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Elogiada no início, "Órfãos da Terra" perde brilho e decepciona

Defeitos superam as qualidades na atual novela das 18h da Globo

Elogiada no início,
Morte precoce de Aziz (Herson Capri) comprometeu o decorrer da história - Fotos: Divulgação/TV Globo

Publicado em 22/07/2019 às 06:26:10 ,
atualizado em 22/07/2019 às 11:43:29

Por: Thallys Bruno

Foram cinco anos afastadas das novelas. Até que, em abril de 2019, Duca Rachid e Thelma Guedes voltavam à cena com “Órfãos da Terra”, quinta trama inédita da dupla. A difícil vida dos refugiados era um promissor mote e os primeiros capítulos da história das 18h emocionaram e empolgaram, aliando qualidade de texto, direção (da competente equipe de Gustavo Fernandez) e elenco. Até que, com um mês de novela, o vilão Aziz (Herson Capri) deixou o enredo sendo assassinado. O risco de comprometer o conjunto da história existia. E, infelizmente, a trama se desgastou antes do previsto.

A começar pelo casal protagonista, Laila (Julia Dalavia) e Jamil (Renato Góes). A química dos atores, testada e comprovada em “Velho Chico”, se fez novamente presente com a encantadora história da mocinha herdeira de uma família refugiada, que fugiu do sheik para evitar se casar com ele e encontrou o amor, ironicamente, nos braços do jovem capanga do milionário. No Brasil, se desentenderam, desfizeram o entrevero, se casaram e tiveram um filho, enquanto Aziz seguia atrás deles.

Até que o vilão morreu. Como consequência, a trama do par ficou sem um grande conflito que sustentasse a novela e os personagens perderam força. E nem mesmo a chegada ao Brasil de Dalila (Alice Wegmann), filha do crápula, conseguiu animar a torcida pelo par. Sem uma motivação clara, a jovem vilã iniciou sua vingança tendo como ponto de partida o vício em jogos de Miguel (Paulo Betti), marido de Rânia (Eliane Giardini), que acolheu a família em sua casa.

Obcecada por Jamil, Dalila adotou o nome de Basma e se aliou a Paul (Carmo Dalla Vecchia) para destruir o casamento do mocinho com Laila. E tudo parece se resumir a isso. Não há um argumento forte que justifique a garota buscar vingar a morte do pai. Para piorar, o mocinho assiste passivo às investidas da megera, com uma ingenuidade gritante e comparável à de Maria da Paz (Juliana Paes), a tola mocinha de “A Dona do Pedaço”, novela das 21h de Walcyr Carrasco – de quem, aliás, Duca e Thelma foram colaboradoras.

A própria morte de Aziz, por exemplo, foi totalmente esquecida no roteiro. Nunca mais se falou na busca pelo assassino, além de o capanga Fauze (Kaysar Dadour) ter passado semanas sumido da história e, em seu retorno, servir apenas para um casal romântico. Apenas recentemente o personagem voltou a cruzar os rumos de Dalila, retomando sua função vingativa. Bem como Hussein (Bruno Cabrerizo), que se apaixonou por Soraia (Letícia Sabatella), esposa do sheik. Com a morte da mulher, ele sumiu completamente – o que é uma pena, pois Bruno Cabrerizo vinha apresentando um bom desempenho, bem superior ao do parvo Inácio de “Tempo de Amar” (2017-18).

Nos núcleos paralelos, a situação só piora. Bruno (Rodrigo Simas), dividido entre Laila e Marie (Eli Ferreira), parece deslocado no meio da história, enquanto o conflito entre seus pais Tereza (Leona Cavalli) e Norberto (Guilherme Fontes) e sua ex-namorada, a ambiciosa Valéria (Bia Arantes) apenas cumpre tabela. Até mesmo o ótimo núcleo de humor envolvendo as famílias de Sara (Verônica Debom) e Ali (Mohamed Harfouch) já não empolga mais, mesmo com a presença de Luana Martau vivendo a hilária Latifa.

Outro grande erro da novela foi o triângulo amoroso desenhado entre Elias (Marco Ricca), Missade (Ana Cecília Costa) e Helena (Carol Castro). Os pais de Laila viram a relação se desgastar após sua chegada ao Brasil e Elias se aproximou da ex-mulher de seu melhor amigo, que não mediu esforços para conquistar o engenheiro. Da forma como foi construída, a nova relação não despertou qualquer empatia, muito em função da desonestidade e infidelidade do sírio com a esposa.

Este conjunto de erros faz refletir: como uma trama tão promissora pôde se perder de tal forma? O planejamento equivocado das autoras acabou mostrando que não se tinha alternativas consistentes e coerentes para desenvolver o enredo com o cuidado que a sinopse exigia. Até mesmo “Joia Rara” (2013-14), até então a mais fraca novela das autoras, ainda conseguiu sustentar por mais tempo os seus entrechos, se perdendo quando o vilão Manfred (Carmo Dalla Vecchia) surtou e partiu para inúmeros sequestros – algo constante na obra da dupla.

Ainda assim, há pontos que merecem elogios. A recente cena em que Dalila/Basma é desmascarada e leva uma surra de Laila empolgou e rendeu brilhantes atuações de Julia Dalavia e Alice Wegmann, que defendem suas personagens com muita dignidade. Mais recentemente, Alice emocionou ao lado da grandiosa Eliane Giardini, na descoberta de que a vilã é neta de Rânia e é humilhada posteriormente. Também merece ser destacado o talento de Ana Cecília Costa, constante parceira das autoras.

Duca Rachid e Thelma Guedes são reconhecidas pela ousadia e qualidade dos seus enredos em tramas consagradas como “Cama de Gato” (2009-10) e “Cordel Encantado” (2011), que foi recentemente reexibida no “Vale a Pena Ver de Novo”. A audiência de “Órfãos da Terra” também não é um problema, pois mantém uma boa média de 21 pontos, acima dos 18 de “Espelho da Vida”. Ainda assim, é inevitável externar a decepção com a atual novela das seis, vítima de um planejamento equivocado que custou a coesão de seu enredo.

Que ao menos a trama tenha um desfecho digno – e que as autoras levem esta experiência para evitar que os erros se repitam em suas obras posteriores.


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