Opinião

Hoje não, hoje não, hoje sim! O fim do casamento entre Globo e Fórmula 1

Globo anunciou que não irá transmitir as corridas de Fórmula 1 em 2021


Ayrton Senna ídolo da Fórmula 1
Divulgação

O título, referência a uma das mais famosas frases da transmissão de Fórmula 1, proferida pelo narrador Cléber Machado ao ver que, mais uma vez, Rubens Barrichello, principal piloto brasileiro na categoria à época, entregaria a vitória ao alemão, heptacampeão e companheiro de Ferrari Michael Schumacher na linha de chegada. 

 A marmelada, responsável por uma das maiores crises da história da categoria e que escancarou ao público uma prática corriqueira nos bastidores, aconteceu no grande prêmio da Áustria, em 12 de maio de 2002, um Dia das Mães e o "hoje não", a que o narrador se referia, era exatamente à manobra realizada por Rubens.

 Machado falava sobre o ocorrido no ano anterior, no mesmo circuito, quando o piloto brasileiro cedeu o segundo posto ao mesmo Schumacher para que este marcasse mais pontos e se aproximasse do título da temporada quando Barrichello vinha na liderança, com boa vantagem e na última volta.

Ao fazer a última curva, o narrador, em êxtase, narrava o que seria a segunda vitória de Rubinho na Fórmula 1, dizendo que no ano anterior ele havia cedido passagem para o alemão, mas "hoje não.... hoje não...." e, o banho de água fria.... "hoje SIM".

Toda a frustração de Cléber e da torcida brasileira naquele Dia das Mães se traduziu na eterna frase. Mas os problemas estavam apenas começando. Após esse banho de água fria, a competição de automobilismo mais popular do mundo entrou em declínio na audiência. No Brasil, 2003 ainda obteve bons números, até superiores aos do ano anterior, mas a partir daí, a competição passou a cair também em terras tupiniquins.

Em 2008, graças a um Felipe Massa avassalador, conduzindo uma Ferrari potente, mas incompetente nos pits, estava na posição de campeão até Hamilton cruzar em sexto no GP do Brasil e faturar o título por apenas um ponto de diferença.

Em 2009, durante a classificação para o GP da Hungria, uma mola do carro de Barrichello se solta e acerta a cabeça de Massa, que vinha logo atrás com sua Ferrari. Neste momento, além da preocupação com a saúde do piloto, o Brasil viu acabarem suas chances de ver um piloto vencendo na categoria em curto prazo.

A queda de audiência da Fórmula 1

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Massa voltou em 2010, mas a Ferrari já não era mais a mesma. O companheiro, Haikönen no ano anterior, passou a ser Fernando Alonso. E o brasileiro assumiu o papel de escudeiro. A audiência? Continuava a cair para 12, 10, depois 8 pontos de média.

Apesar da queda no Ibope, a Globo mantinha um faturamento respeitável com as transmissões, os direitos de televisão eram menos custosos e a parceria na transmissão do GP do Brasil conferiam à emissora o status necessário para garantir as transmissões em canal aberto, exceto aquelas que conflitavam com o horário do futebol, ainda que, aos poucos, o espaço do evento fosse diminuindo.

Em 2015, os treinos classificatórios migraram para o Sportv. Em 2016, testes de transmissões exclusivas no canal esportivo do grupo começaram a ser realizados.

Em 2017, a categoria mudou de mãos e as negociações de contrato passaram a ser menos favoráveis ao Brasil. Era sabido que, ao término do acordo, tanto o GP do Brasil quanto a emissora detentora dos direitos teriam dificuldades em manter os valores acordados na era Ecclestone.

Isso porque o ex-poderoso chefão do evento era simpático ao país, casado com uma brasileira e proprietário de fazendas no interior de São Paulo. Os novos proprietários, ao contrário, estavam interessados nos valores agregados pelas transmissões à categoria.

Por valores, entenda-se espaço na TV aberta destinado a treinos, exibição de pré e pós-corrida, transmissões de todos os GPs em TV aberta e ao vivo, entre outros detalhes, que fizeram a relação azedar ainda mais.

Começou-se, então, a especulação sobre uma possível saída do GP do Brasil de Fórmula 1, e o fim das transmissões da categoria em TV aberta. E o que antes era especulação, acabou se materializando neste mês de agosto.

Na última sexta-feira (28), após várias notícias que cravavam o fracasso das negociações, o Grupo Globo confirmou que não renovará o contrato com a Liberty Media pelos direitos da principal categoria de automobilismo mundial para 2021.

A justificativa foi uma "revisão de seu portfólio de direitos", mas a realidade é que a conta não fechou. Nem para um lado, nem para outro. A saída da Fórmula 1 é mais um evento nesta sequência de "reajustes financeiros" da emissora carioca. 

 

Reajustes que liberaram nomes como Abel Neto, Miguel Falabella, Lito Cavalcante, Mauro Naves, Bruna Marquezine e inúmeros outros nomes de primeiro escalão da televisão brasileira.

 Reajustes que também ameaçam a exibição de jogos de competições sul-americanas e até a transmissão da Copa do Mundo de Futebol do Catar, em 2022. Com uma reestruturação como pano de fundo e a pandemia de escudo, a maior emissora do país parece estar sentindo o peso de ter concorrentes à altura.

Acostumada a nadar de braçada em um território em que lucrava 10 vezes mais do que todo o faturamento da principal concorrente, a Globo passa a se adequar à realidade de concorrência forte (Disney, Turner,...), endinheirada e sem necessidade de recuperar o investimento a curto prazo. O tempo dirá se será exitosa esta adequação.

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