Antenado

Falta de humanidade da Band e Globo quase perfeita marcam cobertura da tragédia de Suzano na TV

César Tralli
Reprodução/ TV Globo

Publicado em 14/03/2019 às 00:00:00 ,
atualizado em 14/03/2019 às 00:17:51

Por: Gabriel Vaquer

Dizem no jornalismo que um fato quente precisa ser coberto com parcimônia e calma. E foi isso que mais faltou na cobertura da TV sobre a tragédia ocorrida em Suzano, onde dois atiradores invadiram a Escola Estadual Raul Brasil e mataram adolescentes inocentes. O jornalista deve se envolver com a história que conta, mas sempre respeitando o outro.

Com exceção da Globo, e não é exagero, todas as outras emissoras tiveram momentos de erro grave ou de sensacionalismo exacerbado na cobertura. Lógico, também tiveram pontos positivos, mas todos eles foram colocados de lado tamanho os problemas apresentados.

A humanidade precisa voltar as redações da TV, porque o jornalismo hoje em boa parte das emissoras foi tudo, menos humano.

Gabriel Vaquer

A cobertura começou por volta das 10h15 da manhã, quando as informações estavam começando a ficar quentes e confirmadas pela Polícia. O primeiro ponto negativo foi do SBT, quando a repórter Márcia Dantas (veja vídeo no final) acabou chegando meio sem saber o que fazer e tentou falar com qualquer pessoa que visse. Acabou levando um grito de uma pessoa que não queria falar.

Márcia tem se destacado merecidamente no SBT mais recentemente, e consegue fazer bons trabalhos em coberturas do tipo. Foi um equívoco, mas não consigo crucificá-la, pois posteriormente, ela fez corretas entradas ao vivo, além de ter conseguido um vídeo exclusivo para o canal de Silvio Santos logo após.

Na Globo, a cobertura foi assumida por Dony de Nuccio, que posteriormente ganhou a companhia de Sandra Annenberg no "Jornal Hoje", que ficou no ar das 12h30 às 15h15, tendo um break apenas pouco depois das 15h. Dony se mostrou correto mais uma vez.

Mas o grande destaque dessa cobertura da Globo foi César Tralli, apresentador do "SP1", que ajudou os dois jornalistas na apresentação. Misturando informações que recebia pelo celular, com apurações feitas por ele mesmo, Tralli provou porque é o melhor âncora local do Brasil, merecendo uma chance nacional faz tempo. Correto, num tom perfeito, e indo atrás da notícia.

Ainda na Globo, gostaria de elogiar a repórter Carolina Paes, da TV Diário, afiliada da Globo em Mogi das Cruzes, que reforçou a cobertura da Globo São Paulo. Muito correta, coesa e a que teve o melhor desempenho entre os repórteres que ficaram ao vivo na porta da escola.

Na Record, Gottino assumiu os trabalhos numa edição do "Balanço Geral" que foi exibida para todo o Brasil. Novamente muito bem, já que é experiente na cobertura ao vivo, Gottino manteve o tom mais equilibrado, mesmo com todo o teor sensacional criado pela emissora.

Alías, foi a partir da tarde que a falta de humanidade de alguns colegas começaram. Criticada - com merecimento - pelo que fez de manhã, o SBT acabou tendo Roberto Cabrini em Suzano, mas com a trupe do "Fofocalizando" no estúdio, não acrescentando muita coisa.

O auge disso foi uma pergunta bizarra de Décio Piccinini sobre a motivação dos criminosos. Baseando-se numa corrente de WhatsApp que corre desde esta manhã, ele questionou se a motivação seria uma "ordem do jogo Baleia Azul" e que eles teriam tentado invadir uma escola anteriormente, algo não confirmado pela Polícia.

Na Band, um Datena humanizado, se emocionando sempre, foi o front da cobertura. Chamou a atenção ele ter chorado ao ser exibido um vídeo fortíssimo da câmera de segurança, onde é mostrado o momento exato da chacina. Datena afirmou jamais ter visto tamanha barbaridade.

Mas o maior absurdo do dia veio do repórter Marcelo Moreira, da emissora do Morumbi. Fazendo uma inquisição praticamente, ele questionou para a mãe de um dos assassinos se ela não se sentia culpada pelo que ocorreu. Isso não se faz com ninguém, ainda mais com uma mãe, independente da situação.

Critico aqui também a decisão de todas as emissoras, com exceção da Globo, de exibirem o vídeo do momento exato da chacina, captado pela câmera de segurança da Escola Estadual Raul Brasil. Todas exibiram com blur e desfoque, mas mesmo com este recurso, as imagens definitivamente não precisavam ser exibidas. Todos entenderam o tamanho da covardia dos dois indivíduos. Exibir o momento soa como desrespeito e apelação.

Sem dúvida, essa cobertura desta quarta será estudada nas faculdades, com vários exemplos de como não se fazer no jornalismo. Nossa TV precisa rever o que fez ontem e tentar tirar lições. A humanidade precisa voltar as redações da TV, porque o jornalismo hoje em boa parte das emissoras foi tudo, menos humano.

Vídeo repórter do SBT

Vídeo do repórter da Band

 Vídeo do Décio

 

Vídeo do Datena

Gabriel Vaquer escreve sobre mídia há vários anos e está de volta ao NaTelinha. Além da "Antenado", faz reportagens especiais sobre a TV brasileira. Também é colaborador do UOL Esporte. Converse com ele. E-mail: gabrielvaquer@uol.com.br / Twitter: @bielvaquer


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