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Vida profissional

Senor Abravanel: O empresário genial por trás de Silvio Santos

Rei da comunicação sempre teve um tino para os negócios

Silvio Santos posa para foto segurando dinheiro cenográfico
Silvio Santos ou Senor Abravanel? O empresário por trás do comunicador - Foto: Divulgação
Daniel César

Publicado em 12/12/2020 às 00:00:06

Senor Abravanel poderia facilmente ser considerado um dos maiores empreendedores do Brasil, não fosse pelo fato de ser também Silvio Santos, o maior comunicador do país. Duas pessoas diferentes dentro de uma só, já que o segundo passaria a fazer parte da família brasileira com sua mais de dezenas de programas que se transformaram em icônicos ao mesmo tempo em que o primeiro mostrava um tino raro para os negócios e via em suas empresas uma máquina de fazer dinheiro e o colocava como um dos empresários mais bem sucedidos de todos os tempos.

Senor, o empresário, poderia ser a mitificação da expressão que sempre se colhe os louros do trabalho. Sua visão empresarial nasceu cedo, ainda na escola, quando queria ter algum dinheiro extra - além do que conseguia dos pais. O império do Grupo Silvio Santos nasceu com vendas de doces e balas para os colegas de escola, ali pela década de 40 e que o transformaria nos anos seguintes em um camelô, pela facilidade de conseguir retorno financeiro rápido e ser dono de seus horários e de suas próprias vendas.

"Desde garoto, quando era camelô, já reunia gente. Existe uma diferença muito grande entre o chamado marreteiro atual e o camelô de antigamente. Antigamente, éramos só dez no Rio, mas o camelô era aquele que colocava a seu redor, fazendo mágica ou falando sobre o produto que tinha para vender, umas 100, 200 pessoas. Eu era praticamente um animador de rua", explicou ele em uma entrevista para o Estadão em 1990 e que pode ser vista na Biografia Silvio Santos, a Trajetória do Mito, escrita por Fernando Morgado.

É neste ponto que a vida de Senor se mistura a de Silvio, pois foi como camelô que ele recebeu a oportunidade de virar um comunicador nato ao ser convidado para fazer um teste para a Rádio Guanabara, atualmente Bandeirantes. E o adolescente foi o primeiro colocado no tal concurso para locutor, superando nomes que se tornariam consagrados nos anos seguintes, como ninguém menos que Chico Anísio.

Você iria preferir ser camelô de sol a sol ou radialista? Pois Senor fez uma opção que lhe pareceu óbvia e não ficou muito tempo no rádio pelo simples fato de que recebia por dia nas ruas o que levaria um mês inteiro como locutor. Mais do que se comunicar, ele queria era fazer dinheiro. E ele quase se tornou um homem próspero com pouco mais de 18 anos. Acontece que a vida de um dos mais importantes homens da história do Brasil não poderia deixar de ter reviravoltas folhetinescas justamente no país das novelas.

Foi neste momento que os arroubos empresariais fizeram com que Senor contraísse dívidas e fosse obrigado a voltar para o Rádio, além de virar dono de botequim, o que parecia improvável para um homem com tamanho tino. E mesmo trabalhando muito, nada parecia aplacar suas dívidas e fazê-lo crescer financeiramente, até que decidiu tornar-se sócio de um amigo, Manoel de Nóbrega, que tinha levado um calote de um sócio e estava sem ter como manter seu novo negócio, o Baú da Felicidade.

Foi com as mudanças promovidas na empresa que ele teve sua primeira mina de ouro, tanto que logo se tornou o único sócio e fez questão de pagar integralmente a parte do amigo, transformando o Baú da Felicidade no carro-chefe de seus negócios, com direito a sorteio de prêmios que chegariam à televisão e mostravam o toque de midas de Silvio Santos. "Eu confio muito no meu feeling. 90 ou 95% das decisões que eu tomo, graças à minha intuição, costumam dar certo", explicou certa vez à Veja em 1975.

Com essa máquina de fazer dinheiro, Senhor - uma espécie de alter ego do Silvio - continuava a ganhar espaço no meio do empreendedorismo e passou a ser dono não de uma, mas de dezenas de empresas nas décadas seguintes. Entre elas, nomes que ficariam conhecidos dos fãs do comunicador - e não necessariamente do empresário - como a Record e o SBT, além da Jequiti e das redes de hotéis Jequitimar.

Senor Abravanel ou Silvio Santos?

Se a primeira experiência como radialista não o agradou por conta do salário, Senor não abandonou o projeto e retornou anos quando tinha medo de ficar nas ruas por conta de sua entrada no exército. Foi ali que batizou de vez o apelido que costumava usar, Silvio. Uma vez, ao participar de um concurso de rádio, utilizou o apelido que sua mãe costumava dar-lhe e o funcionário questionou o sobrenome. "Silvio Santos, porque todos os santos ajudam".

Silvio virou uma espécie de faz tudo da Rádio Mauá, mas logo foi para a Tupi ao lado de Silveira Lima, onde assumiu de vez a função de locutor e sua carreira artística virou tão meteórica quanto a de empreendedor. Seu sucesso foi tanto que ganhou um contrato na Continental, com direito à primeira vinheta com seu nome. "O Silvio Santos não deixou o rádio, está na Continental, atuando à noite".

Por conta da crise financeira de Senor, Sílvio teve de se mudar para São Paulo e, ainda antes de virar sócio de Manoel de Nóbrega, voltou a trabalhar em rádios, mas para completar renda se viu obrigado a virar outro tipo de artista, chegando até a se apresentar em circo com artistas que ele ajudara a formar nos programas de auditório.

Neste período, Silvio já era amigo de Manoel de Nóbrega e sócio do empresário. Por causa deste vínculo, o pai de Carlos Alberto propôs que ele fosse um locutor de seu programa de rádio, o que fez com que o "homem do Baú", voltasse ao protagonismo, já que o tal programa era uma das maiores audiências de São Paulo. E por causa disso é que nasceu o Silvio Santos da TV.

Silvio Santos na TV

Com uma voz inconfundível Sílvio Santos não era visto no mundo artístico como o empresário emergente Senor Abravanel, ao contrário, muita gente sequer sabia disso. Por conta do poder de comunicação ganhou a chance de se aparecer na TV Paulistano em 1956 num intervalo comercial como garoto propaganda de uma marca. A partir daí, ele viraria o rei da televisão brasileira numa sequência de conquistas de espaços apenas pelo seu talento.

Quatro anos depois de ser apenas um garoto propaganda, Silvio teria seu primeiro programa de TV, na TV Paulista. O título? Vamos Brincar de Forca e que ganhou até patrocinador master, o que não era tão simples naquela época. O sucesso foi tão estrondoso que a cerveja que patrocinava o primeiro programa de Silvio se esgotou no mercado. E o sucesso de Silvio se devia ao tino de Senor, que comprou o espaço na programação e aparentemente deu certo.

Tão certo que o empresário decidiu ser ainda mais ousado e levar o programa para o meio-dia, horário que ninguém apostava nada naquela época. Em 1963 entrava no ar, às 12 horas o primeiro Programa Silvio Santos na TV Paulista. Rapidamente o programa virou sucesso comercial, de audiência e de carisma, transformando Silvio Santos num dos principais nomes da recém-criada TV brasileira.

O empresário passou a ceder cada vez mais espaço para o comunicador, que ficava o domingo todo no trabalho, tanto que, seis anos depois de iniciar o Programa Silvio Santos, sua atração entrava no ar às 11h30 e terminava às 22h. Mas isso era fichinha, já que ao longo da semana ele também aparecia, dessa vez em outros canais, inclusive na Tupi, com atrações de sucesso como o Festival da Casa Própria e o icônico Cidade Contra cidade.

Silvio Santos, o "dono" da Globo

A década de 70 serviu para esconder ainda mais Senor Abravanel do grande público e transformar Silvio Santos numa máquina de audiência, sucesso e, claro, dinheiro. Seu programa na TV Paulista seguia intocável e um sucesso retumbante quando a emissora de São Paulo foi comprada pela TV Rio e, juntas, passariam a formar o que seria a Rede Globo de Televisão.

Foi neste momento que o Programa Silvio Santos saiu de SP e começou a ganhar contornos nacionais. Quanto mais a Rede Globo ganhava espaço no território nacional, mais o dominical era conhecido e mais o apresentador se tornava icônico. Mas em 1976 muita gente foi pega de surpresa com o anúncio de que a atração de maior audiência dos domingos estava deixando a principal emissora do país.

Senor não estava satisfeito com o tratamento que a Globo dava para Silvio e, por isso, o empresário preparou a saída. Tanto que três meses antes do fim do contrato adquiriu a TVS, uma pequena emissora de São Paulo, além de ter virado sócio da TV Record. Para não perder a nacionalização, o empreendedor negociou o horário de domingo com a TV Tupi e, foi neste momento que aconteceu o que parecia improvável, o Programa Silvio Santos ia ao ar em canais diferentes pelo país.

Senor Abravanel realiza sonho de Silvio Santos

Enquanto já era considerado um dos maiores comunicadores do país e trabalhando em canais diferentes, Silvio Santos seguia com o sonho de ter seu próprio canal para montar a programação que quisesse. E foi neste cenário que Senor Abravanel fez o movimento mais importante da simbiose entre o empresário responsável e de visão e o artista carismático.

Anos antes, com a falência da TV Tupi, a concessão pública ficou em aberto e, foi neste ponto que a Ditadura Militar, com quem Senor tinha boas relações, com direito até a incentivos fiscais para suas empresas, optou por abrir espaço para duas novas emissoras no país. Foi aí que a família Bloch adquiriu parte, transformando-a na TV Manchete e Senor Abravanel comprou a outra e a transformou no SBT, agregando à TVS.

Anos antes, dono da TVS, ele montou uma programação que viraria característica de sua futura emissora, os programas repetindo-se na grade. Foi assim que ele exibia quatro vezes o mesmo episódio da série Hazel, batizada no Brasil por A Empregada Maluca. E foi pouco depois que, ao adquirir o SBT, montou sua programação, com direito a contratação de artistas que se tornariam icônicos como Bozo, Mara Maravilha e Ronald Golias.

Senor ganha de Silvio Santos

Desde que se tornou dono do SBT, Senor Abravanel virou uma espécie de sombra longínqua de Silvio Santos. Embora todos soubessem que ele era o dono da emissora, pouca gente o via como empresário, mas como o artista por trás de programas icônicos como o Topa Tudo Por Dinheiro, Tentação, Quer Namorar Comigo, Porta da Esperança e Qual é a Música. Nesta trajetória de quase 40 anos do canal, em apenas duas ocasiões o empresário foi protagonista e o comunicador coadjuvante.

A primeira dela se deu no fim da década de 80, quando surgiram fortes boatos de que Silvio seria candidato a presidente da república na primeira eleição democrática do país depois da queda da Ditadura Militar. Embora utilizasse o nome do artista, era o empresário que comandaria o país, caso vencesse seus adversários e que parecia possível de acontecer.

Senor tentou se lançar pelo PFL, mas teve seu nome barrado e, ao perceber o crescente do eleitorado querendo votar em Silvio Santos, decidiu fazer uma manobra ousada: se lançou pelo PMB, mesmo já havendo outro nome, que renunciaria por ele. Neste cenário, Silvio chegou a liderar algumas pesquisas, mas o TSE barrou a candidatura e impugnou as chances dele se tornar candidato a presidente da república, por conta da falta de prazos cumpridos à época.

O segundo momento em que Senor venceu Silvio não foi tão místico quanto a de uma eleição presidencial, mas fez com que o empresário fosse à falência e manchasse a carreira do artista. No final da década de 2000 um escândalo de grandes proporções marcou um de seus principais empreendimentos, o Banco Panamericano. Todos os dias os jornais noticiavam as fraudes cometidas pela empresa e que ela estava falida, podendo levar seu proprietário, Silvio Santos, a ser obrigado a vender todas as suas empresas para quitar as dívidas.

Numa trama rocambolesca com direito até a visita ao presidente Lula para tentar salvar o banco, Senor chegou a colocar o SBT a venda, mas um golpe de sorte salvou a vida do comunicador. O empresário venceu o Banco para uma grande multinacional em 2011, além de provar que era apenas o proprietário e não tinha qualquer participação nas fraudes. "O Grupo Silvio Santos não tem mais nenhuma dívida com o Fundo Garantidor. Agora eu estou livre. A televisão (SBT) que vocês queriam comprar, ou que alguém queria comprar, não está mais à venda. A Jequiti não está mais à venda. As Lojas do Baú não estão mais à venda. A única coisa que foi vendida foi o banco", contou ele ao final da reunião.

Senor aposentado e Silvio ativo

Oficialmente, Senor Abravanel já está aposentado. Embora milionário e com dezenas de empresas a pleno vapor, ele já não é mais presidente de praticamente nenhuma de suas marcas de sucesso e não exerce praticamente nenhuma função administrativa no corpo diretivo. Mesmo o SBT, que é sua menina dos olhos, ele não costuma fazer parte do dia a dia, mesmo continuando a dar pitacos na grade de programação, mais uma espécie de traquinagem de Silvio Santos que propriamente um faro administrativo de Senor.

Mas o comunicador não parece interessado em se aposentar. Antes da pandemia, que o deixou preso em sua mansão e sem gravar seus programas, Silvio já vinha diminuindo o ritmo e havia entregue parte de seus programa para as filhas, como o Roda a Roda ou o Topa ou Não Topa. E se na década de 60 e 70 o Programa Silvio Santos ocupava quase 12 horas de programação, atualmente ele está em apenas quatro horas nas noites de domingo do SBT.

Mesmo assim, ao completar 90 anos, nada indica que Silvio Santos pretenda desistir de vez da carreira artística e nos corredores do canal já se fala na volta das gravações em 2021, depois que a vacina para o coronavírus for disponibilizada. O empresário até pode estar fora do cenário, mas o artista parece que vai realizar o sonho longevo de morrer trabalhando.