Antenado

Não indicação de novelas brasileiras ao Emmy precisa servir de reflexão e alerta para as TVs

Bibi e Rubinho em A Força do Querer
"A Força do Querer" ficou de fora do Emmy Internacional

Publicado em 29/09/2018 às 16:51:18

Por: Gabriel Vaquer

Pela primeira vez em 14 anos, a Globo aberta não teve uma indicação com um produto original ao Emmy Internacional, maior premiação da TV mundial. Apenas o filme "Aldo - Mais Forte que o Mundo", editado como minissérie, está na disputa. Mas o que mais chamou a atenção de todos foi a falta de uma aclamação na categoria "melhor telenovela".

O Brasil ganhou seis de 10 prêmios quando foi indicado, sendo o maior vencedor da categoria. Mas notoriamente, vemos que a nossa fórmula de fazer novelas está se desgastando, principalmente com o avanço das produções da Turquia.

Quem assiste às tramas exibidas pela Band em horário nobre, como "Mil e Uma Noites", "Fatmagul", "Asas do Amor" e "Ezel", só para citar alguns bons exemplos, consegue entender claramente o motivo desse avanço gigante da Turquia no mercado.

As novelas turcas não reinventam a roda, mas contam a história com mais ousadia, com um roteiro que não apela para concessões mais fáceis e tem uma pós-produção e produção absolutamente caprichada e diferenciada.

Pelo que se nota, a Turquia tem avançado extremamente. Suas novelas normalmente não passam de 120 a 130 capítulos, são bem desenvolvidas e privilegiam o núcleo principal, além de serem enxutas em termos de elenco.

Nos últimos anos, ainda mais após Silvio de Abreu assumir a direção de dramaturgia diária, a Globo reforçou um estilo antigo, que não sai da fórmula básica para ter audiência a custo não muito grande: tramas escapistas da realidade e que não fazem o espectador refletir.

A maior prova disso são as duas últimas novelas das 21h, a principal da TV, e as últimas decisões de Silvio de Abreu para a sucessão da faixa. "O Outro Lado do Paraíso" e "Segundo Sol" são boas tramas tecnicamente, mas nada muito fora da curva. Já o roteiro de ambas é fácil, batido, de soluções simples e nada pouco inventivo.

Sempre que uma novela ou autora tenta sair da fórmula mais básica para dar Ibope, ela é adiada ou cancelada. Até onde se sabe, e como informou meu grande amigo e colega Sandro Nascimento aqui no NaTelinha, "Tróia", de Manuela Dias, tinha um texto considerado diferente. Foi deixada de lado e teremos, mais uma vez, Walcyr Carrasco em horário nobre.

Enquanto isso, mesmo boas novelas como "A Força do Querer" e "Novo Mundo" irão continuar não tendo o reconhecimento fora daqui. Estamos fazendo novela de uma forma que funcionava nos anos 90. O mundo evoluiu o seu jeito de fazer folhetins, e a gente está parado no tempo.

Aqui no Brasil, novela não é somente um produto. É uma forma de arte, sim, apesar de preconceituosos dizerem que não. Mas decidimos esquecer isso nos últimos tempos e estamos tratando novela como se fosse algo descartável. Não podemos fazer isso com a principal criação da nossa produção audiovisual. É querer matar as novelas.

Gabriel Vaquer escreve sobre mídia há vários anos e está de volta ao NaTelinha. Além da "Antenado", faz reportagens especiais sobre a TV brasileira. Também é colaborador do UOL Esporte. Converse com ele. E-mail: gabrielvaquer@uol.com.br / Twitter: @bielvaquer



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