Daniel César
TVxTV

Atuação da Semana: Isabel Teixeira, de Pantanal, deixa um país machista de joelhos

Atriz encanta com uma personagem extremamente difícil


Cena de Pantanal com Maria Bruaca
Maria Bruaca, de Isabel Teixeira, bilha em Pantanal - Foto: Reprodução/Globoplay

Na novela Pantanal, Maria Bruaca é uma personagem muito sofrida, cuja mudança de postura caiu nas graças do público nas últimas semanas. Mas muito disso se dá pela intérprete, Isabel Teixeira, que entendeu como construir uma caipira sofrida e dependente numa mulher interessante e cheia de nuances, seja no drama ou na comédia, em que ela se dá muito bem também.

Quem acompanha apenas a TV aberta ficou surpreso com a atriz num papel tão importante para o remake escrito por Bruno Luperi e com direção artística de Rogério Gomes. Afinal, Maria Bruaca era uma das personagens icônicas da primeira versão da trama, em 1990 na Manchete, à época defendida por Ângela Leal. Afinal, como entregar uma escalação tão importante para uma artista que ninguém conhece e que só tinha uma única novela no currículo (Amor de Mãe, em 2019)?

Mas Isabel Teixeira é muito experimentada no teatro, onde acumula 25 peças desde 1984. A atriz está com 48 anos e a fama na TV veio tardia, é verdade, mas mais do que merecida. Ela transformou uma personagem em que o público teria pura compaixão, como já aconteceu com outros papéis femininos marcantes e sofridos, Catarina (Lília Cabral), em A Favorita (2008) e Raquel (Helena Ranaldi), em Mulheres Apaixonadas (2003), para citar duas, num fenômeno de diversão e torcida.

Num país como o Brasil, em que oito mulheres são agredidas por minuto, o sucesso de Maria Bruaca não é pela compaixão - e ela foi gerada para isso - mas veio pela independência. A libertação da personagem ao descobrir-se traída pelo marido Tenório (Murilo Benício) poderia transformá-la em chata, na visão de um público convencional e machista, afinal a mulher independente costuma ser rejeitada nas novelas brasileiras - Maria Clara Diniz (Malu Mader), de Celebridade (2002) e Sol (Deborah Secco), de América (2005), que o digam.

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Bruaca é desafiadora, é fogosa e até um texto que poderia ser considerado passado do ponto - o da fivela - explodiu o Brasil de alegria. Não se trata de discutir a mudança da sociedade, pois o retrato do país mostra que o conservadorismo ainda está aqui, mas a forma como Isabel Teixeira entoa seu texto - no humor, no drama, sexista ou até na independência - dá um charme irresistível para a personagem.

Isabel Teixeira coloca um país machista de joelhos na base de seu carisma e de sua capacidade. A atriz consegue um feito gigantesco ao transformar uma personagem que tinha tudo para ser rejeitada porque é tudo que as mulheres são ensinadas a não ser todos dias num unanimidade nacional. Não é pouca coisa.

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