Daniel César
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Todas as Garotas em Mim revela que a Record não sabe o que fazer com a dramaturgia

Novela, ou série como a emissora trata, não acerta em nenhum elemento narrativo


Cena de Todas as Garotas e mim, na Record
Estreia de Todas as Garotas em mim foi constrangedora na Record - Foto: reprodução/Record
Por Daniel César

Publicado em 10/06/2022 às 04:53:00,
atualizado em 10/06/2022 às 09:16:17

A constrangedora estreia de Todas as Garotas em Mim, na última terça-feira (07) na tela da Record, foi uma mostra importante de que a emissora já não sabe mais qual rumo dar para sua dramaturgia. Uma criação híbrida entre as novelas bíblicas e as produções contemporâneas parecia uma boa ideia, mas teve uma execução que se esqueceu do básico que a teledramaturgia precisa para sobreviver: construção narrativa.

É bem verdade que nada funciona direito e tudo parece ser feito de forma experimental. Aqui é importante um adendo de que a palavra não é um paralelo a outras produções experimentais - Pantanal (1990), na Manchete, foi isso - mas o uso é no sentido de amadorismo. Assistir aos primeiros capítulos da novela - ou série como a Record insiste em chamar - foi um desrespeito com o público, com os profissionais envolvidos no projeto e com a própria história do canal.

Se a falta de profissionalismo ficou evidente neste início, muito disso se dá pelo roteiro que é perdido. Com todo respeito que a profissional envolvida num projeto desse porte merece, Stephanie Ribeiro, a responsável pelo roteiro, mostrou que não tem o menor conhecimento do que é uma estrutura narrativa de televisão. Com texto literário, seus diálogos parecem imitar os livros de Paulo Coelho, não uma obra de teledramaturgia. E a culpa nem é totalmente dela, que pode vir a ser boa roteirista, mas da emissora que a enfiou numa enrascada dessas com nenhuma experiência. Ela até pode se tornar novelista, mas ainda não é.

Quando um roteiro parece uma redação de um aluno da turma do fundão do segundo ano do Ensino Médio, direção e elenco se limitam a tentar não morrer afogados. É possível uma produção de dramaturgia boa com elenco ou direção irregulares, mas não há salvação quando o roteiro é basicamente um amontoado de palavras sem sentido. Ainda assim, Rudi Lagemann não conseguiu dar um mínimo de dignidade para o produto.  Errou fundamentalmente ao não colocar de pé a história, com cenários que parecem do antigo Show do Tom (2004-2011) e elenco que não conseguiu compor personagens que fizessem um mínimo sentido.

Todas as Garotas em Mim é de lamentar

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O elenco não há muito o que se criticar, apenas lamentar. Nota-se na maioria a falta de um diretor que saiba o que está fazendo e, sem uma implementação competente, praticamente todos os jovens rostos parecem se esforçar num teatro de formatura juvenil. Mesmo os mais experientes não estão confortáveis em seus papéis, talvez constrangidos pelo que são obrigados a fazer a fim de receber um salário no fim do mês.

É preciso louvar o esforço da Record em tentar criar um híbrido e fugir do único modelo de novelas bíblicas em um momento em que o formato enfrenta uma crise de proporções inéditas. Pode ser que, com o decorrer dos anos, esse formato se torne o principal do país. Basta lembrar que sucessos do canal, como Vidas Opostas (2006) e Os Mutantes (2008), começaram com o fracasso de Metamorphoses (2004).

Certamente Todas as Garotas em Mim pode ser a Metamorphoses da vez. Constrangedora. 

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