88 anos

Silvio Santos e suas polêmicas na visão do biógrafo Fernando Morgado

A convite do NaTelinha, autor de "Silvio Santos: A trajetória do mito" faz análise no dia que o apresentador completa 88 anos

Fernando Morgado e Silvio Santos
Fernando Morgado é autor do livro "Silvio Santos: A trajetória do mito"

Publicado em 12/12/2018 às 05:40:28 ,
atualizado em 12/12/2018 às 09:13:52

Por: Redação NT com Fernando Morgado

Ao longo dos seus mais de 70 anos de trajetória profissional, sendo 55 deles à frente do programa que leva seu pseudônimo, Silvio Santos construiu uma verdadeira mitologia em torno de si. Foi o que afirmei logo no título do livro biográfico que escrevi, "Silvio Santos: a trajetória do mito" (Matrix, 2017), que, até o presente momento, tem cinco edições vendidas.

Durante boa parte dessa trajetória, Silvio manteve-se distante de grandes polêmicas. Quase todos dos mais de cem formatos que já apresentou podem ser qualificados como tradicionais, nada controvertidos. Não foram poucos, inclusive, os que criticaram o apresentador por isso, apontando ser esse o motivo dele não ter atraído telespectadores mais jovens em décadas passadas.

Em 2008, Silvio Santos mudou radicalmente a dinâmica da sua maratona dominical. De uma sucessão de atrações com nomes e cenários distintos, criou um programa contêiner, onde, em um mesmo espaço, tudo cabe. Nesse tipo de formato, o animador transita entre diferentes conteúdos com maior fluidez, ficando mais à vontade para dizer aquilo que lhe der na cabeça. Outro exemplo de programa contêiner que comprova tal liberdade é o "Domingão do Faustão", no qual a verve do apresentador dita o ritmo no ar.

Mas não foi apenas o "Programa Silvio Santos" que mudou durante a última década. Nesse tempo, a internet ganhou força, inflada pelas discussões cada vez mais acaloradas nas redes sociais. Como num ringue virtual, usuários se transformam em lutadores.

Seus golpes são os textos de sites (profissionais ou não) desesperados em aumentar sua audiência diante do crescimento da concorrência e da queda de faturamento com publicidade. Para alguns, vale tudo por cliques, likes, retweets e views. Trata-se da reedição de um modelo de negócio tão antigo quanto os tabloides ingleses ou as capas da extinta revista Amiga.

Silvio Santos, mais incontido do que nunca em seu programa contêiner, transformou-se em fonte segura de polêmica, sendo este o combustível que mantém funcionando o negócio que descrevi no parágrafo anterior. E quando Silvio Santos se junta a outra figura famosa e querida por muitos brasileiros, como Claudia Leitte, está pronto o prato perfeito a ser servido ao público e àqueles que tentam influenciá-lo.

Não me cabe discutir a fala de Silvio Santos durante a edição de 2018 do "Teleton" (campanha que Silvio realiza há duas décadas em prol da AACD), nem a reação de Claudia Leitte. Apenas quem é alvo de declarações desse tipo é que tem o direito de julgá-las em toda a sua amplitude. O fato é que, passados dois dias do ocorrido, Claudia Leitte declarou em sua conta no Instagram que se sentiu constrangida pelo animador. Ponto final. Como pesquisador de comunicação, me cabe analisar, passado o calor do momento, o rumo que a discussão em torno desse fato tomou nas redes sociais.

Não demorou para que usuários tomassem suas posições. Uns defenderam Silvio Santos, que estava ao vivo em uma campanha humanitária, diante de sua mulher e de suas seis filhas, às vésperas de completar 88 anos de idade e sem próstata (retirada em uma cirurgia a que se submeteu em 4 de julho de 2013). Outros defenderam Claudia Leitte, que, para muito além do ocorrido, acabou elevada ao posto de diva progressista, apesar de, conforme publicado por diversos órgãos de imprensa, já ter sugerido que mulheres devem fazer sexo com seus parceiros mesmo sem ter vontade, ter afirmado que não desejava que seu filho fosse homossexual e ter comparado com nazistas aqueles que criticaram sua atuação no Rock in Rio 2011.

Por trás de tudo isso, como bonequeiros, estiveram veículos de comunicação, blogueiros (escondidos no anonimato ou não), políticos e militantes partidários. Ainda na ressaca de um traumático processo eleitoral, eles inflamaram uma massa de internautas composta, em boa medida, por pessoas que pouco ou nada sabem das trajetórias de Claudia Leitte e Silvio Santos. A falta de razão foi tal que houve até quem chamasse o animador, que é judeu (e, segundo ouviu de rabinos, levita), de nazista. Isso sem falar de outras ofensas disparadas para ambos.

Em meio a tanto ódio, Silvio Santos exercitou uma de suas maiores especialidades: aparecer. E ele não precisa de muito esforço para isso, conforme deixou claro durante o diálogo que teve com Jô Soares na edição de 2017 do Troféu Imprensa: "Quando você apareceu com o cabelo branco, eu disse: Não! Não! Ao contrário! Aí é que pareceu pintado. Pintou o cabelo de branco pra quê?", perguntou Jô. Sem vacilar, Silvio respondeu: "Pra poder chamar atenção, qual é o problema?".

Seja como for, Silvio Santos chama atenção, inclusive dos jovens, como há muito tempo não se via. Tal fenômeno justifica ainda mais uma das frases que escrevi no livro "A trajetória do mito": "Alguns podem rejeitá-lo, enquanto outros podem amá-lo, mas ninguém pode ignorá-lo". E é dessa amálgama de sentimentos que nascem as razões que motivam as pessoas a assistirem aos programas que ele apresenta e a comprarem os produtos que ele vende, a começar pela linha de cosméticos que Claudia Leitte assina na Jequiti.


Fernando Morgado é professor, consultor, palestrante e escritor nas áreas de marketing, inteligência de mercado e comunicação. Possui nove livros no currículo, incluindo o best-seller "Silvio Santos: a trajetória do mito" (Matrix, 2017). Coordenador-adjunto do Núcleo de Estudos de Rádio da UFRGS. Membro da Academy of Television Arts & Sciences, entidade realizadora do Emmy, maior premiação da TV mundial. http://fernandomorgado.com.br



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