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Foi sem querer querendo

Chaves 50 anos: A inocência e simplicidade que virou fenômeno mundial

Lá vem o Chaves: série se tornou grande sucesso nos anos 70

Roberto Gómez Bolaños como o Chaves e sentado em cadeira de rodas
Roberto Gómez Bolaños marcou gerações como o Chaves - Foto: Divulgação
Thiago Forato

Publicado em 20/06/2021 às 06:00:00,
atualizado em 22/06/2021 às 23:25:48

O seriado Chaves (1971-1980) completa 50 anos de seu primeiro episódio neste domingo (20). A data é comemorada no mundo inteiro pelo Grupo Chespirito e a TV mexicana Televisa. Um vilarejo com organização habitacional típica dos bairros populares da Cidade do México daquela época, foi pano de fundo para situações de um menino de rua muito pobre, que passava grande parte de seu tempo em um barril, cujo um dos seus maiores desejos (ou o maior deles) era um simples sanduíche de presunto. Essa história criada por Roberto Gómez Bolaños (1929-2014) ganhou o mundo e se tornou um grande sucesso que atravessou gerações.

Para compor a série, Seu Madruga, um homem de meia-idade, desempregado, trapaceiro e que custava a pagar o aluguel; a Bruxa do 71... ops, dona Clotilde, uma senhora idosa, solteira e sem filhos; Chiquinha, uma criança astuta e inteligente; Kiko, uma criança que se gabava de ter os melhores brinquedos embora bastante carismático; Dona Florinda, uma mãe solteira que não gostava tanto de viver em um lugar que acreditava não estar à sua altura; Professor Girafales, o professor das crianças e pretendente de Dona Florinda; Senhor Barriga, o dono da vila e que cobrava o aluguel, pai de Nhonho, criança da elite e que brincava com os meninos da vila.

A história do sucesso de Chaves surpreende, às vezes, os próprios mexicanos. "Parece difícil de acreditar que um programa imaginado, escrito e transmitido pela primeira vez há 50 anos tenha feito, e ainda faça, sucesso entre os países da América Latina. Seu cenário e linguagem foram feitos a partir de tipos bem mexicanos. Até o nome do mais famoso personagem é uma espécie de 'localismo', pois a palavra 'chavo' se limitava à Cidade do México e era usada para designar crianças e adolescentes, principalmente entre a classe média e baixa", pontua Gabriela Rodriguez, consultora de tecnologia de 45 anos nascida em Toluca, no México, e que hoje vive na capital, Cidade do México, ao NaTelinha.

Mas embora o conteúdo e o tipo de humor do programa possam ser questionados e até criticados, o impacto que Chavo del Ocho, o nosso Chaves, e os demais personagens de Chespirito, o pequeno Shakespeare, tiveram na criação e recriação na identidade cultural e da América Latina ao longo de seus anos de exibição, não podem ser questionados.

O impacto cultural de Chaves

Não só no seu país de origem ou nos nossos vizinhos, o seriado acabou influenciando até no nosso vocabulário. Quem nunca soltou um "sem querer querendo" ou chamou alguém de "gentalha" em alusão a um dos bordões mais famosos da série?

O que ajuda a explicar o sucesso da série é justamente a ambientação. Culturalmente, há quem se sentia representado. Suas raízes na América Latina estavam ligados ao ambiente e relações que nela se realizam. A vila, palco da história, partilhava características habitacionais de países latinos.

Em contextos políticos e econômicos, a pobreza, falta de espaço e ausência de planejamento governamental para garantir o sucesso aos serviços públicos básicos que caracterizavam cidades, levaram à criação de unidades multifamiliares onde vizinhos acabaram compartilhando lugares comuns como pátio, banheiro, lugares para lavar e secar roupas, escadas, etc. A vida de uma família estava ligada à outra.

No livro As Chaves do Sucesso, de 2006, do autor Pablo Kaschner, ele comenta que a vila é um espaço peculiar de convívio de pessoas, e de classes sociais dispares, como ocorre nos países latinos.

O cenário, extremamente simples e feito com materiais baratos, dá a impressão de que pode se desfazer com um peteleco e se encaixa como metáfora à vulnerabilidade a que estão sujeitos, desde sempre, os chamados 'países em desenvolvimento'. A concepção cênica funciona como linguagem, na medida que traduz o cenário social desigual e subdesenvolvido da América Latina. E poucas paisagens traduziram isso tão bem. A latinidade, se é assim que podemos chamar, de Chaves, também se manifesta sob outra perspectativa: a do erro. A estética simplória, beirando o trash sob um ótica atual (ou basura, para ser mais latina, ou ainda bote, como dizem os mexicanos), bem como o enredo das histórias. [...] A 'solucionática' de Chaves é calcada na afirmação de uma afirmação de identidade latina, muito mais para o seu Madruga do que para o Batman. Mais para o anti-herói Chapolin que para o herói super-homem. Menos super, mais homem, mais humano. E tão modesto quanto honesto.

Pablo Kaschner no livro As Chaves do Sucesso

Não por acaso, no lançamento do livro O Diário de Chaves, em 1995, Bolaños comentou: "A moral de Chaves não deixa dúvidas. É materialmente possível ser pobre e ser feliz ao mesmo tempo. E assim como Chaves perdurou na TV, a pobreza não apenas perdurou, mas também cresceu na América Latina".

Chaves e o grande "boom"

Chaves 50 anos: A inocência e simplicidade que virou fenômeno mundial

Não demorou muito para que Chaves ganhasse fama além do México. A partir de 1973, a atração foi transmitida para quase toda sua região e sua popularidade o alçou como o programa mais visto da América Latina.

A série já foi dublada em mais de 50 idiomas e ganhou em 2006 sua versão em desenho. Nem o próprio Bolaños imaginava que seus bordões fossem tão repetidos assim. "Nunca imaginei que durariam assim, nem que eu escutaria essas frases sendo repetidas até em meios como na política", declarou ele numa entrevista concedida à BBC em 2005.

Em outra entrevista, desta vez ao portal El Universo, declarou não conhecer a fórmula do sucesso, mas sim a do fracasso. "Tentar lisonjear a todos. Nunca fiz concessões nem investiguei o que o público gostava, só fazia o que gostava, confiando que muita gente também gostava", simplificou.

Nos anos 70, a série já gozava de grande sucesso no México e grande parte da América Latina. Os bordões dos personagens já eram amplamente difundidos e conhecidos, mas no Brasil, a série demorou algum tempo para estrear.

Chaves 50 anos: A inocência e simplicidade que virou fenômeno mundial

Motivo de orgulho para os mexicanos

Bolaños levou o nome do México para o mundo todo, sobretudo em países vizinhos. O que fez com que todo o povo ficasse orgulhoso de ver um produto genuinamente mexicano ganhar tanto cartaz por aí afora. "Para nós, mexicanos, é um orgulho que Roberto Gómez Bolaños tenha conseguido alcançar um impacto massivo na América Latina e outras partes do mundo com seus icônicos personagens", fala ao NaTelinha Damian Vera, recepcionista de 24 anos, nascido e criado em Isla Mujeres, ilha situada a 13 quilômetros da costa de Cancún, no Caribe mexicano conhecido por suas belíssimas praias.

Gabriela, consultora de tecnologia que explicou anteriormente como a palavra "chavo" se expandiu no México, também se diz orgulhosa pelo êxito alcançado pelo Pequeno Shakespeare. "Bolaños levou o nome do país para o mundo. Fico admirada como a série conseguiu fazer tanto sucesso, inclusive no Brasil, que fala português", espanta-se ela. E Damian concorda. "Para nós significa muito que outros países o admirem e também desfrutem de seu trabalho, cujo objetivo era compartilhar sua mensagem a todos através dos seus personagens."

"A série faz parte do dia a dia dos mexicanos. Para mim, pessoalmente, é uma das minhas favoritas, devido ao alto impacto que gerou em mim. Me recordo que quando era criança, me levantava todas as manhã para poder desfrutar da série antes de ir à escola. Inclusive, em 2014, tive a oportunidade de visitar o circo do Professor Girajales, o professor Linguiça (risos), pessoa que infelizmente não conheci, porque infelizmente naquele dia, não se apresentou", relembra Damian, que já chegou a encarnar o Senhor Barriga em um festival do colégio cuja temática era justamente o Chaves.

Chaves, aliás, foi uma tradução que causou espanto aos dois mexicanos entrevistados. Ambos questionaram o que significa. "Chaves como o ditador venezuelano?", estranhou Damian. Respondi que a pronúncia é a mesma e o título no Brasil não tem significado. Depois disso, enviei a abertura da série que fez sucesso no SBT e o aclamado episódio O Disco Voador. "Não conseguimos parar de rir com a dublagem. Seu Madruga?", divertiu-se Damian, que viu o conteúdo em português ao lado de amigos e afirmou que também achou curiosa a abertura. "A introdução é muito diferente", opina o jovem.

A chegada de Chaves no Brasil

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Em um pacote da Televisa em meio às novelas, o SBT adquiriu Chapolin e Chaves em 1984. A qualidade de produção do seriado destoava do padrão de telenovelas da Televisa, e Silvio Santos ficou de analisar se ficaria ou não com o pacote, que só poderia ser adquirido caso Chaves também fosse exibido.

Na época vice-presidente da emissora, Luciano Callegari lembrou, em uma entrevista ao livro Chaves: Foi Sem Querer Querendo, de 2006, que no primeiro contrato de cinco anos, cada episódio custou US$ 250, sem a dublagem, e depois passou a custar US$ 500.

O ex-executivo da emissora ainda comentou que disse não ao seriado, e não se interessou por ele em um primeiro momento. "Em razão da péssima qualidade da imagem, e também me pareceu, na oportunidade, que não teria grande chance de sucesso na nossa grade", bradou.

Os diretores do SBT foram unânimes. Para eles, Chaves não tinha qualidade, mas Silvio Santos contrariou a todos e disse que compraria o pacote da rede mexicana. O sucesso foi instantâneo, se tornando um curinga na programação do canal.

O apagão de Chaves na TV

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Há exato um mês, em 20 de maio, o filho de Bolaños, Roberto Gómez Fernandes, participou de uma live no Instagram e garantiu que trabalha para que as séries do pai como Chaves e Chapolin retorne à TV. O executivo pediu paciência aos fãs da produção e que têm a expectativa que em breve as atrações vão estar disponíveis ao público.

"Eu não posso dormir tranquilo até que volte ao ar. Para mim, é uma prioridade. Espero que esteja de volta logo. Às vezes se tomam decisões em circunstâncias complicadas. E foi o que aconteceu”, contou o responsável por cuidar das histórias criadas pelo Chespirito.

“Uma cadeia de circunstâncias de pessoas envolvidas, eu me incluo, que tomaram decisões que levaram a isso. Tenho que fazer até o impossível para que retorne. E logo voltará. Peço um pouco de paciência, mas posso dizer com certeza que as séries voltarão. E espero que seja logo”, acrescentou ele.

Com a decisão de Roberto, Chaves e Chapolin precisaram sair do ar em dezenas de países, inclusive no Brasil. Ao longo de 36 anos, as produções eram consideradas verdadeiros “curingas” da programação do canal, recuperando a audiência de horários problemáticos.

Os mais de 1.200 episódios de Chaves, Chapolin e do programa Chespirito pertenciam à Televisa há 45 anos, quando se fundiu ao canal 8 (TV Tim), que transmitia as séries. Um acordo entre Bolaños e a gigante da comunicação latina revelou que esta parceria aparentemente eterna teria prazo de validade.

"Roberto Gómez Bolaños tinha apalavrado um contrato de usufruto dos personagens e de sua criação literária até 30 de julho deste ano, quase seis anos depois de sua morte. E não renovaram os direitos, a Televisa não quis pagar", disse Edgar Vivar, intérprete do Sr. Barriga.

Em outras palavras, Bolaños estipulou uma data limite para a Televisa, produtora de seus humorísticos durante duas décadas, continuar lucrando com as reprises e exportações de Chaves. Se a rede quisesse as séries por mais tempo, teria que negociar com ele ou com seus herdeiros.

Nas redes sociais o Grupo Chespirito fez um post sobre os 50 anos de Chaves:



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