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O que fizeram com a dramaturgia da Record?

Novelas viraram palco da Igreja e afugentou um público estável


Cena de Todas as Garotas em mim, da Record
Todas as Garotas em Mim é um fiasco na Record - Foto: Reprodução/Playplus
Por Daniel César

Publicado em 06/07/2022 às 04:45,
atualizado em 06/07/2022 às 08:00

Fazer novelas bíblicas passa longe de ser um problema e a Record mostrou isso anos atrás com Os Dez Mandamentos (2015), a crise da emissora paulista não se dá pelo fundo histórico, mas pela escolha de seus diretores. Sob o comando de Cris Cardoso, o canal trocou a chance de se tornar um marco na dramaturgia brasileira para ser apenas uma portinha de igreja numa esquina mal iluminada do Brasil.

Não se trata de um preconceito com religião X ou Y, até porque o debate não é este, mas puramente dramatúrgico. Quando a segunda maior TV aberta do país abre mão de suas produções de dramaturgia e transforma o departamento em uma ala da Igreja Universal do Reino de Deus, é preciso protestar. Os brasileiros, no entanto, estão acostumados a fazer protestos pontuais, principalmente em redes sociais, o que não basta.

Quem não gosta das novelas da Globo, e nas últimas gestões esse número só cresceu, graças à tramas estapafúrdias e constrangedoras, poderia rapidamente migrar para a Record, principalmente na década retrasada. O canal produziu novelas que ainda hoje estão na memória afetiva dos brasileiros, como Vidas Opostas (2006) e Poder Paralelo (2009). Já não acontece mais porque ninguém que goste de dramaturgia iria assistir Todas as Garotas em Mim.

A produção beira o absurdo e, caso alguém do mercado internacional assista à produção jamais acreditaria se tratar de uma novela da segunda maior emissora do Brasil, considerado um dos principais produtores do formato. E a história é tão abaixo da crítica que nem vale gastar mais tempo do que se gastou debatendo a sucessão de equívocos. Até porque, ela é apenas consequência, não causa.

O advento do bolsonarismo no Brasil contribuiu para que a Record tentasse dar um passo maior que as pernas. Ao eleger um presidente apoiado pelos evangélicos, a Igreja Universal parece ter achado que seria uma boa ideia usar sua maior audiência, a dramaturgia, para tentar converter novos nomes. A partir daí, suas tramas perderam o fundo narrativo e ganharam apenas ares de evangelismo.

A destruição da dramaturgia parece ser o primeiro passo para a destruição da própria Record. O canal que chegou a estar "a caminho da liderança", entra numa rua, que parece ser de mão única, ao segregar o público e obrigá-lo a consumir apenas evangelismo. Seria mais leal e honesto colocar pregações de Edir Macedo ao invés de fingir que está produzindo dramaturgia. E os números de Todas as Garotas em Mim mostram que, aparentemente, o público percebeu o estratagema e pulou fora.

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