Crítica

Primária, Tudo por uma Segunda Chance é previsão de futuro terrível para novelas

Primeira trama vertical da Globo mira em um público menos criterioso e acerta no humor involuntário


Jade Picon como Soraia em Tudo por uma Segunda Chance
Em Tudo por uma Segunda Chance, Jade Picon interpreta vilã que tenta envenenar a melhor amiga para ficar com o noivo dela - Foto: Globo/Jaime Miranda
Por Walter Felix

Publicado em 26/11/2025 às 13:45,
atualizado em 26/11/2025 às 16:41

Primeira trama vertical da Globo, Tudo por uma Segunda Chance estreou na terça-feira (25) e alcançou, em poucas horas, milhões de visualizações nas plataformas digitais. Trata-se de uma produção primária, que mira em um público menos criterioso e acerta no constrangimento e no humor involuntário. Os bons resultados iniciais de audiência indicam um futuro terrível para as novelas brasileiras.

Na trama, Soraia (Jade Picon) quer separar o casal Lucas (Daniel Rangel) e Paula (Debora Ozório) para ficar com o milionário. Fingindo ser amiga, ela tenta matar a rival, mas é o rapaz quem acaba bebendo o veneno. A vilã então arma para incriminar a mocinha e tomar seu lugar. Os 10 primeiros capítulos já estão disponíveis; os próximos serão divulgados semanalmente, às terças-feiras.

Tudo por uma Segunda Chance é disponibilizada nos perfis da Globo no TikTok, Instagram, Facebook, X, YouTube e no Globoplay. O roteiro é de Rodrigo Lassance, com direção artística de Adriano Melo.

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A premissa de capítulos curtos, por si só, já reduz a complexidade dos personagens e da própria história. Não há tempo hábil para desenvolver nada com profundidade, o que parece não impedir a popularidade dessas produções.

Tudo é básico no "microdrama", do texto à direção e às atuações. Atriz bastante criticada e com apenas uma novela no currículo, Jade Picon faz caras e bocas e, ainda assim, do trio principal, é a que se sai melhor – ou apenas se mostra mais familiarizada com esse tipo de filmagem, na vertical.

Beth Goulart e Daniel Rangel
Beth Goulart e Daniel Rangel em Tudo por uma Segunda Chance - Foto: Globo/Jaime Miranda

Curioso é que veteranos, como Beth Goulart e Vanessa Gerbelli, em rápidas aparições, imprimam mais veracidade à atuação – mesmo estando habituados a décadas de carreira na televisão, no cinema e no teatro, que permitem desempenhos mais expansivos. São talentos que se mantêm no novo veículo.

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Os demais atores, em maioria, demonstram estranhamento em dizer um texto óbvio e de situações inverossímeis. Os diálogos não ajudam. Em cenas de hospital, o espectador ouvirá: "Meu Deus, é um milagre!". No presídio, os personagens soltam jargões como “Bem-vinda ao inferno” e “Todo mundo aqui é inocente”.

Há algumas cenas bem filmadas – como a sequência inicial –, mas que são poucas e incapazes de garantir a qualidade total do produto. As sequências, quase todas, parecem ter sido feitas no improviso, sem muito cuidado estético.

Débora Ozório
Debora Ozório em Tudo por uma Segunda Chance - Foto: Globo/Jaime Miranda

O formato e a linguagem, pensados exclusivamente para consumo pelas redes sociais e pelo celular, a princípio não parecem interferir nas novelas vistas na TV. Contudo, já há uma tendência dessas tramas a pensarem no consumo multiplataforma, com preocupação com memes e "cortes" de cenas para a web.

O novo mercado já converge com a produção tradicional de novelas. O remake de Vale Tudo, finalizado em outubro na Globo, foi um exemplo disso. Por vezes, a trama atropelada, sem nexo e repleta de absurdos, parecia ter a intenção de “viralizar”, virar assunto nas redes sociais, em detrimento da boa qualidade da dramaturgia.

Novelas verticais já formam um mercado mundial – no Brasil, títulos como A Vida Secreta do Meu Marido Bilionário e De Volta ao Jogo, da plataforma ReelShort, alcançaram grande público. Ao investir nesse tipo de produção, a Globo indica que está disposta a abrir mão de seu reconhecido pelo seu padrão de qualidade em nome de um bocado de visualizações.

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