Crítica

Record erra com exageros em Gênesis e torna a novela imperdível

Trama vem alcançando alto Ibope no confronto com o JN

Novela Gênesis teve uma primeira semana movimentada - Foto: Divulgação
Por Daniel César

Publicado em 24/01/2021 às 09:03:34

A estreia de Gênesis na última terça-feira (19) na tela da Record trouxe de volta para a TV brasileira um modelo que vem fazendo sucesso desde meados da década passada, as narrativas bíblicas. E depois do estrondo que foi Os Dez Mandamentos (2015) parece que o canal voltou a conquistar a alma do telespectador cristão brasileiro em cheio. A novela não é um primor, longe disso, tem muitos erros e exageros e é exatamente este seu charme e que torna a metáfora universal (desculpem o trocadilho) tão imperdível.

Quem assistiu aos primeiros capítulos da dramatização do primeiro livro bíblico teve duas sensações iniciais. A primeira foi de uma estética que se esforçava muito para ser bonita. A fotografia ficou linda, é verdade, mas parecia uma das muitas intervenções cirúrgicas da cantora Anitta. Você não consegue piscar os olhos enquanto vê, fica admirado com tudo aquilo, mas sabe que não tem nada de verdadeiro.

A segunda é que chamou a o uso dos efeitos especiais, talvez o maior patrimônio da Record desde o advento de Os Mutantes (2008). Não chega a ser ruim, você vê todos os milhões de dólares investidos, estão ali na tela, e não ficou parecendo tosco, mas é como o novo rico que precisa mostrar ter dinheiro para o vizinho pobre.

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E muita gente criticou a Record por fazer propaganda da Igreja Universal e até de um banco, pura bobagem. Aliás, a tirar pela escolha narrativa de Gênesis, Edir Macedo parece ter rompido com o cristianismo e poderia anunciar a qualquer momento sua mudança para uma religião africana. O Deus mostrado nos primeiros capítulos é tão sádico que provavelmente passa as horas vagas fazendo maratona de Haja Coração no Globoplay.

O que mais chamou a atenção na novela nesses primeiros capítulos, no entanto, foi a escolha pela dramaturgia. Os autores, controlados a chicotadas pela filha do dono, optaram por transformar Eva (Juliana Boller) numa mocinha de novela e, olha, acertaram em cheio. No México. Some ao texto rocambolesco, a interpretação digna de Thalia da atriz e pronto, Eva foi a primeira mocinha da história da humanidade. Quem esperava uma feminista nata e que desobedece a Deus só porque quer ser como ele, encontrou uma tapada, manipulada e sofredora. Parecia a Morena (Nanda Costa), de Salve Jorge. Como resistir?

Mas a ideia de Gênesis sempre foi contar o livro do Velho Testamento em forma de antologia, por isso a história de Adão (Carlo Porto) e Eva precisava avançar rapidamente para o primeiro assassinato da humanidade - a novela vai ser cheia de primeiros, ne? Parece até a vitória das minorias - Caim (Eduardo Speroni) matando Abel (Caio Manhente). A escalação dos atores para os papéis foi até divertida, já que o branquinho bonitinho, todo suave, foi colocado como o filho bom e o outro, como o malvado. Quer coisa mais mexicana que isso?

E por falar nisso, a composição de elenco de Gênesis foi uma coisa rara, possivelmente o diretor se perdeu em Hollywood buscando o pen drive dos efeitos especiais e não teve tempo para ajudar o pessoal a criar os personagens. Speroni mirou no Caim, mas acertou no Alexandre (Guilherme Fontes), de A Viagem (1994). Talvez a intenção filosófica seja mostrar que, tal qual o irmão de Dinah (Christiane Torloni), o filho de Eva estava possuído por Lúcifer (Igor Rickli). Bobo é quem não entendeu a referência ao clássico de Ivani Ribeiro.

Depois do primeiro assassinato que, aliás, parecia desses acidentes que a gente lê em site na internet e fica chocado. "Irmão dá pedrada em outro após brigarem por um danone e causa tragédia em família", dá ou não dá uma boa manchete? E se Eva chorou o Brasil chorou também com a cena da morte de Abel, que aliás deve ter morrido de constrangimento e voltou correndo para a Globo.

Mas a novela parece ter se inspirado em Avenida Brasil na agilidade da primeira semana e já voltou toda trabalhada na passagem de tempo apresentando outro personagem icônico na mente do brasileiro, Noé (Bruno Guedes). E de novo a escalação: jura por Deus que alguém imaginava um Noé tão mirradinho? O homem é um dos mais importantes da humidade, pô? É quase o Messi da época dele. Mesmo assim, Deus achou por bem que aquele moçoilo seria capaz de construir uma arca para salvar a humanidade inteira e todos os animais. Tô dizendo que o Deus da Record anda esquisito.

Entre erros e acertos, Gênesis é uma ótima pedida para quem não quer usar ácido para ter uma experiência tântrica. Tem tudo ali que você precisa: o sincretismo religioso, a dramaturgia ordinária, o melodrama barato, tudo isso unido a um elenco que promete diversão com as caras e bocas que quase nunca fazem sentido num texto coruscante. Está imperdível e o sucesso de Ibope da primeira semana está mais que merecido. Bibi Perigosa que lute.

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