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"Malhação" levanta debate ignorado: o assédio no futebol

Santiago em Malhação
"Malhação" aborda o assédio no futebol com o personagem Santiago - Reprodução

Publicado em 18/01/2019 às 18:21:52

Por: Naian Lucas

Malhação - Vidas Brasileiras” começou nesta semana a abordar um tema importante: o assédio moral no esporte. Através do personagem Santiago (Giovanni Dopico), que é homossexual, a novela vem apresentando situações constrangedoras nos bastidores.

O esporte é um produto que chama atenção de bilhões de pessoas, tendo o futebol como o mais popular, contando com torcedores apaixonados em todo planeta. Ocorre que, os bastidores futebolísticos são protegidos, apesar da imprensa cobrir os maiores clubes do país. O cuidado com os atletas, principalmente nas categorias de base, tornou-se uma realidade social isolada do olhar jurídico. Mesmo com as humilhações, raramente um jogador denuncia um ato de abuso.

Ao abordar o tema, “Malhação: Vidas Brasileiras” escancara as situações de clara violação dos direitos humanos que treinadores, dirigentes e até colegas podem estar cometendo com os atletas.

Santiago decide jogar futebol na novelinha teen para agradar seu pai, Lourenço (Jackson Antunes). A obrigatoriedade do pai em fazer seu filho jogar futebol parece uma tentativa do folhetim em investir no tema machismo, outro problema que assola a vida de milhões de brasileiros diariamente.

O jogador sofre assédio moral dos seus colegas de time e do próprio técnico, Bryan (Diogo Monteiro). Essas ações são consideradas criminosas e podem comprometer a saúde física e mental dos que sofrem com este tipo de abuso.

Falar com os jovens é preciso

Em agosto de 2017, o site Lance! realizou reportagem especial para tratar do tema. A introdução explica que o assédio moral, assim como o sexual, é um tabu no meio desportivo e por isso é pouco tratado. Um atleta revelar esse problema é difícil, pois ele sente medo dos julgamentos e o preconceito, além da repercussão negativa que marcaria o seu nome. O resultado final é que o jovem nem consiga continuar na profissão.

Aleksander Montrimas, ex-goleiro, escreveu o livro “Futebol – Sonho ou Ilusão?”. Ele aborda o assunto assédio no futebol e faz palestras nas categorias de bases dos clubes de futebol de São Paulo, expondo os problemas que abuso moral e sexual podem acarretar na vida dos jovens atletas.

Mesmo suas palestras não tendo como função um ambiente para denúncias, Aleksander gosta de falar do assunto para educar os atletas e criar um ambiente favorável as pessoas que vivem no meio do futebol, deixando-o menos hostil e mais empático.

1/3 dos jogadores da primeira divisão do futebol brasileiro sofreram assédio moral

O UOL divulgou uma pesquisa sobre o tema no final do ano passado. O portal escutou os jogadores que disputaram o Campeonato Brasileiro da Série A em 2018 e o resultado surpreendeu os atletas e os jornalistas que cobrem o meio esportivo. Cerca de 30% revelou ter sofrido ou escutou algum colega de profissão ter passado por este tipo de problema. Número preocupante, pois há poucas denúncias revelados pela imprensa sobre o tema.

Em 2017, por exemplo, Felipe Melo falou que estava sofrendo assédio moral no Palmeiras. Apesar de ser visto como durão, sentiu-se humilhado por ter sido afastado pelo então técnico do clube, Cuca. Com a carreira vitoriosa, Melo relatou estar passando por assédio moral, o que representa o problema de outros colegas de profissão, boa parte que faz parte das categorias de base, principalmente nos clubes pequenos de diversos estados do país.

Não é só no futebol

Em abril de 2018, o GloboEsporte.com trouxe à tona a denúncia chamada “Escândalo na ginástica”. Em quatro meses de investigação, mais de 40 ginastas contaram casos de abusos cometidos por Fernando Carvalho, ex-técnico da seleção brasileira.

Com entrevistas e relatos, até atleta de seleção esteve envolvido no drama. Petrix Barbosa não se escondeu e explicou passo a passo das ações de Fernando.

O assunto causou pressão no Comitê Olímpico Brasileiro (COB) para que fosse assinado o Termo de Compromisso de Ações de Educação e Prevenção ao Abuso e Assédio Sexual e Moral no Esporte.

É provável que o final de Santiago seja feliz e mostrando ao público uma lição de vida. Porém, na vida real, vários profissionais e jovens deverão continuar passando por este problema. A tendência é que autores e produtores de televisão busquem pautas em cima do tema, dando a oportunidade dos telespectadores conhecerem um mundo obscuro do esporte.

Naian Lucas escreve há 10 anos e já fez de tudo um pouco nas redações. Apaixonado por televisão, é roteirista e trabalha na área desde 2014. Atualmente, é repórter do NaTelinha e aficcionado por tudo que envolve dramaturgia. Siga-me no Twitter: @naiaan



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