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Quarta Parede

De fake news a descaso com epidemia: O Bem-Amado ainda é retrato fiel da política brasileira

Vacinação, ameaças à imprensa, falso moralismo e outras pautas de 2021 estão presentes na novela, que chega ao Globoplay nesta segunda-feira (15)

Paulo Gracindo ao lado de Dirce Migliaccio, Ida Gomes e Durinha Durval em cena da novela O Bem-Amado
Moralista, Odorico Paraguaçu era amante das Irmãs Cajazeiras na novela O Bem-Amado - Foto: Reprodução/Globo
Walter Felix

Publicado em 15/02/2021 às 06:00:12

"E daí?", desdenha o prefeito Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo) ao ser informado que uma epidemia de tifo pode matar parte da população de Sucupira. A cena é da novela O Bem-Amado, de Dias Gomes, tão atual e reveladora sobre o Brasil dos tempos do coronavírus, mas que foi ao ar há quase 50 anos e poderá ser revista a partir desta segunda-feira (15), no Globoplay.

Inspirada em peça homônima do autor, escrita e encenada na década de 1960, a novela de 1973 tem como ponto de partida a candidatura de Odorico Paraguaçu a prefeito de Sucupira, com a promessa de criar um cemitério para a cidade. Nas eleições, ele trapaceia, inventa mentiras sobre seus adversários e consegue a vitória sobre a oposição. Tempos depois, sua principal promessa de campanha encontra um percalço: ninguém morre na cidade.

Desmoralizado, ele passa boa parte da história tentando eliminar ao menos um morador para finalmente conseguir inaugurar o cemitério, que segue sem nenhum defunto. A epidemia de tifo, na metade da trama, se torna uma esperança para os planos do político genocida. A ciência, representada na figura do médico Juarez Leão (Jardel Filho), impede que a doença se prolifere entre os moradores vacinando-os a tempo.

Quase 50 anos depois, personagens de O Bem-Amado parecem saídos dos telejornais de hoje

De fake news a descaso com epidemia: O Bem-Amado é retrato fiel da política brasileira
Em O Bem-Amado, Lima Duarte deu vida a Zeca Diabo, um ex-matador arrependido, disposto a mudar de vida - Foto: Reprodução/Globo

Sátira do Brasil dos anos 1970, O Bem-Amado parece ter sido escrita para os dias de hoje. Odorico tem a imprensa como a sua maior inimiga e, por isso, persegue e ameaça o jornalista Neco Pedreira (Carlos Eduardo Dolabella). O rapaz idealista acaba apaixonado pela filha do demagogo, a voluntariosa e rebelde Telma (Sandra Bréa), mas a moça gosta mesmo é de Juarez Leão, o outro inimigo do pai.

Além do déspota protagonista, outras figuras atualíssimas marcaram a novela, como as fanáticas defensoras da moral e dos bons costumes, as irmãs Cajazeiras - Dorotéia (Ida Gomes), Dulcinéia (Dorinha Durval) e Judicéia (Dirce Migliaccio); o perigoso Zeca Diabo (Lima Duarte), um matador arrependido tentado pelo Prefeito a voltar para o crime; e Zelão (Milton Gonçalves), que confecciona asas para tentar voar – representando a busca por liberdade no contexto da ditadura militar.

O Bem-Amado fez história não só por ter sido a primeira novela a cores da TV brasileira. Para adaptar sua peça teatral para a TV, Dias Gomes precisou driblar a censura federal, atenta desde início ao teor político da história e à fama de comunista do escritor. Ainda assim, ele criou uma produção que sobreviveu ao tempo, prova não só da genialidade de sua obra, mas de como tantos Odoricos seguem bem-amados pelo país, tão vivos hoje quanto meio século atrás.



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