), que morava em uma casa abandonada e ajudou Maria da Paz quando ela chegou a São Paulo.

Desde o início de sua trajetória, A Dona do Pedaço sinalizaria um caminho bem menos pretensioso que o das novelas anteriores de Walcyr Carrasco às nove. E foi o que aconteceu. A primeira fase, ambientada na fictícia Rio Vermelho (Espírito Santo), apresentou sequências no melhor estilo faroeste caboclo, com direito à luxuosa participação de Fernanda Montenegro como Dulce, a matriarca dos Ramirez (família de Maria da Paz), que se despediu em meio a um massacre. Após a passagem dos anos, logo ficaria claro: a novela repetiria as mesmas virtudes e vícios típicos do dramaturgo. Especialmente os vícios.

Um deles foi a constante e abrupta mudança de personalidades dos personagens apenas para atender a conveniência do roteiro. Os exemplos mais evidentes foram vistos na condução das trajetórias de Maria da Paz e Vivi Guedes. A primeira, cega de paixão por Régis, irritou pela burrice constante, a ponto de ignorar todos os alertas a respeito do playboy. A segunda, uma blogueira fútil e deslumbrada, ainda que aparentemente empoderada, se tornou alvo do machismo desenfreado do ex-marido, como uma donzela presa na torre – situação que faz lembrar os horrores sofridos por Sônia, vivida pela própria Paolla Oliveira, na segunda versão de O Profeta (2006-07). Também chamaram atenção negativamente a obsessão de Josiane por destruir a mãe apenas por ter vergonha de esta ser boleira, sem haver de fato uma base que sustentasse tal ódio, bem como a inteligência além do normal de Fabiana, esperta demais para alguém criada no convento.

Junte-se a isso a já conhecida falta de cuidado do autor em temas importantes, como homossexualidade, violência contra a mulher e machismo, e o reforço de valores retrógrados, como a questão das armas dos matadores – ainda mais que parte desses valores estão muito presentes no atual governo federal e em seus apoiadores. Não houve a intenção de provocar reflexão junto ao público: tudo parecia ser feito apenas para chocar e impactar.

O autor também não foi feliz na construção dos pares românticos. Maria da Paz e Amadeu pecaram pela correria no desenvolvimento de seu romance e o perfil apático do advogado não causou simpatia. O envolvimento da boleira com Régis chamou mais atenção, graças à intensa química entre Juliana Paes e Reynaldo Gianecchini, mas o golpe do rapaz colocou tudo a perder e ela acabou voltando para os braços de seu grande amor. Também merece destaque a química arrebatadora entre Paolla Oliveira e Sérgio Guizé, que protagonizaram sequências intensas e de alta tensão sexual como Vivi e Chiclete – embora o par também tenha desandado em meio à situação estapafúrdia que envolveu a influencer e o investigador na reta final.

Nem mesmo o romance entre Agno e Leandro (Guilherme Leicam) escapou dos equívocos. O relacionamento enfrentou a homofobia de Cássia (Mel Maia), resistente à homossexualidade do pai, mas logo descambou para a superficialidade – algo também visto na fraquíssima história de Samuel (Eriberto Leão) e Cido (Rafael Cortez) em O Outro Lado do Paraíso.

No entanto, os defeitos da história pareciam não ser suficientes para abalar o grande sucesso da novela junto ao público. O investimento em personagens populares e de fácil assimilação foi determinante para tamanho êxito, tendo como seu principal exemplo justamente a trajetória de Maria da Paz: sua figura de mãe dedicada, amorosa, mulher honesta e batalhadora despertou uma grande torcida pela protagonista, algo raro nos últimos tempos.

Outro grande destaque de A Dona do Pedaço foi o tratamento diferenciado das relações comerciais. Várias empresas estiveram presentes, das mais diversas formas, em situações que mobilizaram o enredo – e também em interações com a vida real, como a campanha da montadora FIAT protagonizada por Vivi Guedes em vez da própria Paolla Oliveira, que é sua garota-propaganda. Ou as ações movidas pelas Casas Bahia, que promoveram a campanha Casa de Novela com alguns personagens. Ou também a bem sacada campanha do iFood, em que a já citada Maria da Paz entrega um de seus bolos para sua intérprete.

Ainda merece elogios o aguerrido elenco, que por muitas vezes extraiu o melhor do enredo. Juliana Paes, em grande fase após o sucesso de Bibi Perigosa em A Força do Querer, brilhou absoluta e emocionou como Maria da Paz. Nathalia Dill emprestou competência e talento à sua Fabiana, popularizando a frase eu cresci no convento como seu bordão; Paolla Oliveira deu show ao encarnar a blogueira Vivi Guedes – que ganhou inclusive um perfil real no instagram (@estiloviviguedes), com mais de 2,5 milhões de seguidores; Mônica Iozzi também se destacou com sua Kim, a influencer empresária de Vivi; além de boas presenças como Lucy Ramos, Suely Franco, Nívea Maria, Ana Lúcia Torre, Sérgio Guizé e Ary Fontoura; as luxuosas participações de Fernanda Montenegro e Laura Cardoso – que estava cotada para outra personagem da novela, mas foi cortada pela emissora, reclamou publicamente e foi atendida pelo autor; e a talentosa Glamour Garcia, grata revelação como a transexual Britney.

Sabe-se que Walcyr é, atualmente, o autor que mais dá oportunidades para os atores veteranos, evitando que eles fiquem muito tempo fora do ar. No entanto, isso não evitou o desperdício de grandes talentos, como Nathalia Timberg, Marco Nanini, Betty Faria, Rosamaria Murtinho, Tonico Pereira, Berta Loran, Rosi Campos, Heloísa Jorgee Rosane Gofman. O que é uma pena, pois o núcleo da família buscapé parecia ser bem promissor e divertido, porém, acabou deslocado e repetitivo. Bem como o pouco aproveitamento de Jussara Freire como Nilda, mãe de Amadeu.
Outros, por sua vez, tiraram leite de pedra, como Lee Taylor, Caio Castro (que soube superar as semelhanças com o Grego, de I Love Paraisópolis), Agatha Moreira (que derrapou em algumas cenas mais importantes, prejudicada pela direção), Bruna Hamu (cuja personagem Joana era apontada como possível filha de Maria da Paz, um entrecho lamentavelmente desperdiçado)e Monique Alfradique (que entrou perto da reta final, como a policial Yohana). Entre os que decepcionaram, Marcos Palmeira, Reynaldo Gianecchini, Guilherme Leicam, Rainer Cadete (o fotógrafo Téo) e Malvino Salvador (repetindo atuações anteriores).

Mesmo com todos os problemas dramatúrgicos, o apelo popular da novela foi muito forte e animou a emissora, resultando em uma média geral de 36 pontos. Um cenário bem diferente de O Sétimo Guardião, um fiasco geral em todos os aspectos, envolvida desde o princípio com problemas relativos à sua autoria, pessimamente desenvolvida e sem qualquer repercussão junto ao público.

A Dona do Pedaço sai de cena reforçando um aspecto que Amor à Vida e O Outro Lado do Paraíso já mostravam: enquanto o sucesso se mantiver, a fórmula do novelista vai continuar sendo a aposta no popularesco, cativando pelo apelo, mesmo que para isso tenha que desprezar a lógica e o cuidado no desenvolvimento dos seus enredos. Walcyr Carrasco, como se sabe, é um grande contador de histórias e sabe como poucos vender o seu produto e conquistar o grande público. Resta apenas saber até que ponto esta forma de conduzir suas novelas vai manter o fôlego.


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