Quarta Parede

Série sobre Daniella Perez acerta ao dar voz ao processo e não aos assassinos

Pacto Brutal: O Assassinato de Daniella Perez, da HBO Max, faz crítica justamente à propagação de inverdades sobre o caso nos últimos 30 anos


Daniella Perez e Glória Perez
“Finalmente: quem fala agora é o processo!”, anunciou Glória Perez ao anunciar a estreia de série sobre o assassinato de sua filha, Daniella Perez - Foto: Reprodução/HBO Max
Por Walter Felix

Publicado em 22/07/2022 às 12:48:00,
atualizado em 25/07/2022 às 20:36:18

A série Pacto Brutal: O Assassinato de Daniella Perez, da HBO Max, trouxe de volta o crime que causou comoção em todo o país há 30 anos. Dirigido por Tatiana Issa e Guto Barra, o documentário dá voz ao que consta no processo judicial e à versão para a história considerada a verdadeira no julgamento que condenou à prisão Guilherme de Pádua e Paula Thomaz, hoje Paula Nogueira Peixoto. Estes, contudo, não estão entre os 60 entrevistados da produção.

Nos dois episódios divulgados nesta semana pela HBO Max – os outros três sairão na próxima quinta-feira (28) –, fica claro que um dos objetivos da série é justamente criticar as especulações da mídia e a propagação de inverdades em torno do assassinato de Daniella Perez. A jovem atriz vivia um par romântico com Guilherme de Pádua na novela De Corpo e Alma, da Globo, quando foi morta por ele, em 28 de dezembro de 1992.

A produção evidencia como a repercussão do caso influenciou o curso das investigações. Na época, Guilherme alegou que Daniella o assediava e vinha colocando em risco seu casamento com Paula. Apesar de execrado pela opinião pública, o então ator teve sua versão bastante explorada pela imprensa, e um possível envolvimento entre algoz e vítima permaneceu no imaginário das pessoas nestas três décadas.

Para Glória Perez, mãe de Daniella Perez e autora de De Corpo e Alma, as fotos sensuais dos personagens Bira e Yasmin da novela da Globo, estampadas nas capas de jornais e revistas para insinuar um envolvimento amoroso entre os intérpretes são “muito mais agressivas” que as imagens da filha morta em um matagal na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. “É um segundo assassinato, à memória da minha filha”, diz a novelista.

“Finalmente: quem fala agora é o processo!”, anunciou a escritora no Twitter, ao citar o lançamento da série. Em entrevista à BBC News Brasil, ela pontuou: “O documentário tem como foco os autos do processo. É isso que ele traz de novo. O que ficou conhecido são as muitas versões sensacionalistas com que os assassinos alimentaram a imprensa durante os anos de espera para o julgamento”.

A própria Glória pediu aos diretores que não ouvissem os assassinos, como revelou à coluna de Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo: “Para que entrevistar agora? Para dar palco para psicopata? O que eles têm para dizer a mais do que já foi dito? Se eles tivessem alguma coisa a dizer depois do resultado do júri, eles teriam processado o Estado ou pediriam um novo julgamento. Pediram? Claro que não. Saiu barato à beça para eles”.

 

"Ouvir os dois lados" seria contraditório à proposta da série

Guilherme de Pádua
Guilherme de Pádua não falou à série documental, mas deu várias entrevistas nos últimos 30 anos - Foto: Reprodução/HBO Max

Mais do que atender ao pedido de uma mãe, a série da HBO Max toma um caminho favorável à atração. “Ouvir os dois lados” é regra básica do jornalismo, e vale também para documentários sobre crimes reais como este. Contudo, é a proposta da série dar espaço ao que foi comprovado e mostrar como as histórias contadas pelos culpados só fizeram dificultar as investigações e desviar a atenção dos veículos de comunicação.

Nos anos 1990, o julgamento passou a ser em torno da moral da vítima. A falta de empatia fica evidente em uma sequência do primeiro episódio, que mostra uma multidão no enterro de Daniella, impedindo a despedida de amigos e familiares. A cerimônia de adeus vira um verdadeiro carnaval, com gritos, histeria e tietagem aos artistas da TV presentes no cemitério.

O segundo episódio dá uma pista fundamental de que a série quer se ater ao que consta no processo judicial. Ao acompanhar o passo a passo dos assassinos no dia do crime, em vez de reproduzir a ordem cronológica dos acontecimentos, a opção foi mostrar a sequência de descobertas da polícia. Assim, o espectador é introduzido nas investigações, que passa a ser o fio condutor.

Sem entrevistar os condenados pelo assassinato, a série só teve a ganhar. Em todo caso, as versões de Guilherme de Pádua e Paula Thomaz – ela, aliás, sempre se disse inocente das acusações – também se fazem presentes na produção. Do contrário, não seria possível entender todo o curso do processo, tampouco os desdobramentos que o caso teve.

Antes de ser uma tentativa de se fazer justiça ou prestar uma homenagem a Daniella Perez, Pacto Brutal é um produto midiático que se insere na indústria que critica. Felizmente, não cai nas mesmas armadilhas de outrora: é fiel às provas e não às versões mirabolantes já fartamente exploradas nos últimos 30 anos.

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