Opinião

O estrago que o remake de Vale Tudo fez na 1ª versão da novela

Qualquer menção à trama original agora envolverá a sombra de uma adaptação infeliz, que a Globo tenta vender como um grande sucesso


César (Cauã Reymond) e Odete Roitman (Débora Bloch) em Vale Tudo
César (Cauã Reymond) e Odete Roitman (Débora Bloch) se casam em Vale Tudo: mudanças na trama original deixaram a novela incoerente e absurda - Foto: Divulgação/Globo
Por Walter Felix

Publicado em 23/09/2025 às 05:51,
atualizado em 23/09/2025 às 11:23

Quando dizem que o remake de Vale Tudo "estragou" a primeira versão da novela, há sempre quem defenda que a obra original segue intacta, sem poder ser corrompida por qualquer adaptação. Quem pensa assim se engana. A releitura desastrosa que vai ao ar atualmente na Globo de fato fez um estrago na novela de 1988, ao menos sob a perspectiva da memória coletiva do grande público. A partir de 2025, qualquer menção àquele clássico da TV envolverá a sombra de um remake infeliz.

Na atualidade e em um futuro próximo, ao se falar em Vale Tudo, o que vem e virá à mente é a trama mais recente, com histórias mal elaboradas, um texto raso, de diálogos pobres, direção errante e fora do tom e atuações, em sua maioria, inconsistentes.

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Beatriz Segall como Odete Roitman
Beatriz Segall como Odete Roitman na versão original e insuperável de Vale Tudo - Foto: Divulgação/Globo

Dificilmente as novas gerações terão a noção de que Vale Tudo, a original, foi o protótipo de uma novela bem feita — a ponto de ser definida pela própria Globo como “a novela das novelas” e digna de ganhar uma releitura como carro-chefe das comemorações dos 60 anos da emissora.

Quem está gostando do remake talvez não tenha a real dimensão do que foi a primeira versão, de fato uma novela complexa e contundente, como esta tenta ser, sem êxito. Os autores tinham pleno domínio da história; não havia ali nada gratuito, nenhum capítulo em que a atenção do espectador se dispersasse.

Parece até óbvio que o apelo que a nova Vale Tudo tem com parte do público não venha das interferências feitas no enredo, mas justamente do potencial criativo de Gilberto Braga (1945-2021), Aguinaldo Silva e Leonor Bassères (1926-2004). A obra-prima foi dilapidada, mas não inteiramente, e o pouco que restou ainda garante o mínimo interesse da audiência.

Mudanças em Vale Tudo tornaram a novela absurda, perdida e incoerente

Os defensores atribuem as críticas ao fato de Manuela Dias ter mexido demais em uma história que, para alguns preciosistas, seria “imaculada”. Não é bem isso, afinal, mudanças e atualizações em remakes são sempre bem-vindas, desde que agreguem à premissa, sem desvirtuar o roteiro completamente de sua essência.

As principais críticas são justamente ao fato de as mudanças serem quase todas elas para pior. A autora incluiu no texto uma sucessão de bobagens – os bebês reborn foram o maior exemplo –, além de temas aleatórios mal abordados – entre eles, tráfico de animais, vício em apostas, diabetes, burnout e leucemia.

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Muitas vezes esses assuntos são completamente desconectados da história e em nada acrescentam ao enredo. Não rendem grandes momentos e saem do ar com a mesma rapidez com que foram introduzidos. São usados apenas para preencher espaço nos capítulos e repercutir nas redes sociais – o que acontece muitas vezes pelo ridículo das cenas.

Há ainda mudanças que tornam o enredo incoerente e inverossímil, como a boa-vida que a bilionária Odete Roitman (Débora Bloch) dá a César (Cauã Reymond), casando-se com um gigolô e admitindo-o como principal herdeiro. Ou ainda o mata-mata entre a vilã e Marco Aurélio (Alexandre Nero), que mais parece uma comédia de erros.

Taís Araujo e Bella Campos em Vale Tudo
Personagens centrais, Raquel (Taís Araujo) e Maria de Fátima (Bella Campos) chegam à reta final de Vale Tudo como meras coadjuvantes de um enredo perdido - Foto: Divulgação/Globo

A autora conseguiu se perder em um enredo tão bem armado a ponto de as duas figuras centrais da história, Raquel (Taís Araujo) e Maria de Fátima (Bella Campos), chegarem à reta final sem rumo certo, como meras coadjuvantes – a despeito do destaque que as duas atrizes vinham tendo em relação ao restante do elenco.

Nesse contexto, a Maria de Fátima influencer, totalmente modificada, serve como um símbolo do remake. A personagem da vez, apesar de divertida e carismática, é tola, ingênua, volúvel, sem a mesma força da malvada de 1988, vivida por Gloria Pires. Pelas mesmas características, é uma vilã bastante pertinente à segunda versão.

A Globo deve seguir vendendo a atual novela das 21h como um grande sucesso. O alto faturamento, resultado do excesso de merchans, e a repercussão, seja boa ou ruim, permitem à emissora ignorar a audiência abaixo do padrão do horário e a qualidade duvidosa. A nova Vale Tudo não é só ruim como remake; como uma novela independente, sem qualquer comparação com a primeira, também não para em pé.

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Vale Tudo é escrita por Manuela Dias e tem direção artística de Paulo Silvestrini. O remake é baseado na novela exibida entre 1988 e 1989, criada por Gilberto Braga (1945-2021), Aguinaldo Silva e Leonor Bassères (1926-2004) e que teve direção de Dennis Carvalho e Ricardo Waddington.

O NaTelinha divulga todos os dias os resumos dos capítulos, detalhes dos personagens, entrevistas exclusivas com o elenco e spoilers da novela Vale Tudo. Confira!

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