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Sensível e esmerada, "Órfãos da Terra" traz excelente impressão em sua estreia

Aziz Abdallah (Herson Capri)
Divulgação/ TV Globo
Foto do Colunista / Jornalista

Thallys Bruno
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Thallys Bruno

Thallys Bruno Almeida é um grande fã de teledramaturgia brasileira e adora escrever sobre novelas e séries. Agora está no NaTelinha. Siga-o no Twitter: @thallysbalm

Publicado em 02/04/2019 às 19:48:58

Depois de longos cinco anos longe da TV, Duca Rachid e Thelma Guedes estão de volta à faixa das 18h. Aclamada por sucessos como “Cama de Gato” (2009-10) e “Cordel Encantado” (2011, em reprise no Vale a Pena Ver de Novo), as autoras dão novamente o ar da graça com “Órfãos da Terra”, que estreou nesta terça-feira com a missão de alavancar o horário das 18h e manter as boas qualidades de “Espelho da Vida”, de Elizabeth Jhin – que terminou com uma das audiências mais baixas do horário, mas obteve grande repercussão na internet e nas redes sociais.

A ausência da dupla durante todo este período foi marcada por percalços. Após o fracasso de “Joia Rara” (2013-14) – que, ainda assim, foi premiada com o Emmy Internacional de Melhor Novela em 2014 –, as autoras investiram em uma sinopse para as 21h, intitulada “O Homem Errado”. O argumento até foi aprovado, mas, após a entrega dos capítulos, o projeto foi cancelado em setembro de 2016 e a vaga foi assumida por Walcyr Carrasco (“O Outro Lado do Paraíso”). Logo depois, a atual sinopse – ainda chamada “Filhos da Terra” – foi apresentada para as 18h, chegou a ser movida para as 23h (se tornando uma “supersérie”) e logo depois voltou para o horário atual, seguida pela mudança de nome.

A base do novo enredo se fundamente no drama dos refugiados, especialmente de países do mundo árabe, como a Síria. É no primeiro país, aliás, que se desenrola o drama de Laila Faiek (Júlia Dalavia), que foge com sua família para o Líbano e lá se encanta por Jamil Zariff (Renato Góes), afilhado do ambicioso sheik Aziz Abdallah (Herson Capri). Prometido à filha do poderoso milionário, Dalila (Alice Wegmann), ele também se apaixona pela mocinha, mesmo sendo encarregado de raptá-la e entregá-la ao patrão, que deseja se casar com ela. Para viver sua paixão com Jamil, Laila conta com a ajuda de Soraia (Letícia Sabatella), mãe de Dalila e foge para o Brasil, seguida pelo libanês.

E foi justamente este primeiro conflito que norteou o primeiro capítulo, pautado em um atentado a bomba durante uma festa tradicional da família, que atingiu gravemente o filho mais novo, Khaled (Rodrigo Vidal). As sequências da família sendo obrigada a fugir da Síria e se dirigindo a um campo de refugiados no Líbano chamaram a atenção pelo impacto da produção visual, que ganhou forma com a direção de Gustavo Fernandez e reforçou a triste mensagem passada pelas autoras, através do horror sofrido por muitos que vivem em situação semelhante.

As autoras também acertaram com a apresentação dos personagens, especialmente a chegada triunfal de Dalila, onde o olhar da atriz foi decisivo para imprimir as intenções da mesma. E não precisou de muito: foi só a filha de Aziz forjar um estupro para que um dos homens de confiança do sheik fosse severamente (e injustamente punido). Ao mesmo tempo, um interessante paralelo, que consumiu menos tempo, se desenrolou em São Paulo, durante uma manifestação feminista, e apresentou a família de Rania (Eliane Giardini), prima de Missade (Ana Cecília Costa) e que será responsável por abrigar a família desta quando chegar ao Brasil.

No afinado elenco, Julia Dalavia pode ser considerada o maior destaque, emocionando e esbanjando naturalidade, assim como Ana Cecília Costa, constante parceira da dupla de autoras. Alice Wegmann e Herson Capri, responsáveis pelos vilões da história, também disseram a que vieram logo no começo – vale destacar o ótimo gancho final do primeiro encontro dos mocinhos, que se desenrola enquanto Aziz se encanta por Laila e propõe a Elias (Marco Ricca) que ele lhe entregue a mão da garota. Embora com menores aparições, Eliane Giardini, Letícia Sabatella, Anaju Dorigon (a preconceituosa Camila) e Emanuelle Araújo também têm tipos promissores nas mãos.

E, além da produção visual caprichada, também merece elogios a linda abertura, pontuada por fotos de famílias de refugiados das mais diversas nações e embalada pela bela música Diáspora, composta e gravada pelos Tribalistas (Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte) no álbum de retorno do supergrupo, em 2017, e cuja letra versa justamente sobre o sofrimento de imigrantes refugiados, com direito a citações de “O Guesa”, de Sousândrade, e “Vozes D’África”, de Castro Alves.

O primeiro capítulo de “Órfãos da Terra” deixou uma excelente impressão. Com segurança, impacto, emoção e sem pressa, a mensagem das autoras Duca Rachid e Thelma Guedes disse logo a que veio em seus momentos iniciais. Pautada por uma direção segura de Gustavo Fernandez, texto de alta qualidade, enredo promissor, produção visual caprichada e um forte apelo social, a nova novela tem boas chances de manter o alto nível do horário das seis. Ficamos na torcida!


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