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Amor de Mãe é uma boa novela, mas não é nenhuma revolução

Amor de Mãe é uma típica novela, com todos os seus clichês, sem demérito

Amor de Mãe é um folhetim clássico, não uma revolução - Fotos: Divulgação
Por Thallys Bruno

Publicado em 07/01/2020 às 07:15:52

A atual novela das 21h trouxe uma visível ruptura com os estilos mais popularescos de O Sétimo Guardião e A Dona do Pedaço, suas antecessoras. Apesar de não apresentar as mesmas boas audiências da novela de Walcyr Carrasco, Amor de Mãe tem seu público fiel e qualidades como a harmonia entre texto e direção e o primoroso elenco. No entanto, tem-se a sensação de que a história de Manuela Dias seria uma grande revolução na teledramaturgia. Muito pelo contrário.

A começar pelos vilões. Sim, vilões. O diretor José Luiz Villamarim chegou a declarar que a novela não teria vilões clássicos, que não seriam pessoas tão do mal ou tão do bem. Por um lado, existem mesmo perfis que fogem desse maniqueísmo, como as próprias protagonistas – Lurdes (Regina Casé) matou seu marido e ocultou o cadáver; Thelma (Adriana Esteves) acoberta os crimes do português Gabo (Felipe Duarte) e Vitória advoga para o inescrupuloso empresário Álvaro (Irandhir Santos).

Porém, há personagens da novela que podem perfeitamente ser definidos como vilões. O próprio Álvaro é a figura típica do executivo corrupto interessado apenas em maximizar seus lucros, na mira de sua secretária Amanda (Camila Márdila) e do ativista ambiental Davi (Vladimir Brichta). O que dizer, então, de Vicente (Rodrigo Garcia), que sabotou o restaurante de Thelma e ainda agredia a ex-mulher, Betina (Isis Valverde)? Ou de Sinésio (Júlio Andrade), que chantageou a irmã para vender o restaurante ao ameaçar revelar a Danilo (Chay Suede) que a mãe tem um aneurisma?

Outro ponto citado pela autora seria a suposta ausência dos clichês tradicionais da teledramaturgia – que, convenhamos, também estão bem presentes. O clichê é inerente à dramaturgia mundial, não só em novelas, mas séries, filmes, peças de teatro também se utilizam deste expediente – o que não é um demérito, desde que seja bem executado. Um bom exemplo de clichê é a trama que se desenha para Leila (Ariêta Corrêa), que acaba de acordar de um coma de oito anos e se depara com o ex-marido, Magno (Juliano Cazarré), namorando Betina. A impressão que se tem é que ela será colocada como a ex-mulher chata que não aceita a separação – vale citar também a rapidez de como ela se lembrou de tudo ao acordar, mesmo que sua recuperação física demore.

Ou a nociva interferência de Thelma na vida de Danilo e em seu namoro com Camila (Jéssica Ellen), filha de Lurdes. A professora declarou não querer ser mãe, contrariando a sogra, que, por medo de seu aneurisma aumentar e morrer sem ser avó, fura as camisinhas do filho para forçar a gestação – o que acaba acontecendo após o rapaz usar um dos preservativos sabotados numa noite de sexo com a namorada.

Isso sem falar no relacionamento entre Marina (Erika Januza) e Ryan (Thiago Martins). A tenista, determinada a crescer na carreira, ignora a saúde e tem complicações no joelho que podem impedi-la para sempre de jogar. Pouco antes, Ryan, numa crise de ciúme, terminou tudo com a noiva após ela receber um convite para treinar em São Paulo, do qual ela acabou desistindo numa clássica cena de reconciliação no aeroporto – que desagradou bastante, uma vez que ela desistiu de uma grande chance em sua carreira apenas para agradar o músico.

Estes são exemplos claros de que, a despeito das declarações de Manuela Dias e José Luiz Villamarim, Amor de Mãe aposta sim nos clichês dramatúrgicos para movimentar o seu enredo. Novamente, não há nada de errado nisso. Mesmo as obras mais diferenciadas também fazem uso do recurso, ainda que de formas mais disfarçadas. Porém, não é nenhum problema admitir que se usa destes recursos.

No conjunto geral, apesar da baixa audiência – demérito da equivocada ideia de estrear a novela em pleno período de fim de ano –, Amor de Mãe é bem escrita, tem um texto visivelmente acima do padrão dos últimos dois anos e conta com um elenco repleto de grandes atores. Pode-se dar um destaque em especial para Regina Casé, que desde As Filhas da Mãe não atuava numa novela.

A interpretação da atriz para Lurdes é outro exemplo de sua grande conexão com as massas, já vista na apresentação de programas como Central da Periferia e Esquenta!. Ao lado delas, Taís Araújo e Adriana Esteves, de igual brilhantismo; bem como as competentes atuações de Malu Galli, Humberto Carrão, Isis Valverde, Chay Suede, Irandhir Santos, Murilo Benício, Nanda Costa, Jéssica Ellen, Camila Márdila, Vladimir Brichta, Arieta Corrêa, Letícia Lima e Enrique Diaz.

Ainda assim, Amor de Mãe é uma típica novela, como tantas outras que já passaram pela dramaturgia brasileira, seja na Globo ou fora dela. Bem costurada, sua trama tem tudo pra render bons desdobramentos e vem merecendo os elogios no saldo geral. Entretanto, a história de Manuela Dias também tem seus núcleos chatos, personagens irritantes e furos de condução. Não é uma novela perfeita. Não é nenhuma revolução. E nem precisa ser. Basta apenas manter a sua trajetória e não se perder pelo caminho.

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