Pesquisa revela tamanho da cobertura do Carnaval na Manchete
Levantamento inédito de Fernando Morgado traz dados sobre conteúdos e tempo de transmissão da Rede Manchete no Carnaval
Publicado em 16/02/2026 às 06:00,
atualizado em 16/02/2026 às 11:08
Durante a pandemia de Covid-19, por várias vezes busquei algo que pudesse trazer boas lembranças a uma mente tão ocupada por tristezas. Uma das coisas que mais gosto de fazer é rever momentos históricos da televisão brasileira, hábito que intensifiquei durante o isolamento social. E a Rede Manchete, parte indelével da minha infância, foi presença constante nas minhas telas.
Em um certo momento, decidi trocar os vídeos pelas planilhas. Quis me aprofundar nos aspectos estratégicos daquele conteúdo que sempre me encantou. Mergulhei nos acervos de jornais e revistas e construí manualmente (sem qualquer auxílio de inteligência artificial) uma imensa base de dados com as grades de programação de absolutamente todos os dias em que a rede da família Bloch oficialmente operou: de 5 de junho de 1983 a 16 de maio de 1999.
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Este foi o último dia antes de entrar em vigor o decreto, publicado na edição do Diário Oficial de 17 de maio daquele ano, que transferiu as concessões da TV Manchete Ltda. para a TV Ômega Ltda., razão social da RedeTV!.
O trabalho foi hercúleo. Como fontes, empreguei diversos periódicos e gravações, de forma a compor o registro mais fiel possível das grades que de fato foram transmitidas. Coletei, digitei e tabulei as programações dos 5.825 dias em que a Manchete esteve no ar. No total, foram 6.354.420 minutos e 120.300 atrações, que categorizei uma a uma conforme o gênero, procurando visualizar com exatidão a evolução da emissora. Foi desse modo que pude comprovar numericamente o peso exercido pelo Carnaval.
O tamanho do Carnaval da Manchete
Quem viveu a época da Rede Manchete sabe que ela tratava a folia como um de seus produtos mais nobres. Herdeira da tradição da revista homônima, a TV Manchete investia muito para cobrir o Carnaval em vários pontos do Brasil, mas principalmente no Rio de Janeiro, cidade do maior espetáculo da Terra e onde ficava a sede da emissora. E esse empenho se traduz em dados.
Como a cobertura carnavalesca da Manchete ficava a cargo do departamento de jornalismo, a análise deve começar por esse setor, que respondeu por 24% de todo o tempo programado pela rede ao longo dos seus quase 16 anos de existência. Já o Carnaval representou 8% da grade jornalística total. Foram exatos 121.340 minutos.
Caso alguém quisesse ver todo esse conteúdo sem parar, gastaria quase três meses. E esse volume, na verdade, certamente seria ainda maior se fosse possível resgatar a duração efetivamente levada ao ar, e não apenas a que consta nas grades publicadas pelos jornais. Afinal, era muito comum que os desfiles das escolas de samba durassem mais do que o planejado. De todo modo, mesmo com essa ressalva, a ordem de grandeza desse tempo não deixa de impressionar.
Para além dos grandes números, vale a pena observar como a intensidade da cobertura variou ao longo dos anos. O primeiro Carnaval da Manchete foi o de 1984, justamente quando se inaugurou o Sambódromo, na avenida Marquês de Sapucaí. O trocadilho adotado no slogan deixava clara a dimensão da empreitada: “Carnaval 84 Rede Manchete: 84 horas no ar”. Contudo, a grade superou o anunciado: foram 105 horas ininterruptas programadas, das 21h de sexta-feira, 2 de março, até a madrugada da Quarta-Feira de Cinzas, dia 7. Após essa maratona, ainda ocorreram as transmissões da apuração e do Desfile das Campeãs, além de uma retrospectiva e da Noite dos Campeões, premiação promovida um mês depois pela própria emissora.
Apesar de grande e marcante, esse não seria o maior Carnaval da Manchete. O recorde pertence ao de 1994, que marcou o retorno à Sapucaí após a ausência no ano anterior, motivada pela grave crise financeira da empresa. Certamente para se reafirmar, a emissora redobrou os esforços. A cobertura começou em 30 de outubro do ano anterior, quando estrearam os boletins Feras do Carnaval e Esquentando os Tamborins, cada um com duas edições.

Uma semana antes do feriado, o canal já havia apresentado quatro bailes e um debate, mas a abertura oficial dos trabalhos ocorreu mesmo às 16h da sexta-feira, 11 de fevereiro. Desse momento até a reapresentação do Desfile das Campeãs, a rede dos Bloch programou 125 horas de folia, sem contar as edições do Jornal da Manchete, mantidas com ajustes de horário e foco total no evento.
Por outro lado, a menor edição do Carnaval foi justamente a de 1993. A emissora não teve dinheiro para os direitos de transmissão dos desfiles do Rio e, como alternativa, priorizou os trios elétricos de Salvador. Até uma nova marca foi criada para a cobertura: Carnaval Axé. Ao todo, foram 66 horas programadas.
Qual foi o legado do Carnaval da Manchete?
Ao longo de sua história, a TV Manchete exibiu 3.143 atrações de Carnaval, entre boletins, eventos e programas. Além dos desfiles na Sapucaí, ao vivo e em compacto, e da apuração, a emissora também se destacou pelos bailes: do Clube Monte Líbano ao do Ilha Porchat; da Noite das Borbulhantes a Uma Noite em Bagdá; do Baile da Angélica ao das Panteras.
Nenhum palco foi mais importante para essas transmissões, sempre recheadas de flagrantes sensuais, do que o Scala Rio, antiga casa de espetáculos no Leblon. Era lá que aconteciam bailes como o do Champagne, o da Estação Primeira de Mangueira, o Vermelho e Preto e, claro, o Scala Gay, que frequentemente alcançava a liderança de audiência.

Outra marca do Carnaval da Manchete eram os concursos de fantasias, organizados pela dupla Belino Melo e Arnaldo Montel. A mais famosa dessas competições, sem dúvida, era a do Hotel Glória, que ficava a poucos passos do belíssimo edifício-sede das Empresas Bloch, na rua do Russel.
Havia também os musicais, como o Botequim do Samba, e as notícias, com o Jornal do Carnaval, além da reprise de desfiles antigos na faixa As Campeãs da Sapucaí. Mas, para além de qualquer atração, o Carnaval da Manchete teve como marca a valorização da cultura nacional, colocando o povo diante das câmeras. É “gente empenhada em construir a ilusão”, como cantou a minha querida Vila Isabel em 1984, justamente o primeiro ano da emissora na folia.
Outro mérito foi o de sempre destacar o lado da competição, algo central no universo das escolas de samba e que a Globo, acertadamente, resgatou na cobertura do ano passado. A grande referência atual é o fantástico Milton Cunha, comentarista que consegue um feito raro: aliar carisma a profundo conhecimento, tanto prático quanto teórico. Mas, certamente, a principal herança deixada pela Manchete foram os milhões de brasileiros que, graças àquelas transmissões, se apaixonaram pela maior festa do mundo e carregam esse amor até os dias de hoje.
Fernando Morgado é consultor e palestrante com mais de 15 anos de experiência nas áreas de mídia e inteligência de negócios. É Top Voice no LinkedIn e tem livros publicados no Brasil e no exterior, incluindo o best-seller Silvio Santos – A Trajetória do Mito. Foi coordenador adjunto do Núcleo de Estudos de Rádio da UFRGS. Mestre em Gestão da Economia Criativa e especialista em Gestão Empresarial e Marketing pela ESPM. Acesse o Instagram de Fernando Morgado.