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Felipão das novelas, Walcyr Carrasco fisga o público com armadilhas em Êta Mundo Bom

Novela tem todas as armadilhas criadas pela obra de Walcyr Carrasco

Felipão das novelas, Walcyr Carrasco fisga o público com armadilhas em Êta Mundo Bom
Novela Êta Mundo Bom é o Palmeiras 2018 das telenovelas - Foto: Divulgação

Publicado em 23/08/2020 às 09:55:52

Por: Daniel César

Em tempos de tentativa de censura contra Fina Estampa, outro debate tem sido deixado de lado nas famigeradas redes sociais que costumam debater tudo: o estrondoso sucesso da reprise de Êta Mundo Bom. A novela de Walcyr Carrasco está sendo exibida na faixa do Vale a Pena Ver de Novo e virou fenômeno de audiência, deixando para trás produções como Avenida Brasil e Por Amor. Mas o que faz uma novela tão criticada por especialistas ter tanto sucesso por duas vezes?

Walcyr Carrasco pode ser criticado por muitos pontos em comum em suas novelas. Ele não é o autor mais criativo do mundo, não liga muito para aliterações - o nome chique para repetições - e parece não se preocupar nem um pingo para a opinião de críticos e especialistas, seu foco é o sucesso. Mas de uma coisa o bem sucedido novelista não pode ser chamado: mentiroso.

Se tem uma coisa que ele não faz é mentir para seu público. Quem vê o teaser da maior parte das novelas dele já sabe do que se trata: entretenimento descartável. Uma injeção de morfina para esconder a dor do dia a dia. Walcyr não é o médico que vai trazer uma obra-prima e curar os males do mundo. Não é nas novelas dele que teremos grande crítica social ou fotografia do povo brasileiro. É uma Banheira do Gugu com a marca da Globo.

E dito isto, ele conhece como ninguém as armadilhas para fisgar o telespectador e usa todas elas sem a menor vergonha na cara em Êta Mundo Bom. O termo pode parecer pejorativo, mas não é. Trata-se de um elogio. Nenhum outro autor de novelas do Brasil atual entende tão bem as expectativas do público quanto Walcyr Carrasco e ele usou isso muito bem na novela das seis protagonizada por Débora Nascimento e Sérgio Guizé.

Esqueça o humor pueril, quase feito para crianças recém-nascidas de um berçário. Esqueça os diálogos constrangedores que remetem a estudantes de Ensino Fundamental fazendo uma redação sobre as férias. Nada disso interessa a quem interessa. Enquanto críticos e detratores da obra walcyriana apontam os problemas, o público se deleita é com as soluções. O público - este é o alvo do autor -, se deleita com as artimanhas criadas por ele.

Êta Mundo Bom faz mais do mesmo que Walcyr descobriu em sua chegada na Globo e consolidou principalmente a partir de Morde e Assopra. É bem verdade que antes disso ele escreveu sucessos incontestáveis, como Alma Gêmea, mas também errou a mão no quesito alcance do público, como em Sete Pecados. Foi em sua segunda imersão no horário das sete que o novelista precisou usar a cachola e reverter um fracasso iminente. E ali ele descobriu a pólvora usada na novela das seis reprisada atualmente no Vale a Pena Ver de Novo.

Para se ter uma novela com audiência - e essa é a busca do autor - é preciso histórias que encontrem o coração do público. Seja pelo ódio, como as decisões erradas de dona Irene (Gloria Menezes) em A Favorita, seja pelo amor, como o público abraçando a paixão de Jade (Giovanna Antonelli) por Lucas (Murilo Benício) em O Clone, ou até mesmo pela compaixão, como é o caso do perdão dado à Camila (Carolina Dieckmann) em Laços de Família. O problema é que nem sempre um autor consegue alcançar isso em suas obras, já que são muitos fatores envolvidos.

Walcyr achou a solução e o usa com a maestria de um técnico de futebol ultrapassado num país em que a modernidade ainda não chegou. Em Êta Mundo Bom, como em vários outros trabalhos, ele criou dezenas de histórias fortes, personagens cheio de dramas exagerados e que nem sempre fazem sentidos. Não precisa ter ligação. Não precisa ter lógica. Muito menos precisa ter espaço. No começo, ele apresenta os dramas superficialmente sem nenhum comprometimento com a história. Quando o público reage interessado em alguma, ele agarra aquela criação e abandona todo o resto.

Em Êta Mundo Bom isso fica nítido com a história de Maria (Bianca Bin). O drama da pobre donzela grávida e sozinha virou o centro da trama graças à interpretação da atriz e a falta de empatia do público para com outros personagens. Rapidamente, Walcyr alçou a personagem à protagonista prática e escanteou todo o resto. Uma piadoca aqui, um chorinho ali e pronto, a novela está feita.

E ele é esperto, sabe como fingir que a história está andando. Assim como Mano Menezes faz com seus times no futebol, que jogam 15 minutos de tirar o fôlego, fazem o placar e depois só se defendem, as novelas de Carrasco invertem a lógica. Ele enche a novela inteira de cena desnecessária e faz os cinco minutos finais com grandes sequências e acontecimentos chocantes. Você sempre tem a sensação que Êta Mundo Bom aconteceu algo importante, não é? Armadilha.

E Êta Mundo Bom é um fenômeno, assim como A Dona do Pedaço também foi e O Outro Lado do Paraíso mais ainda. Tal qual Felipão venceu o Brasileirão de 2018 com o Palmeiras e Fábio Carille em 2017 com um Corinthians de futebol pragmático, mas eficiente, Walcyr Carrasco domina a dramaturgia brasileira. Está dando errado? Chama ele que o homem resolve. E isso deverá durar algum tempo, ao menos até aparecer um Jorge Jesus nas nossas novelas.


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