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Coluna Especial

Carlos Lombardi e os bastidores de Kubanacan

Autor conta detalhes de bastidores da novela que volta em dezembro no Globoplay

Montagem de foto com o Pescador Parrudo, de Kubanacan, e o autor Carlos Lombardi
Carlos Lombardi fala sobre os bastidores de Kubanacan - Foto: Montagem
Redação NT, com Carlos Lombardi

Publicado em 26/11/2020 às 04:33:00

Estava quase terminando de escrever O Quinto dos Infernos quando entendi que não ia ter férias. Precisava fazer outra novela. Mas não tinha ideia alguma. Lembrei de Eduardo Figueira falando que seria ótimo se fizessem outro Que Rei Sou eu. Era muita ousadia, a novela do Cassiano era fantástica. Mas a ideia ficou zunindo pela minha cabeça feito mosca varejeira.

Ao mesmo tempo sabia que não queria fazer outra novela urbana passada em Rio ou São Paulo. Lembrei de Mário Lúcio dizendo que uma coisa que gostava em minhas novelas era o fato delas serem solares. Solar, pensei? A essa altura só em praias do Nordeste ou no Caribe.

Caribe soou bem. Entrei na internet (sim, ela já existia naqueles tempos de pré-história) e fui ver praias do Caribe. E uma ilha grande aparecia no mapa, Cuba. Fui ouvir, já cismado, de novo um disco de Ney Matogrosso. A música se chamava Kubanacan. Pensei, é essa. Meu reino que parece o Brasil, mas não é é esse. A música me vendeu a ideia.

Só sabia que não podia ser apenas uma gozação com as mazelas políticas brasileiras. Claro que elas estariam presentes, mas eu precisava de um plot. Tinha consciência que não sabia escrever novelas com fiapos de plot como Cassiano fazia brilhantemente. Eu precisava de uma história para contar. Não porque era metido mas porque sabia dos meus limites. Tinha esbarrado em várias narrativas de espionagem, tanto em livros como em filmes. Parei no clichê agente-secreto-amnésico-que-não-sabe-que-é-James Bond. Havia várias histórias assim.

Achei que precisava de um início enigmático, então o fiz cair do céu sendo tirado inconsciente das águas por pescadores. Lá já havia uma mulher insatisfeita no amor pronta para se apaixonar. (A colônia de pescadores era minha homenagem a Ivany que adorava ter um núcleo de pescadores, era o jeito dela colocar o mar em suas tramas).

Carlos Lombardi e os bastidores de Kubanacan

Ao mesmo tempo, iniciava a narrativa do que acontecia no palácio do governo onde o capitão Carlos Camacho usava sua amante Mercedes, a primeira-dama, para se livrar do presidente. Ele dá um golpe de estado nacionalista, guinando o país a direita. Não me interessava falar na ditadura cubana, achei mais interessante narrar o que acontecia antes da revolução.

(Diga-se de passagem, Letícia Sabatella, escalada para fazer Lola, se recusou a fazer a novela quando as gravações já acontecia porque não queria participar de uma crítica ao regime cubano. Expliquei para ela que não tinha crítica nenhuma, a crítica era ao Brasil e que o ditador da novela estava mais para Fulgêncio Batista, o populista de direita que Fidel Castro derrubou do que o próprio Fidel. Mas não consegui fazer ela compreender o óbvio, que se houvesse revolução seria no final da novela e os revolucionários seriam os mocinhos. No fim, não reclamei do destino porque consegui escalar Adriana Esteves e tive uma Lola incrível).

Claro que logo percebi que, para explicar os acontecimentos que marcavam a trajetória de Esteban, a única explicação passava pelo terreno da ficção científica e da viagem no tempo – a mesma descoberta que anos depois os produtores de Lost fizeram. Também sabia que se contasse isso para Mário Lúcio ele mandava me internar, ficção científica era tabu. Não mencionei nada e segurei a entrada de elemento de ficção científica para o meio da novela, onde ninguém ia ligar muito.

Wolf implantou a novela bem, era uma explosão de luz, cor e rumba. O elenco foi se encontrando rapidamente em seus papéis e a novela pegou. Foi, claro, mais uma novela tumultuada. Humberto Martins ficou doente, teve que se afastar. Me falaram para dar uma solução definitiva, não esperar por ele. Mas meses depois ele estava bem e arranquei o personagem do mundo dos mortos, ele volta tentando um golpe de estado contra a própria mulher, então chamada de presidenta (Acho que foi uma premonição da minha parte chama-la assim).

Depois de 227 capítulos todo mundo estava arrebentado, mal humorado e tudo que acontece numa novela que se estende tanto. Mas valeu a pena.


Carlos Lombardi assina coluna especial à convite do NaTelinha. Novelista e autor de sucessos como Quatro por Quatro (1994), Uga Uga (2000) e, claro, Kubanacan (2003), é considerado um dos grandes roteiristas da faixa das sete nas décadas passadas e terá sua estreia no Globoplay com o retorno da novela, prevista para 12 de dezembro.

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