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Terceira temporada de "Sob Pressão" mantém alto nível e acerta com crítica social

Terceira temporada de
Coluna torce para que terceira temporada não seja a última - Fotos: Divulgação/TV Globo

Thallys Bruno
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Thallys Bruno

Thallys Bruno Almeida é um grande fã de teledramaturgia brasileira e adora escrever sobre novelas e séries. Agora está no NaTelinha. Siga-o no Twitter: @thallysbalm

Publicado em 28/05/2019 às 06:21:51

Uma das séries mais elogiadas da Globo nos últimos anos, “Sob Pressão” retornou à telinha para mais uma série de episódios – no entanto, a emissora anunciou que esta é, até o momento, a última temporada da obra. Criada por Jorge Furtado e dirigida por Andrucha Waddington e Mini Kerti, a série baseada no filme homônimo – criado a partir do livro do médico Márcio Maranhão – estreou no começo de maio em novo dia (às quintas-feiras) e mantendo o alto nível de suas edições anteriores. No entanto, chama atenção também a especial abordagem de diferentes realidades do Brasil nos últimos anos.

O capítulo de estreia teve como principal pauta a paralisação dos caminhoneiros, ocorrida no fim de maio do ano passado (há exato um ano). Os protagonistas Evandro (Júlio Andrade) e Carolina (Marjorie Estiano), desta vez, iniciam a temporada como membros da equipe do SAMU, devido ao fechamento do hospital em que trabalhavam no fim da temporada anterior. E a primeira missão deles é atender ao chamado de um garoto ferido com um espeto de churrasco atravessado em seu corpo.

O temor de desabastecimento se fez presente na tentativa de liberar um caminhão com oxigênio e na falta de gasolina da ambulância. Para piorar, a missão de conseguir uma vaga em um hospital particular falhou, em virtude da recusa. Só restou recorrer ao amigo Décio (Bruno Garcia), que concordou em receber o garoto no hospital São Tomé Apóstolo, onde ele trabalha.

No episódio seguinte, a crítica social foi direcionada às milícias, através do drama de Dinho (Paulo de Mello), socorrido após bater no carro de Evandro. Logo se revelou que o rapaz era morador de uma comunidade comandada pelo miliciano Aristeu (César Ferrario) e, devido a uma dívida, entrou na mira do criminoso, que chegou ao ponto de desligar a energia de todo o hospital e causando o desespero da esposa, Jurema (Gabriela Moreyra). Ao mesmo tempo, traçou-se um paralelo com a importância da arte, ao mostrar o caso de Dora (Isabela Mendonça) que gostava de tocar violino, mas desmaiava repentinamente devido ao esforço físico, preocupando a mãe.

O capítulo posterior, por sua vez, deu espaço para a abordagem da violência contra a mulher através de Aline (Aline Deluna), esfaqueada em pleno shopping pelo próprio ex-namorado Douglas, vivido por Ricardo Martins (caso inspirado em um fato real) e socorrida pelos protagonistas – ao mesmo tempo, o agressor foi contido por algumas pessoas e também atendido no São Tomé Apóstolo. Em meio à recuperação, foram muito bem mostradas a desolação do atual marido da vítima e a insistência do ex, devidamente punido. Houve espaço ainda para o emocionante reencontro de Charles (Pablo Sanábio) com sua namorada Larissa (Nanda Félix), fazendo o ex-casal reviver memórias da juventude.

E, na última quinta (23), a homofobia e a sorofobia foram retratados na pele de Kleber (Kelner Macêdo), agredido em uma balada após Igor (Robson Maia), que o levou ao hospital, descobrir que ele é soropositivo. Ao ser atendido por Décio, Kleber se encantou pelo médico e ainda o procurou mais tarde, tascando-lhe um beijo intenso. As sequências chamaram atenção pela delicadeza da abordagem e pela coincidência de serem exibidas no dia em que o Supremo Tribunal Federal, por maioria de votos, criminalizou a homofobia, enquadrada no crime de racismo até que uma legislação específica sobre o tema entre em vigor. Ainda foram mostrados os casos de Célio (Bruno Ferrari), que descobriu não ser pai biológico da filha Érica (Isabella Aguiar) durante o exame de compatibilidade para um transplante de rim; e de Tomás (Sandro Cardoso), que se machuca durante um salto de paraquedas.

Todas estas bandeiras sociais foram exemplarmente levantadas pelo primoroso enredo da equipe de Lucas Paraizo e mesclaram-se aos já conhecidos problemas da saúde pública brasileira, como a falta de estruturas e suprimentos básicos, a corrupção e a burocracia. Ao mesmo tempo, novos conflitos pessoais se desenham para os personagens, como a divergência entre Evandro e Carolina sobre maternidade – o médico quer ser pai, mas a esposa não quer ter filhos; e a homossexualidade de Décio, que ganhou um novo contorno justamente no episódio da quinta-feira.

E o elenco, que já primava pela excelência dos atores do grupo fixo e pelas participações, normalmente de nomes pouco conhecidos do grande público, ganhou uma importante peça-chave: a talentosa Drica Moraes, que vive a infectologista Vera, uma mulher de personalidade forte e que não faz questão de esconder sua indignação com os problemas da saúde, mas que aos poucos irá se humanizar e que guarda um misterioso passado. A nova personagem já disse a que veio em sua estreia, no segundo capítulo, e apresenta uma sintonia muito boa com o elenco encabeçado pelos geniais Júlio Andrade e Marjorie Estiano, que nos últimos anos foram reconhecidos em diversas premiações pelos desempenhos impecáveis.

Ainda há muita coisa pra rolar nos próximos episódios de “Sob Pressão”. No entanto, o que foi apresentado nesta reta inicial mostra que a série mantém o alto nível de suas edições anteriores, algo que poucos produtos conseguem. Ao mesmo tempo, é uma pena que esta seja oficialmente a última temporada da série. É compreensível que a parada seja útil para despertar a saudade no público e para que os atores busquem novos desafios. No entanto, infelizmente (ou felizmente), a série ainda tem muitos assuntos para tratar. Fica a esperança de que seja retomada no futuro.


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