Opinião

Vale Tudo ainda nem estreou e já tem pseudo especialistas prevendo o seu fracasso

Chegamos ao ponto em que esperar e torcer pelo pior faz mais sentido


Elenco de Vale Tudo - remake
Elenco de remake de Vale Tudo - Divulgação/TV Globo
Por Taty Bruzzi

Publicado em 31/03/2025 às 07:30,
atualizado em 31/03/2025 às 10:34

"Falem bem, ou falem mal, falem de nós". Vou pegar como gancho as palavras de Paolla Oliveira, que faz a Heleninha Roitman, na coletiva de imprensa de Vale Tudo, com a presença do NaTelinha, para tentar entender o burburinho negativo em torno de uma novela que ainda nem estreou.

Desde que foi convidada para o remake, Manuela Dias vem recebendo uma enxurrada de cobranças. No entanto, a autora sabe que não seria diferente por se tratar de um clássico, de um grande sucesso que permanece na memória afetiva das pessoas.

Agora, todos devem concordar que seria burrice não aceitar uma oportunidade como essa. Não à toa, a escritora, o diretor, Paulo Silvestrini, e todo elenco estavam extremamente felizes na festa de lançamento, com o sorriso largo e uma gana muito forte de fazer esse projeto acontecer.

Vale Tudo ainda nem estreou e já tem pseudo especialistas prevendo o seu fracasso

Motivos não faltam. O remake chega à Globo como parte das comemoração pelos seus 60 anos, 100 do Grupo Globo. E sua escolha não podia ser mais proposital, já que a novela original foi um acerto tão grande na década de 1980 que virou um clássico da nossa teledramaturgia.

Mas para entender Vale Tudo como a novela das novelas é preciso compreender o peso dessa história. Lançada originalmente em 1988, o folhetim marcou toda uma geração e muitas dessas marcas a gente carrega até hoje. A começar por ter ido ao ar nos primórdios da redemocratização do Brasil (1985).

Depois dos cinzentos e tenebrosos anos de chumbo, o país passava por mudanças nos cenários político e cultural muito significativas. Consequentemente, falava-se mais abertamente sobre corrupção, por exemplo, que é uma das premissas do folhetim.

Vale Tudo ainda nem estreou e já tem pseudo especialistas prevendo o seu fracasso

"Vale a pena ser honesto no Brasil?". A pergunta lançada por Gilberto Braga (1945-2021) naquela época é uma faca de dois gumes até hoje. Primeiro porque não dá para generalizar. Passar a ideia de que o nosso país não é um lugar de gente honesta, ou que nem todo brasileiro peca pela desonestidade, é muito delicado.

Segundo porque, infelizmente, a resposta pode ser um choque de realidade. Tirando como exemplo os últimos anos, as chances de a gente perceber que nada ou pouca coisa mudou em 37 anos é assustadoramente plausível.

Os preconceitos continuam, uns velados outros nem tanto, assim como o "jeitinho brasileiro" também. Já não se usa mais o termo países de primeiro mundo e países subdesenvolvidos, mas no Brasil a desigualdade ainda é gritante.

+ Manuela Dias sobre a escolha de Tais Araújo para Vale Tudo: "A Raquel pra mim sempre foi preta"

Estamos em 2025 e tem gente que aceita com naturalidade a relação incestuosa entre tia e sobrinho, em Tieta, mas acha imperdoável a Raquel (Taís Araujo) do remake de Vale Tudo ser uma mulher preta já que a personagem é de Foz do Iguaçu, não de Salvador. Como se só houvessem pretos na Bahia. Só pra lembrar, a ex-ginasta Daiane dos Santos é gaúcha. 

Intérprete de Odete Roitman, Débora Bloch foi cirúrgica quando disse que sua personagem despreza o Brasil enquanto se aproveita dos seus recursos para enriquecer, além de falar coisas terríveis sobre o país e o seu povo.

Quantos de nós já ouviu sobre ou sofre da "síndrome do cachorro vira-lata"? Aquela velha opinião formada sobre tudo na gringa funcionar. A grama do vizinho ser a mais verde. O cabelo da mona o mais brilhoso. A educação privada de maior qualidade... E por aí vai.

O Brasil continua mostrando a sua cara

Vale Tudo ainda nem estreou e já tem pseudo especialistas prevendo o seu fracasso

A chamada mais recente de Vale Tudo, com a chegada da temida Odete Roitman ao Brasil, deixou os haters em polvorosa. "A cena é igual aos folhetins mexicanos"; "A fala parece texto decorado"; "O cabelo está muito armado e ela caricata".

Quando foi que perdemos a empatia? Ou quando vamos nos abrir para o novo? Quem sabe, dar uma chance ao desconhecido ou crédito ao coleguinha. 

+ Alice Wegmann cria expectativa com cena de Vale Tudo: "Quero muito"

"Nossa, a versão original era melhor". Se não fosse boa ela não teria sido um sucesso. Assim como O Poderoso Chefão, no cinema, Romeu e Julieta, no teatro, O Lago dos Cisnes, no ballet e O Fantasma da Ópera, na Broadway.

Clássicos partem de boas histórias, conquistam corações, arrastam multidões e, por isso, merecem ser contados e recontados sempre que possível para que cheguem ao maior número de pessoas.

Vale Tudo ainda nem estreou e já tem pseudo especialistas prevendo o seu fracasso

Ninguém duvida que Beatriz Segall (1926-2018) fez de sua Odete Roitman uma vilã icônica, mas a atriz já não está mais entre nós. Assim como outros atores que participaram da versão original, além do próprio autor, Gilberto Braga. Por que eles se foram não merecem ser homenageados por outros colegas?

A novela já foi ao ar, já teve o tempo dela, já fez história, e se esta releitura de agora será boa ou ruim só vamos saber com o tempo. Então, espere o primeiro capítulo ir ao ar para detonar ou se render, mas com direito de causa.

Garanto que o meu olhar crítico, de quem assistiu a versão original, se lembra de cenas e de falas marcantes, e escreve sobre novelas há mais de 10 anos vai estar atento aos acertos e às falhas também. De coração aberto e de forma justa, não para lacrar ou ganhar likes.

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