Autora narra os bastidores de escrever Por Amor com Manoel Carlos: “Rigoroso”
Letícia Dornelles assina a Coluna Especial desta segunda-feira (12)
Publicado em 12/01/2026 às 06:24,
atualizado em 12/01/2026 às 10:36
A vida é feita de fases. Planejo o que posso, ofereço os meus projetos, guardo as memórias que merecem espaço no coração, desapego do que é carga sem luz e estou sempre disposta a descobrir novas estradas.
Jornalista por formação, iniciei a carreira no Fantástico. Segui em frente: esportes, Copa do Mundo, Olimpíadas, competições. O meu rosto esteve na televisão por alguns anos. Alma inquieta, ansiosa para voar, a vida me convidava silenciosamente a conhecer o infinito da ficção.
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Um dia, li um anúncio no jornal O Globo sobre a abertura de um concurso para a Oficina de Autor e Roteirista. Nunca tinha feito qualquer curso de roteiros. Escrevi um roteiro intuitivo e enviei. Fui selecionada com outros 30, dentre 600 que enviaram. Após a prova presencial, 12 cursaram a estressante Oficina. Só eu fui contratada.
O orientador disse que eu tinha talento nato, que tinha dramaturgia nas veias e lembrava o estilo de Manoel Carlos. Brinquei com um amigo: “Vou estrear numa novela das 8”. Fui profética.
O autor Manoel Carlos precisava de um colaborador para a novela Por Amor. O diretor artístico da TV Globo enviou para ele o meu texto.
Era segunda-feira e eu assistia à Hebe na TV. O telefone tocou às 22h. Era Manoel Carlos. Conversamos longamente como se já nos conhecêssemos há anos. Maneco elogiou o meu roteiro da Oficina. Era baseado num conto de Balzac. Ele disse que tínhamos “química” e me convidou para escrever Por Amor com ele.
Assim se deu a minha estreia como novelista. No horário nobre da TV Globo e com um dos melhores autores da TV brasileira. De Balzac da Oficina ao Balzac do Leblon.
Manoel Carlos e a luz infinita da ficção
Trabalhamos muito. Em alguns dias, eu pensava que não suportaria o ritmo alucinante. Não era apenas cansaço físico. Era emocional. Escrevia 45 páginas por dia de capítulos repletos de conflitos, dramas, segredos, brigas, barracos icônicos, sofrimento de mães, vilanices. Cenas com até 10 páginas. Pensava: “Os atores vão nos xingar”. E Maneco ria: ”Que se virem. Não aceito que mudem uma única vírgula de lugar“.
Eu escrevia três capítulos e Maneco os outros três. Dividimos a novela. Maneco escrevia durante o dia. E eu virava a noite escrevendo. Na manhã seguinte, a Globo tinha dois capítulos na produção. Era muito prazeroso escrever um texto e ouvir os comentários no mercado, na praia. Maneco foi uma escola. Uma pós-graduação de vida.
Nós discutíamos o destino dos personagens de forma divertida. Atilio, personagem de Antônio Fagundes, se casaria com Helena, de Regina Duarte. Maneco ligou: “Você acha que Atilio deve dormir com Isabel na despedida de solteiro?” Era a ex de Atilio, vivida por Cássia Kiss. Fiquei meia hora convencendo Maneco a desistir da ideia. Atilio não poderia trair Helena. Nem eu o perdoaria. “Mas ele é mulherengo.”
E eu defendi a fidelidade do personagem. “Você é passional.” “Não, Maneco. As mulheres vão odiar Atilio!” Venci. Atilio não teve despedida de solteiro com a ex.
Flamengo pediu direito de resposta no ar
Sabia que o (Carlos Eduardo) Dolabela era Flamengo. Li no Jornal O Globo um comentário de um amigo, Renato Maurício Prado, sobre as dívidas do clube. Escrevi uma cena com o Arnaldo criticando o futebol e citei de leve os dados da reportagem.

Dolabela se empolgou e colocou cacos mais fortes. Deu problema. O presidente do clube na época, Kleber Leite, queria "direito de resposta" dentro da novela. Imagina o absurdo. O advogado do clube, Michel Assef, era vizinho do Maneco, no Leblon.
Maneco às vezes me convidava para ir ao apartamento dele, nas noites de sábado. Um drink com a família. Fofocas, risadas, destinos, bastidores, ideias. “Regina veio semana passada. Gostou dessa cerveja. Mandei uma caixa para ela”. Ele me chamava de “minha parceirinha”.
Maneco tinha gatos, que ficavam na área de serviço quando ele recebia visitas. E eu caí na besteira de dizer que tinha medo de gatos. Maneco “ameaçou“: “Da próxima vez, vou deixar os gatos soltos. Tem que perder o medo”.
Foi uma experiência emocionante e gratificante. Eu tentava imitar o jeito de Maneco escrever para que os atores não sentissem que era outro roteirista escrevendo. Ganhei dele um livro para entender os “emergentes da Barra”, um grupo de novos ricos que vinha do subúrbio e começava a despontar nas colunas sociais. Eram bregas. Mas só se falava neles. Faziam de tudo para aparecer. Festas megalomaníacas.

Viajei de férias para a Europa e encontrei Cassia Kiss no aeroporto de Roma. Contei que escrevi muitas cenas dela. Cassia disse: "percebi que era mulher escrevendo.”
Também ganhei livros de poesia escritos por Maneco. Ele adorava Fernando Pessoa. Mergulhei nos versos do poeta por causa dele.
Quando acabou Por Amor, Maneco me enviou um lindo cartão de Natal com o recado: “Descanse. Nos veremos na próxima”. Trabalhei com outro autor. Em seguida, soube que Maneco tinha me reservado para Laços de Família.
Manoel Carlos era um autor rigoroso e de personalidade difícil. Mas nos entendemos muito bem. Sentia muita saudade das nossas conversas. Às vezes, enviava bilhetes para ele. Maneco mandava livros de presente. A vida separou os destinos. No entanto, Por Amor é o nosso elo eterno e cheio de luz.