Desgaste

Telenovelas atuais chamam atenção pelo desinteresse de seus enredos

Nas principais emissoras, maioria de obras é cansativa ou vazia, com exceções





Malhação - Vidas Brasileiras
Elenco de Malhação - Vidas Brasileiras - Foto: Reprodução

Publicado em 22/10/2018 às 08:00:00

Por: Thallys Bruno

Nos últimos anos, as emissoras de TV apresentaram várias novelas de sucesso. Com diferentes histórias, enredos e construções, não é difícil citar exemplos recentes como “Avenida Brasil” (2012), “Carrossel” (2012), “Os Dez Mandamentos” (2015), “Verdades Secretas” (2015), “A Força do Querer” (2017) e “Carinha de Anjo (2016-18). Mas também há períodos em que o quadro apresentado não é nada animador, seja pela deficiência de qualidade nos enredos, ou por desgaste de suas temáticas. E é justamente isto que vem afetando as principais novelas inéditas atuais – que serão objeto de análise da coluna de hoje, desconsiderando as reprises e tramas mexicanas.

Para começar, “Malhação – Vidas Brasileiras” pode ser considerada, literalmente um retrocesso em relação a tudo que a aclamada antecessora, “Viva a Diferença” apresentou. Baseada na série canadense 30 Vies e revezando as histórias de seus personagens jovens em um rodízio de duas semanas, a temporada assinada por Patrícia Moretzsohn peca pela total superficialidade das situações. E não se trata apenas de limitação de tempo.

Não há um envolvimento com o telespectador, os dramas são jogados do nada e se encerram também de forma abrupta. Para piorar, praticamente nenhum nome do elenco jovem consegue se destacar – à exceção de Joana Borges, que vive a ginasta Verena, mas teve melhor sorte em sua novela anterior, Rock Story (2016-17). Como resultado disso, a temporada apresenta uma média de 17 pontos, quatro a menos que o elogiado enredo de Cao Hamburger.

“Espelho da Vida”, trama das 18h de Elizabeth Jhin, merece um desconto, afinal ainda nem completou um mês no ar. E, de todas, é a mais promissora. Caminhando pela seara espiritual particular à obra da autora, a trama vem investindo especialmente nos encontros de Cris (Vitória Strada), com sua vida passada – a doce Júlia Castelo, uma jovem assassinada nos anos 30, que será objeto de um filme protagonizado por ela e dirigido pelo namorado Alain (João Vicente de Castro).

Vitória tem sido o maior destaque do elenco, reafirmando o talento mostrado em “Tempo de Amar”, onde viveu a sofredora Maria Vitória. Ao mesmo tempo, o público tem o prazer de contar com talentos como Irene Ravache, sempre excelente como Margot; Ana Lucia Torre – divertida na pele de Gentil, e Alinne Moraes, cuja acertada composição para sua vilã Isabel transborda medo só pelo olhar. No entanto, alguns capítulos recentes têm andado em círculos, com pouco ou nada para mostrar – até mesmo a própria Isabel deixou de aparecer, ou apareceu em raras cenas. Ainda assim, é compreensível que a novela ainda esteja no começo e tem muito a apresentar. Desta forma, fica o desejo para que o enredo seja mais dinamizado, permitindo uma melhor condução dos temas.

Às 19h, “O Tempo Não Para”, de Mário Teixeira, prometia pela ousada sacada de “descongelar” uma família típica de 1886 em 2018, contraponto costumes de diferente épocas – em especial com o romance de Marocas (Juliana Paiva), mocinha da época mais antiga; e Samuca (Nicolas Prattes), um contemporâneo jovem empresário. Passados quase três meses da estreia, a sensação que se tem é que este trunfo se esgotou rapidamente. Os personagens parecem se adaptar rápido demais aos novos tempos.

Desde então, a novela vem se sustentando em uma inexplicável ciranda amorosa: Marocas se separou de Samuca ao descobrir que a Samvita foi construída sobre as terras do pai da garota, Sabino (Edson Celulari). Agora, o rapaz está se envolvendo com Waleska (Carol Castro), ex-capitã-de-fragata da Marinha, expulsa da corporação por uma armação. Waleska é ex de Elmo (Felipe Simas), melhor amigo de Samuca, que estava namorando Miss Celine (Maria Eduarda de Carvalho), preceptora da mocinha, alvo perfeito de Betina (Cleo), sócia da Samvita e ex-noiva de Samuca. Agora, o autor ensaia uma aproximação de Elmo com Damásia (Aline Dias), dama de companhia da protagonista. Já os outros núcleos parecem estagnados, sem evoluir ou apresentar enredos mais consistentes. Fica a impressão de que o autor se esqueceu de investir na história dos mesmos.

E “Segundo Sol”, de João Emanuel Carneiro, tema de coluna anterior no NaTelinha, se encaminha para sua reta final, tendo como foco a revelação de que Valentim (Danilo Mesquita) é o filho de Beto (Emílio Dantas) e Luzia (Giovanna Antonelli) que foi roubado por Karola (Deborah Secco). As sequências vêm impulsionando o ibope da novela e o autor promete nos próximos capítulos um foco ainda maior em Karola e Laureta (Adriana Esteves), especialmente com o retorno de Remy (Vladimir Brichta), dado como morto. Ainda assim, o saldo geral da novela é o de um grande “festival de burrice”. Inteligência e amor próprio são artigos em falta ali.

A começar por Luzia, que em praticamente nenhum momento foi capaz de confrontar as vilãs por tudo que fizeram a ela. Uma irritante passividade que cansou ao longo de quase seis meses de história, bem como a apatia de Valentim. Os males atingiram até mesmo Rosa (Letícia Colin) e Ícaro (Chay Suede), que vinham formando um empolgante casal “errático”. Nem mesmo o núcleo de Severo (Odilon Wagner) escapa da equivocada condução de JEC – quem engole fácil essa redenção repentina de Rochelle (Giovanna Lancellotti) após a doença?

Na Record, o grande problema continua sendo o desgaste do filão bíblico. As histórias religiosas vêm perdendo o fôlego progressivamente desde “O Rico e Lázaro” (2017) e seu ponto mais baixo foi o fracasso retumbante de “Apocalipse” (2018), prejudicada pelas constantes interferências da Igreja Universal. “Jesus”, em cartaz no ar, não chega a decepcionar como a antecessora, mas também não empolga. E, ironicamente, a emissora parece insistir neste gênero, já que estão previstas a série “Jezabel” e a novela “Gênesis”, baseada no livro bíblico que trata do princípio de tudo. Enquanto isso, nada se fala sobre a produção de uma novela não-religiosa – o último projeto anunciado, Topíssima, de Cristianne Fridman, segue na gaveta, sem definição se sairá do papel.

Enquanto isso, no SBT, o segmento infantil em nenhum momento dá sinais de cansaço. “As Aventuras de Poliana” garante uma confortável frente de audiência para a emissora de Silvio Santos no horário, mesmo em tempos de propaganda política. A movimentação mais recente na história de Iris Abravanel é relacionada à entrada de Thaís Melchior como nova intérprete da Tia Luísa.

Com um papel delicado nas mãos, Thaís vem conquistando seu espaço e driblando aos poucos a resistência à sua escolha, muito em função da popularidade da atuação de Milena Toscano, que precisou deixar a novela por estar grávida de seu primeiro filho. A solução soou rasa, uma vez que a novela está prevista para ir até o fim do ano que vem, o que daria tempo suficiente para Milena voltar e, com isso, Melchior poderia assumir outra personagem que representasse a função de Luísa durante a ausência. No entanto, isto até agora não vem comprometendo o saldo geral.

Analisando o panorama geral das obras inéditas de teledramaturgia atuais no ar, pode-se verificar que a fase não é boa. Quatro das principais novelas (“Malhação – Vidas Brasileiras”, “O Tempo Não Para”, “Segundo Sol” e “Jesus”) ou não empolgam ou causam irritação por suas incoerências de enredo, subestimando a inteligência dos telespectadores. Apenas “Espelho da Vida” e “Poliana” conseguem apresentar algo mais tragável ou atraente e, por isso, são as exceções positivas desta fase. Que novos tempos consigam se abrir com as próximas estreias, como “Verão 90” e “O Sétimo Guardião”.

Thallys Bruno Almeida é um grande fã de teledramaturgia brasileira e adora escrever sobre novelas e séries. Agora está no NaTelinha. Siga-o no Twitter: @thallysbalm



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