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Exibição dupla e episódio em plano-sequência escancaram a alta qualidade de "Sob Pressão"

Exibição dupla e episódio em plano-sequência escancaram a alta qualidade de
Divulgação/ TV Globo

Publicado em 01/07/2019 às 05:48:19

Por: Thallys Bruno

Desde sua primeira temporada, “Sob Pressãotem angariado merecidos elogios de público e crítica, além de ótimos resultados de audiência. A série médica criada por Jorge Furtado chegou à sua terceira temporada mantendo o alto nível das anteriores e expandindo a mensagem sobre o caos da saúde pública brasileira para levar à tela os grandes problemas do país. No entanto, o ápice viria na última quarta-feira, quando a série exibiu dois episódios de uma só vez. E um deles, o segundo, chamou a atenção por um forte detalhe: ele foi todo gravado em longos planos-sequência, sem qualquer tipo de corte.

Os dois episódios marcaram a estreia do ator Júlio Andrade, intérprete do Dr. Evandro, como diretor – o primeiro é assinado apenas por ele, enquanto o segundo foi um trabalho conjunto com Andrucha Waddington, diretor geral e artístico da série. E ambos refletiram a dura realidade das milícias no Rio de Janeiro, trazendo ainda a volta do perigoso Aristeu (o talentoso César Ferrario), que já havia causado estragos no segundo capítulo e voltou ainda mais cruel e frio.

Na primeira parte da exibição, mostrando uma festa junina promovida pela comunidade próxima ao hospital São Tomé Apóstolo, uma garota se queimou gravemente ao tentar pular uma fogueira e foi necessária a doação de um broncoscópio. Evandro inicialmente relutou, no entanto, acabou aceitando o referido equipamento – deixando claros os dilemas éticos que a série retrata.

No entanto, o que viria a seguir se tornou um dos episódios mais empolgantes e aterrorizantes da série. Evandro e Carolina (Marjorie Estiano) foram feitos de reféns após Aristeu ser atingido em um confronto com a polícia na referida comunidade, em meio a um mutirão de saúde promovido pelo hospital. E foi justamente neste segundo capítulo que a excelência da série se fez valer ainda mais: cada um dos três blocos foi filmado em uma sequência única de câmera, sem qualquer tipo de corte. A movimentação constante deu ainda mais realismo ao clima de terror empregado pelo roteiro da equipe de Lucas Paraizo e André Sirângelo.

O episódio exigiu um grande esforço da equipe e contou com extensos ensaios para que o roteiro ganhasse veracidade e impacto. Júlio, estreando como diretor, promoveu a coordenação de toda a movimentação do elenco e equipe técnica, dirigindo “dentro da cena”, enquanto Andrucha dirigia “de fora”, segundo as palavras do próprio. O resultado deu muito certo e evidenciou a versatilidade do grandioso ator, que esteve diante da empreitada mais difícil da temporada e realizou um trabalho de excelência junto a toda a equipe.

E o final do capítulo ainda brindou o público com a mais arrebatadora atuação de Marjorie Estiano em toda a série, quando, durante o tiroteio, Carolina é atingida na barriga por uma maca e se preocupa com o estado do filho que espera de Evandro. A sequência em que ela se agoniza tentando ouvir os batimentos da criança é extremamente triste e escancarou a genialidade de uma atriz tão completa, competente, que vai de um extremo a outro como poucas em sua geração. Uma atriz que nunca precisou provar nada pra ninguém, mas que nesta sequência se superou e mostrou o motivo de ser considerada a melhor atriz já revelada por Malhação.

Tamanho conjunto de qualidades deu certo também na audiência. Exibidos antecipadamente em virtude do jogo da seleção brasileira na Copa América, os episódios marcaram 24 pontos, o recorde da atual temporada. E é justamente por tanta qualidade e receptividade positiva que fica difícil entender a insensata decisão da emissora de cancelar sua produção após o fim desta leva de episódios. Felizmente, ou infelizmente, a série tem muito assunto pra tratar ainda. O único motivo ao menos compreensível seria a escalação de seu elenco para outras produções. No entanto, fica a esperança de que “Sob Pressão” seja retomada no futuro. Os episódios de hoje – e a infeliz realidade brasileira – mostraram que fôlego pra isso tem e muito.


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