Crítica

As Donas do Pedaço: Destaques femininos salvaram elenco do lugar-comum

Mulheres roubaram a cena na novela das 9, que chega ao fim na sexta-feira (22)

As Donas do Pedaço: Destaques femininos salvaram elenco do lugar-comum
Fabiana, Vivi, Kim, Britney e Marlene roubaram a cena em A Dona do Pedaço (Fotos: Globo/Reprodução)

Publicado em 19/11/2019 às 07:32:00 ,
atualizado em 19/11/2019 às 10:30:04

Por: Walter Felix

Não é de hoje que os autores de novela têm reservado ao gênero feminino os personagens-chave de suas tramas, com maiores nuances e a capacidade de fazer com que as histórias andem. Mulheres fortes têm marcado a teledramaturgia, ao passo que homens fracos, tolos ou, ao menos, sem a mesma relevância que elas também se tornaram frequentes.

A máxima vale para A Dona do Pedaço, folhetim escrito por Walcyr Carrasco com direção artística de Amora Mautner, que chega ao fim na próxima sexta-feira (22), na Globo. Ainda que mocinha e vilã tenham deixado a desejar - por fatores que vão desde a composição das atrizes ao texto irregular do autor -, não há como negar que Maria da Paz (Juliana Paes) e Josiane (Agatha Moreira) foram figuras centrais na história.

Desde os primeiros capítulos, são elas as responsáveis por praticamente toda a ação principal da trama, ao contrário dos protagonistas masculinos, Amadeu (Marcos Palmeira) e Régis (Reynaldo Gianecchini), completamente apáticos e com muito pouco a dizer.

Além de Maria da Paz e Josiane, outras personagens femininas dominaram a história e, não por acaso, as atrizes foram os maiores destaques do elenco. Nas vezes em que a boleira irritou, tamanha sua ingenuidade e complacência, outras figuras femininas roubaram a cena e trataram de justificar o título A Dona do Pedaço.

It girls

Paolla Oliveira tinha em mãos uma personagem dúbia: ao mesmo tempo que mantinha valores éticos e certa integridade moral, mostrava-se também volúvel e infiel. Vivi Guedes esteve bem distante das mocinhas opacas e monocórdias geralmente destinadas à atriz. Sorte dela - e nossa!

Em um primeiro momento, deu até para desconfiar que a digital influencer formaria com Josiane um par de vilãs. Ao contrário, Vivi foi mostrando um bom caráter - além de um tremendo potencial publicitário, dentro e fora da ficção.

Com o desenrolar da história, acabou transformada em mocinha. Sofreu horrores nas mãos de Camilo (Lee Taylor), mas nada que comprometesse o bom desempenho de Paolla, cuja atuação manteve segurança e coerência em todas as fases.

Sua parceira de cena, Monica Iozzi também merece elogios. Divertida, Kim é uma personagem igualmente complexa, que permitiu à atriz mostrar charme e irreverência. Deu conta do recado, com uma ótima composição.

Destaque para uma cena fora da curva, já na reta final, em que a agente de celebridades bate de frente com Josiane e é ameaçada pela vilã. A sequência provou que o talento de Iozzi não fica restrito ao humor.

"Criada num convento"

Reflexo da hipocrisia e de preconceitos tão em voga atualmente, Fabiana tinha tudo para ser a personagem mais odiosa de A Dona do Pedaço. Mas foi graças a Nathalia Dill - e ao timing do autor - que a personagem caiu nas graças do público.

Quando a megera se afastou de Vivi - e havia uma boa dobradinha entre as irmãs rivais -, Fabiana poderia ter ficado estagnada, sem grande função na história. Mas foi quando ela assumiu a fábrica Bolos da Paz que Nathalia Dill brilhou.

Walcyr Carrasco destinou à nova trama situações absurdas. Entre os impropérios no comando da empresa, Fabiana fez bullying com funcionários, cortou papéis higiênicos dos banheiros e proibiu o uso de celulares no expediente. Por pouco não transformou em bordão o aviso “Fui criada num convento”, repetido sempre como argumento para negar suas más intenções.

Mas a atriz imprimiu um tom sarcástico e irresistível à ex-noviça, com camadas de cinismo, inveja e vaidade. Parecia se divertir em cena. Seu carisma foi fundamental para que diversas sequências inverossímeis e poucos sutis tivessem alguma graça. A vilã angariou até uma torcida de parte da audiência para que ficasse com Rock (Caio Castro).

Mais um ótimo trabalho de Nathalia Dill, enfim.

Estreia de Glamour

Glamour Garcia fez sua estreia na TV como a Britney de A Dona do Pedaço. A presença de uma atriz transexual, na pele de uma personagem na mesma condição, foi comemorada. Contudo, desde sua primeira aparição na telinha, a abordagem dada ao tema enfrentou críticas.

De fato, faltou sutileza ao se levantar uma representatividade tão importante. Ainda que não tenha havido uma intenção panfletária, piadas envolvendo transexualidade poderiam ter sido evitadas.

Para uma estreante, Glamour conseguiu segurar a onda. Empregou delicadeza à personagem e teve química com Abel (Pedro Carvalho). Uma pena que o acertado casal não tenha tido um texto à altura do que os intérpretes poderiam oferecer.

Veterana

Suely Franco talvez tenha sido a única com sorte no núcleo do Bixiga. Enquanto pouco ou quase nada funcionava nos entrechos que envolviam Eusébio (Marco Nanini) e Cornélia (Betty Faria), a professora aposentada Marlene era verdadeiramente divertida e teve boas cenas, desde o início.

Fiel escudeira de Maria da Paz, a senhorinha mal humorada cuspiu marimbondos para todos os lados, mas teve sua redenção na paixão por Antero (Ary Fontoura).

Suely é uma das atrizes que melhor interpretam o texto de Carrasco. Com o novelista, também fez bonito em O Cravo e a Rosa (2000) e Êta Mundo Bom (2016).

Mereciam mais

É certo que nem tudo foram flores na escalação do elenco feminino. Muitas atrizes tiveram personagens aquém de seus talentos, em especial Betty Faria e Rosi Campos (Dodô), relegadas a um núcleo infame, sem história e com muito pouco a acrescentar.

Nathalia Timberg (Gladys) e Rosamaria Murtinho (Linda) tiveram pouco espaço, mas, ao contrário das colegas veteranas, escaparam de cenas constrangedoras.

Participação especialíssima, Fernanda Montenegro (Dulce) deixou sua marca na fase inicial. A avó matadora de Maria da Paz já antecipava que o protagonismo seria das mulheres durante toda a história.

Sempre ótima, Deborah Evelyn teve bons momentos. Sua Lyris era interessante e merecia mais destaque. A relação de amizade que estabeleceu com o ex-marido Agno (Malvino Salvador), na reta final, foi um acerto.

Pouco conhecida na TV, Heloísa Jorge (Gilda) saiu de cena cedo demais. Com a morte da esposa, Amadeu ficou ainda mais perdido na história. Sem conflito, o único papel do mocinho foi aguardar que as tramas se resolvessem para ter seu happy end ao lado de Maria da Paz.


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