Crítica

Ângela Diniz: Assassinada e Condenada une denúncia a um trabalho artístico primoroso

Oportuna, série da HBO Max transcende reconstituição de um crime histórico ao suscitar reflexões urgentes sobre feminicídio e violências contra a mulher


Marjorie Estiano e Emílio Dantas na série Ângela Diniz: Assassinada e Condenada, da HBO Max
Com Marjorie Estiano e Emílio Dantas, a série Ângela Diniz: Assassinada e Condenada está disponível no streaming em 6 episódios - Foto: Divulgação/HBO Max
Por Walter Felix

Publicado em 12/12/2025 às 12:05,
atualizado em 12/12/2025 às 12:07

A série Ângela Diniz: Assassinada e Condenada, já disponível na íntegra na HBO Max, narra um crime que não apenas chocou o Brasil, mas revelou um país mais misógino do que se supunha. O grito de horror da protagonista e o som dos tiros contra ela, logo na sequência inicial, ecoam na realidade dos dias de hoje.

Dirigida por Andrucha Waddington, a atração é lançada em meio à comoção gerada por casos de feminicídio e violência contra a mulher nas últimas semanas. Um claro sintoma de que o problema mostrado pela história real, ambientada nos anos 1970, se mantém na atualidade.

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Os seis episódios narram a trajetória da personagem-título, aqui vivida por Marjorie Estiano. Ícone da alta sociedade, ela desafiou padrões de gênero e sexualidade em sua época. Quando a separação ainda era um tabu, terminou o casamento com um homem milionário e seguiu vivendo amores intensos.

Sua história terminou tragicamente: foi morta em 1976 pelo então companheiro, Doca Street (Emílio Dantas). Durante o julgamento, a defesa usou a tese da "legítima defesa da honra" para justificar as ações do acusado. Assim, Ângela foi apontada como culpada pela própria morte.

A situação revoltou parte da opinião pública na época, mas recebeu o aval de uma outra parcela da população. Cinco décadas depois, a série faz uma provocação: o que mudou no Brasil desde então? Afinal, novas leis e outro entendimento da Justiça não impedem que tantas mulheres sigam sendo mortas diariamente.

Crítica: Ângela Diniz: Assassinada e Condenada une denúncia a um trabalho artístico primoroso

Ângela Diniz: Assassinada e Condenada é uma série oportuna – produzida pela Conspiração e inspirada no podcast Praia dos Ossos, da Rádio Novelo –, mas só o discurso não seria efetivo não fosse a direção competente de Andrucha Waddington e o roteiro bem amarrado de Elena Soárez, Pedro Perazzo e Thais Tavares.

Waddington repete o bom gosto e o apuro estético já visto em Fim (2021), do Globoplay, com destaque para a direção de arte e toda a reconstituição de época. O diretor conta histórias com um ritmo nada acelerado, mas em que cada cena tem sua razão de existir.

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Como a protagonista, Marjorie Estiano faz mais um bom trabalho. A atriz, uma escalação sempre acertada, usa sua expressão corporal para encarnar uma figura glamourizada – e, ao mesmo tempo, sofrida, eternamente refém de sua escolha pela liberdade e tantas vezes violentada, como mulher e como mãe.

O elenco ainda traz Antonio Fagundes como Evandro Lins e Silva, o advogado de defesa de Doca Street, destaque no episódio final. Também participam Thiago Lacerda, Camila Márdila, Yara de Novaes, Renata Gaspar, Joaquim Lopes, Emílio de Mello, Stepan Nercessian, entre outros.

A série transcende a mera reconstituição de um crime e um julgamento histórico ao propor reflexões sobre a permanência da violência de gênero no Brasil. A urgência do debate suscitado e o trabalho artístico primoroso garantem a Ângela Diniz: Assassinada e Condenada um lugar entre as melhores atrações do ano.

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