Coluna Especial

Rússia ocupa espaço na TV e no rádio da América Latina após cortes de Trump

Fernando Morgado explica por que a estratégia de Vladimir Putin desafia a hegemonia midiática dos EUA


Montagem com Donald Trump e Vladimir Putin
Donald Trump ajuda Rússia na mídia latino-americana - Foto: Montagem/NaTelinha

Enquanto Donald Trump desmantela a histórica Voz da América e corta o financiamento para as redes PBS (TV) e NPR (rádio), Vladimir Putin avança na comunicação. E avança justamente no território em que o secretário de Defesa de Trump, Pete Hegseth, disse ser o “quintal” dos Estados Unidos: a América Latina.

Essa expansão é feita com inteligência, pois contorna as redes sociais, campo dominado pelas big techs estadunidenses. A Rússia aposta na TV aberta e no rádio, justamente os meios que alguns insistem em dizer que estão mortos, mas que são as duas únicas mídias eletrônicas gratuitas e, também por isso, os meios mais acessíveis do planeta.

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A tática russa na radiodifusão

A comunicação russa já vinha ampliando sua presença global, investindo na produção em diversos idiomas. Nas últimas semanas, a expansão se acelerou. Em 16 de junho, a RT, rede internacional de TV criada pela Rússia em 2005, passou a ser transmitida no Chile em sinal aberto pelo Telecanal.

E no primeiro dia deste mês de agosto, a Sputnik, agência de notícias russa, estreou no FM do Rio de Janeiro. Usando a frequência da Rádio Metropolitana, transmite programação 24 horas em português, combinando notícias da cidade e da região metropolitana com conteúdos alinhados à visão política do Kremlin.  

Estas ações deixam lições. Em primeiro lugar, a Rússia reconhece a relevância da radiodifusão, confirmada por pesquisas em todo o mundo. Segundo dados de 2024 da Kantar IBOPE Media, oito em cada dez pessoas no Grande Rio escutam rádio e 62% da população chilena consome TV aberta, sendo que, destes, 58% assistem todos os dias.  

Somado a isso, está a confiança acumulada por esses meios durante décadas e o papel crítico que exercem em emergências.  

Soft power e influência global

Em segundo lugar, reforça o papel do soft Power atualmente. Em um contexto de mudança acelerada na ordem mundial, o espaço aberto pelos Estados Unidos será cada vez mais preenchido por outros países se, além do aspecto econômico, eles agirem nos campos da comunicação e da cultura.

Esses setores difundem ideias e temas de interesse político e diplomático, influenciando as decisões de governos e a percepção das populações. Sem falar que a presença midiática amplia o poder de barganha em qualquer negociação, inclusive na esfera comercial.  

Rússia ocupa espaço na TV e no rádio da América Latina após cortes de Trump

A verdade é que a Rússia segue os passos dos Estados Unidos, que construíram uma poderosa estrutura de mídia para difundir seus interesses no mundo, combinando recursos públicos via U.S. Agency for Global Media com recursos privados, representados pelos grandes estúdios de Hollywood.  

Em tempo: chama atenção como o governo Trump descarta recursos que garantiram uma hegemonia impressionante para os Estados Unidos ao longo do último século. Quanto mais isso ocorre, mais se abre espaço para que Rússia, China e outras nações ocupem o terreno deixado pelo Tio Sam.  

O papel estratégico do Brasil

Nesse tabuleiro da geopolítica da comunicação, o Brasil ocupa um papel estratégico. É o maior país da América Latina em termos econômicos, populacionais e territoriais. Tem riquezas de toda ordem e uma tradição diplomática incontestável, que lhe garante ser escutado pelo mundo. Além disso, por meio do BRICS, que aproxima Brasil e Rússia, impulsiona o Sul Global e desafia o poder dos Estados Unidos. 

Justamente por isso, a radiodifusão deve ser tratada como um ativo essencial. Estado e empresários brasileiros precisam dedicar cada vez mais atenção e investimento a ela, pois TV aberta e rádio são meios regulados e baseados em concessões públicas, livres do controle direto das gigantes de tecnologia dos Estados Unidos. Fortalecer esses meios é fortalecer o Brasil. 


Fernando Morgado é consultor e palestrante com mais de 15 anos de experiência nas áreas de mídia e inteligência de negócios. É Top Voice no LinkedIn e tem livros publicados no Brasil e no exterior, incluindo o best-seller Silvio Santos – A Trajetória do Mito. Foi coordenador adjunto do Núcleo de Estudos de Rádio da UFRGS. Mestre em Gestão da Economia Criativa e especialista em Gestão Empresarial e Marketing pela ESPM. Acesse o perfil de Fernando Morgado aqui.

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