Análise

Antônio Calloni erra a mão e constrói vilão de história em quadrinhos em "Assédio"

Ator interpreta médico estuprador na minissérie da Globo

Antônio Calloni erra a mão e constrói vilão de história em quadrinhos em
Antônio Calloni é Jorge Sadala em "Assédio". Foto: Divulgação

Daniel César
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Daniel César

Daniel César é jornalista formado, pós-graduado em linguística e em roteiro de televisão, com mestrado em Literatura. Trabalha com o universo da televisão desde 2010 e já fez cursos de dramaturgia com nomes como Carlos Lombardi e Thelma Guedes.

Publicado em 18/05/2019 às 05:40:54

A arte de interpretar não é um ofício como outro qualquer. Diferente de outras profissões, a atuação exige que, a cada novo trabalho o profissional crie algo completamente diferente, o que é muito raro em outros ramos. E, mesmo grandes destaques em sua área podem cometer erros, como é o caso de Antônio Calloni em "Assédio".

O ator é o protagonista da minissérie do Globoplay e que está sendo exibida às sextas-feiras na Globo. Jorge Sadala é livremente inspirado no médico Jorge Abdelmassih, referência em genética e em fertilização e que foi acusado e condenado por estuprar dezenas de mulheres.

Ao se pensar num profissional desta estirpe - mesmo na série, fruto desta análise - percebe-se que as mulheres, sedentas por realizarem o sonho de terem um filho - acabam envolvidas pelas promessas do médico, além do currículo que o colocava entre os maiores profissionais do ramo. Para isso funcionar no campo da verossimilhança era necessário algo básico: um personagem convincente na arte da sedução.

E não estamos falando em sedução com nuances sexuais. Até porque, o médico deveria convencer também os maridos a investirem na fertilização para que as esposas conseguissem engravidar. A base de toda a premissa de "Assédio" é essa. Mulheres estupradas num momento de vulnerabilidade e por um profissional que depositam toda a confiança. Essa é a premissa da minissérie.

Acontece que o jeito bonachão, o tom de voz alterando entre o sussurro e os gritos não convencem. Calloni optou por compôr um vilão de novela pastelão. Quem assiste "Assédio" e o vê em cena confunde-se achando estar diante de um novo parceiro de Tereza Cristina na nova versão de "Fina Estampa".

O tom explosivo e cheio de toques e empurrões funcionaria muito bem na perspectiva da família. Mas não é possível comprar que tantas mulheres tenham sido enganadas por um homem que não inspira confiança. Ninguém, em sã consciência, deixaria uma mulher sozinha com um homem que sequer disfarça seu apetite sexual diante de suas "presas". 

A falta de camadas e sutilezas na composição do personagem atrapalharam todo o andamento de uma história promissora que, embora não tivesse um roteiro perfeito, conseguia ser correto. E, mesmo que Amora Mautner, a diretora artística do projeto, tenha acertado a mão no ritmo, na fotografia e em outros elementos, errou ao permitir que Calloni desse um ar de vilão de história em quadrinhos para um personagem que deveria ser misterioso.

"Assédio" não chega a ser uma obra prima. Certamente no mundo existem séries e minisséries muito melhores, para ficar na atual temporada, pode-se citar "Escape at Danemorra" e "Sharp Objects". Mas a produção poderia oferecer momentos mais cativantes caso o ator tivesse acertado a mão. Ainda que o erro não diminua sua carreira, seu currículo não pode servir de desculpa para análises. Errou e errou feio.


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