Análise

A Dona do Pedaço e a irregularidade de Walcyr Carrasco às 21h

Novela das nove tem grande apelo popular, mas nivela enredo por baixo

A Dona do Pedaço e a irregularidade de Walcyr Carrasco às 21h
Divulgação/ TV Globo

Publicado em 20/10/2019 às 13:00:56 ,
atualizado em 21/10/2019 às 01:56:48

Por: Thallys Bruno

O horário das nove da Globo tem motivos para sorrir à toa. Após o fracasso de O Sétimo Guardião (2018-19), de Aguinaldo Silva, envolta em polêmicas sobre sua autoria que chamaram mais atenção do que seu insosso enredo; A Dona do Pedaço, de Walcyr Carrasco elevou os índices do horário em seis pontos. A receita da novela, porém, segue a mesma de outras tramas do novelista na faixa: um enredo de grande apelo popular e personagens de fácil identificação, nivelado por baixo através de uma condução rasteira e duvidosa. Como explicar que um produto de qualidade tão irregular consiga tanto sucesso?

Uma crítica frequente à história de Carrasco é a latente falta de inteligência dos perfis, na qual o autor se pauta para conduzir suas ações. O exemplo mais óbvio é a protagonista, a boleira Maria da Paz (Juliana Paes). Filha de matadores e separada de seu amor, se deixou levar pela lábia do golpista Régis (Reynaldo Gianecchini) e da filha Josiane (Agatha Moreira), uma fracassada digital influencer que tentou de tudo para roubar a mãe. E meses se passaram sem que Maria desse conta do verdadeiro caráter da herdeira. Agora, é a vez do fotógrafo Téo (Rainer Cadete) experimentar a “burrice” da vez, também se deixando levar pela megera.

Ainda há a falta de cuidado do autor com tramas que envolvem temas importantes, como a homossexualidade e a transfobia – frequentemente abordadas de forma caricatural. A sequência em que Britney (Glamour Garcia) revela a Abel (Pedro Carvalho) ser transgênero precisou passar por uma modificação em seu texto, originalmente muito mais forte que o que foi ao ar. Sem falar no enredo de Agno (Malvino Salvador) e sua relação homoafetiva com Leandro (Guilherme Leicam), que desperta o desprezo da própria filha (Cássia, vivida por Mel Maia).

Também merece destaque a insuficiente exploração de pontos promissores, desperdiçando oportunidades de explorar ainda mais os laços entre personagens – como o parentesco entre Maria da Paz, a ambiciosa vilã Fabiana (Nathalia Dill) e a influencer Vivi Guedes (Paolla Oliveira), estas últimas sobrinhas da empresária. A possibilidade de Josiane não ser filha da protagonista; aventada com a chegada da doce Joana (Bruna Hamu), também não foi para a frente até agora.

Estes pontos, curiosamente, também foram vistos nas duas outras novelas que Walcyr Carrasco escreveu para o horário: Amor à Vida (2013-14) e O Outro Lado do Paraíso (2017-18). Ambas compartilham com a atual história das nove alguns destes vícios, como a falta de sensibilidade em temas tabus (caso do núcleo do médico Samuel em Outro Lado, beirando o nível do antigo Zorra Total) e o texto rasteiro, por vezes incompatível com a direção.

No entanto, a novela também tem qualidade. A principal delas é o enorme sucesso comercial trazido por seus personagens. A Dona do Pedaço praticamente ressignificou a relação entre a dramaturgia e as ações de merchandising, permitindo à Globo rever antigas restrições – como a nova campanha da montadora Fiat, que trouxe influencer Vivi Guedes como sua estrela, em vez de sua intérprete. Pouco depois, Caio Castro (que vive o lutador Rock) e Juliana Paes representaram seus perfis em merchandisings das Casas Bahia; além de outras ações envolvendo marcas como iFood e Hope. Nas redes sociais, o sucesso da blogueira de moda se reflete em seu instagram real (estiloviviguedes), que converge ficção e realidade e mobiliza um número expressivo de seguidores (até o momento, quase dois milhões)

Outro bom ponto é o elenco estrelado reservado pelo autor, que, em sua maioria, cumpre seus papeis com muita competência. As já citadas Juliana Paes e Paolla Oliveira, novamente juntas após viverem rivais na aclamada A Força do Querer (2017), brilham absolutas e dão dignidade às trajetórias de Maria da Paz e Vivi Guedes. Nathalia Dill também merece elogios pela inescrupulosa Fabiana; Caio Castro encontrou o tom de seu Rock; Mônica Iozzi diverte como a empresária Kim; além da constante presença de atores veteranos – o autor é atualmente o que mais dá espaço para a geração mais experiente. Destes, se destacam especialmente as grandiosas Laura Cardoso (como Joana) e Ana Lucia Torre (a rigorosa governanta Berta).

O estilo de Walcyr Carrasco costuma contrapor fãs e detratores de seu trabalho. Os primeiros alegam que existe um preconceito contra o estilo assumidamente popular do novelista; enquanto os que o criticam se pautam na falta de sutileza de seus textos, baseados na constante reiteração – exemplos pra isso não faltam, como os bordões “eu cresci num convento” (de Fabiana) e “me chama de Jô” (de Josiane), exaustivamente repetidos. É normal que o autor mantenha este estilo – aliás, não é o único. No entanto, o que se discute aqui é que o autor atualmente vem se acomodando em uma fórmula de qualidade duvidosa, que persiste devido às generosas audiências de seus trabalhos.

Além de reconhecidamente habilidoso, Carrasco é um profissional altamente versátil – é autor de novelas, romances, poemas, contos, adaptações literárias e peças de teatro. É conhecido também por sua constante produtividade, fazendo praticamente uma novela por ano e escrevendo para todos os horários. E é justamente por isso que chama a atenção essa sensação de “acomodação”, uma vez que o autor adota às 21h um estilo que tem muito mais a ver com suas tramas das 18h, como O Cravo e A Rosa (2000-01, em reprise no Viva) e Chocolate Com Pimenta (2003-04), cuja recepção de público e crítica é muito superior.

Por tudo isso, o grande apelo popular e o poder raro de “vender” seu produto parecem ser mais interessantes do que um melhor tratamento e isso pode explicar o sucesso das últimas tramas de Walcyr Carrasco – o que, todavia, não justifica nivelar tudo tão por baixo. Uma boa prova de que é possível fazer uma trama popular respeitando a inteligência o público é a novela atual das 19h, Bom Sucesso, de Rosane Svartman e Paulo Halm, que tem como principal pauta de seu enredo a literatura.

Walcyr Carrasco tem muitos méritos em sua carreira. Sua habilidade em capturar os telespectadores tem lhe rendido muitos sucessos em todas as faixas. Mas é preciso frisar: fazer sucesso em todos os horários é bem diferente de escrever bem para todos os horários. E é justamente na faixa das 21h que moram os seus trabalhos mais irregulares – embora seja improvável que o autor mude seu estilo enquanto o sucesso permanecer. Ainda assim, fica a esperança de que o autor cuide melhor de seus textos – ao menos em seu próximo grande projeto, a anunciada continuação da elogiada Verdades Secretas (2015).


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