Silvio Santos: como manter vivo o legado do maior nome da cultura popular brasileira
Fernando Morgado, biógrafo de Silvio Santos, analisa os desafios do SBT e da família Abravanel para preservar a essência do comunicador
Publicado em 17/08/2025 às 05:00,
atualizado em 17/08/2025 às 08:12
Neste primeiro ano após o falecimento de Senor Abravanel, é inevitável fazer um balanço que aborde tanto o lado pessoal quanto o profissional. No plano pessoal, a ausência do pai, do avô e do bisavô ainda é sentida de forma profunda pela família. O artigo assinado por Silvia Abravanel e publicado pelo NaTelinha no último Dia dos Pais deixou isso bem claro, pela carga emocional contida em cada palavra.
No campo profissional, o vazio deixado por Silvio Santos, personagem criado por Senor Abravanel, é igualmente evidente. Seja no palco, onde encontrava sua razão de viver, seja no dia a dia das empresas do Grupo Silvio Santos. No SBT, em especial, Senor Abravanel e Silvio Santos se encontravam de forma plena.
Quando escrevi o livro Silvio Santos – A Trajetória do Mito, afirmei que o SBT era o maior legado televisivo de Silvio Santos justamente por essa síntese. Ela se desdobrava em inúmeros programas criados e apresentados por ele, e ainda em todos os outros aspectos da gestão do negócio.
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O desafio da família Abravanel
Diante de tamanha genialidade, a família Abravanel se impôs um grande desafio: manter vivo o legado de seu patriarca. Um desafio que se torna ainda maior diante da dimensão que Silvio Santos alcançou, não apenas na televisão, mas em toda a cultura popular brasileira.
Após mais de 15 anos de pesquisa, reafirmo: Silvio Santos foi o maior nome da cultura popular nacional. E preservar esse legado não é tarefa simples, ainda mais com o peso da ausência sentida por familiares e por todos os trabalhadores do Grupo Silvio Santos, especialmente do SBT.
Silvio era a alma da emissora, e ela se alimentava dessa alma. Criador e criatura eram praticamente um só. Surge, então, uma pergunta central: como a criatura, que dependia do criador para ter energia vital, pode seguir?
O que manter e o que transformar
A resposta passa por entender que manter o legado não significa apenas reproduzir formatos que fizeram sucesso há 30 ou 40 anos, por mais que despertem uma gostosa nostalgia. Quando Silvio Santos criou muitos desses programas, o contexto competitivo, o comportamento do público e o perfil da sociedade eram completamente diferentes.
O que mantém vivo o legado, de forma saudável, é resgatar a alma de Silvio Santos enquanto formulador de uma poderosa técnica de comunicação popular que alcançava pessoas de todos os pontos do Brasil, e não apenas de São Paulo, sem priorizar determinadas religiões ou tendências políticas.
O exemplo da Disney
Empresas fortemente ligadas à imagem de seus fundadores enfrentam desafios parecidos. Sei que as irmãs Abravanel têm grande admiração pela Disney, e esse caso traz lições valiosas.
Após a morte de Walt Disney, a The Walt Disney Company passou por anos de dificuldades de gestão. Todos hesitavam em tomar decisões sem antes se perguntar o que Walt faria. Faltava compreender que o gênio da animação era irrepetível e que suas experiências de vida, responsáveis por moldar sua visão, eram únicas.
A virada ocorreu quando a empresa contratou executivos muito experientes e com sucessos comprovados no mercado, aliando criatividade artística com disciplina financeira, e alinhando os princípios da marca ao contexto mercadológico dos anos 1980, muito diferente daquele em que Walt viveu seu auge, entre as décadas de 1940 e 1960.
Para quem deseja se aprofundar nesse exemplo, recomendo a leitura da parte IV do livro A Magia do Império Disney (Senac São Paulo, 2007), de Ginha Nader, campeã do Show Sem Limite, programa que J. Silvestre apresentou nos primeiros tempos do SBT.
A trajetória única de Silvio Santos
Com Silvio Santos, o desafio é semelhante. Ele nasceu na Lapa, berço da boemia carioca, foi camelô, viveu os tempos pioneiros do rádio, trabalhou como corretor de anúncios, abriu empresas e, por fim, formou uma rede de televisão não por ser seu grande sonho, mas para garantir espaço publicitário e preservar seu grupo empresarial.
Sua trajetória foi moldada por enormes obstáculos e por uma percepção de Brasil construída nas ruas. Essa vivência não corresponde à realidade da nova geração que hoje ocupa cargos no grupo.
O olhar para as pessoas

Outra lição valiosa deixada por Silvio foi sua capacidade de enxergar as pessoas e entender seu valor real. Ele precisava de poucos elementos para formar um juízo preciso sobre alguém.
Sou prova disso. Silvio divulgou o meu livro Silvio Santos – A Trajetória do Mito no SBT sem nunca ter falado comigo ou me visto pessoalmente. Nosso encontro só aconteceu meses depois, quando a obra já havia vendido várias edições graças à exposição que ele proporcionou.
Essa habilidade de identificar quem realmente agrega, compreender intenções e ouvir observações técnicas sinceras foi decisiva para que Silvio superasse dificuldades e evitasse danos maiores à emissora, mesmo quando lidava com pessoas bem-intencionadas, mas sem a capacidade necessária para ocupar determinados espaços no SBT.
O caminho para o futuro do SBT
Acredito que o futuro do SBT depende de três pontos principais:
- Aproximar as melhores pessoas e entender suas reais intenções.
- Alinhar os princípios deixados por Silvio Santos à realidade do Brasil atual.
- Traduzir esse alinhamento em uma estratégia clara, coerente e adaptada aos novos tempos.
Não é uma combinação simples. Exige tempo e maturação para que se consolide. Mas, se bem executada, pode levar o SBT a escrever novas páginas de sucesso em sua história.
Fernando Morgado é consultor e palestrante com mais de 15 anos de experiência nas áreas de mídia e inteligência de negócios. É Top Voice no LinkedIn e tem livros publicados no Brasil e no exterior, incluindo o best-seller Silvio Santos – A Trajetória do Mito. Foi coordenador adjunto do Núcleo de Estudos de Rádio da UFRGS. Mestre em Gestão da Economia Criativa e especialista em Gestão Empresarial e Marketing pela ESPM. Acesse o perfil de Fernando Morgado aqui.