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Exibição de “Assédio” na Globo reafirma a forte utilidade pública da obra

Exibição de “Assédio” na Globo reafirma a forte utilidade pública da obra
Divulgação/ Globoplay

Publicado em 13/07/2019 às 14:29:07 ,
atualizado em 13/07/2019 às 18:17:54

Por: Thallys Bruno

No ano passado, o GloboPlay anunciou o investimento em produções exclusivas, aos moldes de concorrentes como Netflix e Amazon Prime. Entre as novidades, estavam produções de humor, como “Além da Ilha” e a recente “Shippados”; e dramáticas, como “Ilha de Ferro”, “Aruanas” (último lançamento do aplicativo) e “Assédio”. Esta última é o objeto desta coluna, em função de sua recente exibição na Globo aberta, concluída na última sexta-feira – com um enredo de tamanha importância, era justo que o grande público também pudesse conhecer este primoroso, sufocante e incômodo trabalho.

A exibição da série na TV aberta foi possível devido à suspensão da faixa das superséries (ou novelas das 23h), uma vez que “Irmãos de Sangue”, sinopse de Euclydes Marinho, foi cancelada, e “O Selvagem da Ópera”, de Maria Adelaide Amaral, foi adiada para o ano que vem. A inclusão da obra preencheu as lacunas de programação juntamente com as temporadas de “Carcereiros” e “Sob Pressão” e a estreia da humorística “Cine Holliudy”. Antes, apenas o primeiro episódio havia sido transmitido, em outubro passado.

Inspirada no livro “A Clínica – A Farsa e Os Crimes de Roger Abdelmassih”, de Vicente Villardaga, a obra retratou a saga do ex-especialista em reprodução humana, condenado a 181 anos de cadeia por inúmeros estupros de suas pacientes; através do personagem Roger Sadala (Antônio Calloni), que personifica o ex-médico, e cinco mulheres de diferentes vivências que se unem pelo mesmo sofrimento e com o mesmo ideal –vítimas de Sadala, elas se unem a tantas outras na busca por justiça.

No entanto, a série foi feliz ao não apenas mostrar a perversidade sexual e sádica de Sadala. Igualmente chamou a atenção sua postura familiar e social, mostrando-se um homem autoritário, prepotente e asqueroso, cuja conduta inclusive desagrega sua própria família. Uma prova disso é o seu envolvimento com uma de suas pacientes – Carolina (Paolla Oliveira), que se torna sua amante e vira sua esposa após o falecimento de Glória (Mariana Lima), primeira mulher do médico.

A cada episódio, a narrativa se desenrolava para o drama de cada uma das vítimas do médico, como Stela (Adriana Esteves), Maria José (Hermila Guedes), Vera (Fernanda D’Umbra), Eugênia (Paula Possani) e Daiane (Jéssica Ellen), que se unem a outras mulheres que também foram violentadas por Sadala, busca pela justiça. O elo entre essas mulheres é Mira (Elisa Volpatto), obstinada jornalista que amplifica a voz delas, mesmo com as dificuldades enfrentadas em função da forte influência de Sadala.

A costura entre enredo e direção evidenciou a força feminina da série, através da consistente parceria entre a autora Maria Camargo e a diretora Amora Mautner, que tomaram o devido cuidado em mostrar todo o impacto do horror sofrido pelas vítimas sem cair nas armadilhas do rasteiro gratuito. Aliás, Amora, cuja direção em “A Regra do Jogo” (2015-16) havia sido motivo de piada pela sua alardeada “caixa cênica”, mais uma vez deixou clara sua competência.

O elenco também deu contribuição decisiva para o brilhante resultado que foi visto na obra. No entanto, há dois nomes que merecem uma menção especial: Adriana Esteves e Mariana Lima. A primeira, intérprete de Stela, vítima que iniciou o desenrolar da narrativa, esbanjou brilhantismo como nunca havia antes se visto em uma produção brasileira. O horror e o nojo da personagem após ser violentada por Sadala ganharam vida de forma magnífica pela magistral interpretação de Esteves. Mariana, que viveu Glória, primeira esposa de Sadala, mostrou ser um nome que merece ser muito mais valorizado na televisão brasileira e emocionou especialmente nas cenas da morte de sua personagem, constantemente traída pelo marido.

Antônio Calloni, responsável por dar vida ao prepotente e asqueroso protagonista, viveu um de seus melhores momentos na TV, em uma interpretação primorosa e bastante adequada a toda a perversidade representada por Sadala. Por sua vez, Paolla Oliveira, embora tenha entrado apenas na metade da série (descontando-se uma primeira aparição no capítulo de estreia), também esteve perfeita na pele de Carolina, segunda esposa do médico, que o acompanha e apoia inclusive quando o mesmo foge e é condenado.

Ainda merecem todos os elogios as certeiras interpretações de nomes como Paula Possani, Fernanda D’Umbra, Hermila Guedes, Jéssica Ellen, Juliana Carneiro da Cunha, Bianca Muller, Felipe Camargo, João Miguel, Mônica Iozzi, Denise Weinberg,Susana Ribeiro e Gabriel Godoy.

Todo este primoroso conjunto reafirma a forte mensagem de utilidade pública de “Assédio” no combate à violência contra a mulher em todas as suas formas. Maria Camargo, Amora Mautner e todo o elenco e equipe da série conseguiram retratar perfeitamente uma triste realidade que ainda atinge muitas mulheres neste país. E a Globo acertou não apenas na feitura da série (que, ao lado da eletrizante “Sob Pressão”, é um dos grandes exemplares da emissora nesta seara), mas também em levar esta mensagem ao grande público, mesmo que por uma estratégia diferente de programação.


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