Pode ser ruim sim

Fina Estampa e o direito irrevogável de novela de fazer entretenimento ruim

A novela gerou uma polêmica nesta semana

Fina Estampa e o direito irrevogável de novela de fazer entretenimento ruim
Fina Estampa tem o direito de ser ruim - Foto: Divulgação

Publicado em 16/08/2020 às 10:24:05

Por: Daniel César

Fina Estampa virou o epicentro de uma discussão meio sem nexo na última semana graças a uma declaração infeliz de Marco Pigossi em uma live que participou. Se o ator detonou a novela de Aguinaldo Silva e garantiu que a produção deveria ser proibida de ir ao ar novamente, meio com preconceito a celebridade de séries ruins da Netflix acabou levantando um debate que há tempos vai e volta no Brasil.

Que Fina Estampa é uma novela ruim ninguém discute. A trama tem diálogos bobos e discussões simplórias de temas quase sempre irrelevantes, embora acabe cometendo um ou outro desserviço em assuntos mais importantes, como se outras novelas não fizessem o mesmo. Mas daí a um ator que ganhou fama e fortuna graças a muitos papéis, inclusive o de Rafael na trama, querer censurar a obra, é um exagero. Afinal, como disse um defensor da democracia dramatúrgica nas Redes Sociais, basta substituir Pigossi por Silas Malafaia com a mesma expressão e a opinião dos internautas mudaria automaticamente.

E se o próprio Aguinaldo Silva ficou histérico com a crítica do ex-pupilo, houve quem concordasse com o ator. E este acabou sendo o assunto da semana, mas sem que ninguém levantasse o debate correto: por que a novela brasileira não tem o direito sagrado de produzir entretenimento ruim? Se até Hollywood o faz - e em uma vastidão invejável - o que faz do Brasil diferente?

Ao longo da semana parte dos donos da tábua dos Dez Mandamentos contemporâneos no Twitter vociferou contra Fina Estampa, mas se esqueceu que, em outros momentos, se derrete com produções gringas de qualidade muito mais que duvidosa. Quem critica os diálogos constrangedores de Crô (Marcelo Serrado) e seu zoiudo Baltazar (Alexandre Nero) normalmente se derrete de elogiar quando a Globo leva ao ar filmes como As Branquelas.

Por triste coincidência, Fina Estampa estava no ar quando uma das principais atrizes do elenco de Glee morreu afogada numa tragédia que deixou fãs chocados. Mas o paralelo não é para dizer que a novela protagonizada por Lília Cabral e Christiane Torloni seja uma tragédia, mas para lembrar que muitos dos algozes da atual reprise do horário das nove lamentaram a morte da moça relembrando momentos marcantes de Glee, a série de Ryan Murphy que não é melhor sequer que a versão contemporânea de Chiquititas do SBT.

Se o Twitter virou uma espécie de câncer na discussão política por ser tomada de fake news, quando o assunto é telenovela a tragédia é ainda maior. Pode até não existir notícia falsa com a mesma frequência, mas a bolha twitteira se acha representante do público brasileiro com direito a procuração imaginária e faz com que boa parte dos novelistas e até da direção da Globo tome decisões com base nessas críticas sem pé nem cabeça.

Fina Estampa é uma novela ruim, mas a dramaturgia tem um direito irrevogável de produzir entretenimento ruim, assim como acontece no Cinema e como acontece aos montes nas séries de diversos países. Nem por isso a trama deve ser livre de críticas e apontamentos, mas é impensável que alguém considere justa a ideia de que uma novela não pode ser vista porque é fraca. Fosse assim, Game of Thrones, uma O Outro Lado do Paraíso da HBO, não teria vencido tantos Emmys.


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