Olhar TV

Aclamada em exibição original, "Cordel Encantado" faz bonito em reprise

Aurora/Açucena (Bianca Bin) e Jesuíno (Cauã Reymond)
Divulgação/ TV Globo

Publicado em 10/03/2019 às 06:46:41 ,
atualizado em 10/03/2019 às 07:06:58

Por: Thallys Bruno

A escolha de “Cordel Encantado” (2011) para o “Vale a Pena Ver de Novo” parecia um tiro no escuro. Com as decepcionantes audiências de “Celebridade” (2003-04) e “Belíssima” (2005-06) durante o ano passado, imaginava-se que alguma trama de maior apelo massivo junto ao público fosse escolhida. No entanto, a emissora surpreendeu ao anunciar a terceira novela das autoras Duca Rachid e Thelma Guedes. Inicialmente desacreditada – assim como na original, onde não se sabia se a aposta em mesclar realeza e sertão daria certo –, Cordel vem surpreendendo positivamente. E não faltam motivos para isto.

O primeiro deles é o inventivo e ousado enredo. A história da princesa Aurora/Açucena (Bianca Bin) e sua paixão por Jesuíno (Cauã Reymond) era pautada em uma ideia pouco convencional, um risco assumido pelas autoras. No entanto, a fantasia da realeza europeia com o sertão nordestino, com direito a príncipes, vilões, cangaceiros e coronéis, deu muito certo e logo conquistou o público. Na atual reprise, a escolha da novela se revelou um grande acerto por propor uma assumida fantasia, longe dos pesados enredos de suas antecessoras.

Também merece destaque o elenco, trazendo grandes interpretações de Débora Bloch (a duquesa Úrsula), Marcos Caruso e Zezé Polessa (que divertiram como o hilário primeiro-casal Patácio e Ternurinha), Nathalia Dill (ótima como a empoderada e impulsiva Doralice), Osmar Prado (genial na pele do delegado Batoré), Enrique Diaz (Seu Eusébio, pai adotivo de Açucena), Renato Góes (Fausto, filho de Patácio), Berta Loran (Efigênia, a rainha-mãe de Seráfia), além da presença de atores de rara presença na TV, como Emílio de Mello (General Baldini) e Mariana Lima (Helena, mãe do príncipe Felipe, vivido por Jayme Matarazzo) e da luxuosa participação de José Celso Martinez Corrêa, do Teatro Oficina, nos primeiros capítulos.

A novela ainda chama atenção por ter sido o primeiro trabalho de maior destaque do saudoso Domingos Montagner, que deu vida ao valente cangaceiro Herculano, líder do temido bando que assustava a cidade de Brogodó. Logo em seu primeiro grande momento, Montagner colheu inúmeros e merecidos elogios e ainda apresentou uma excelente sintonia com Débora Bloch, a partir do momento em que Úrsula se envolve com Herculano – química esta repetida com a mesma excelência na linda “Sete Vidas” (2015), de Lícia Manzo. Ironicamente, a novela teve gravações na mesma região em que o ator faleceu tragicamente, pouco antes de concluir sua participação em “Velho Chico” (2016), onde interpretou Santo.

A direção da equipe liderada por Amora Mautner e Ricardo Waddington foi outro ponto positivo, impressionando pela riqueza de detalhes e pelo impacto das sequências de ação, especialmente nas batalhas dos cangaceiros contra o poderoso vilão Timóteo Cabral (Bruno Gagliasso). As cenas conseguiam mostrar a força das situações mesmo com carros antigos e cavalos, por se tratar de uma novela de época, mesmo que não especificada.

Claro, nem tudo foram flores. Bianca Bin e Cauã Reymond não convenceram como o casal protagonista e a mocinha irritava constantemente com seus ataques saltitantes de ciúme. Outro ponto negativo bastante comentado são os constantes ataques de Timóteo contra Açucena, tornando as situações repetitivas – algo recorrente na obra das autoras, como em “O Profeta” (2006-07) e na malfadada “Joia Rara” (2013-14). Por sua vez, Isabelle Drummond, que vinha do grande sucesso de sua Bianca em “Caras e Bocas” (2009-10), parecia mais uma figurante de luxo, com uma personagem quase sem função.

No entanto, estes defeitos não diminuem o conjunto primoroso apresentado por Duca e Thelma. Não à toa, a novela venceu os principais prêmios de televisão da época, como o Troféu APCA, Troféu Imprensa, Prêmio Extra e Prêmio Contigo – no qual também saíram vitoriosos os diretores Amora Mautner e Ricardo Waddington e Montagner foi escolhido em Melhor Ator Revelação. Este justo reconhecimento, aliado à boa audiência (26 pontos), tornou Cordel uma das melhores novelas das seis desta década.

E a reprise, desacreditada em meio à complexidade dos enredos de “Celebridade” e “Belíssima”, que pareciam ter afugentado o público, vem recuperando bem esta parcela perdida. Embora não atinja ainda um status de fenômeno, como “O Rei do Gado” (1996-97, reprisada em 2015) ou “Senhora do Destino” (2004-05, reprisada em 2009 e 2017); “Cordel” tem conseguido ótimos resultados, especialmente desde meados de fevereiro, marcando números acima dos 15 pontos – na última terça-feira de carnaval, por exemplo, a novela marcou 18 pontos, um ótimo número para um feriado, mesmo contando com a apuração do carnaval paulista vindo antes.

E os expressivos resultados de “Cordel” derrubam por terra a hipótese de que o “Vale a Pena” prejudicaria a audiência de “Malhação – Vidas Brasileiras”. Na mesma terça de carnaval, a péssima temporada assinada por Patrícia Moretzsohn, que não raramente empata ou derruba os números da antecessora, fechou com três pontos a menos que a novela de Duca e Thelma, evidenciando que o demérito é total e absoluto da fraquíssima edição atual da novelinha juvenil.

“Cordel Encantado” tem sido uma grata surpresa também na sua reprise. A primorosa obra das talentosas autoras Duca Rachid e Thelma Guedes – que voltarão ao ar no horário das 18h com “Órfãos da Terra”, após uma inexplicável ausência de cinco anos – tem merecido todos os elogios e o bom ibope marcado na sua nova exibição. Contradizendo a famosa máxima, está aí um caso em que a audiência e a qualidade andam juntas.

Thallys Bruno Almeida é um grande fã de teledramaturgia brasileira e adora escrever sobre novelas e séries. Agora está no NaTelinha. Siga-o no Twitter: @thallysbalm


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