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Entrevista exclusiva

Michel Gomes compara o Brasil de Nos Tempos do Imperador com o de hoje: "Queremos o básico"

Ator falou sobre a relação de Samuel com Tonico e o romance com Pilar

Michel Gomes sorrindo em foto posada
Michel Gomes interpreta Smauel em Nos Tempos do Imperador - Divulgação/TV Globo
Taty Bruzzi

Publicado em 10/12/2021 às 06:49:00

No ar em Nos Tempos do Imperador, Michel Gomes usou como exemplo a história do Samuel para ressaltar a dificuldade que jovens negros encontram até hoje para ingressar nas universidades, aqui no Brasil. “A gente para pra pensar naquele século, um ex-escravo conseguir se tornar um engenheiro e, estando em 2021, realmente, ainda são muito poucos os que conseguem”, diz em conversa exclusiva com o NaTelinha.

Na trama, o rapaz conseguiu a oportunidade de estudar graças à ajuda de dom Pedro (Selton Mello), que acreditou em sua capacidade. Porém, para o ator, a solução não está em outros benfeitores como foi o imperador do Brasil, mas no próprio governo.

“Acho que a forma desse sistema mudar não é com outros ‘dom Pedros’, é com dignidade para as pessoas, com um governo que abra as portas para essas pessoas que também têm o direito de estudar, o direito de ir e vir”, dispara.

Michel Gomes compara o Brasil de Nos Tempos do Imperador com o de hoje: \"Queremos o básico\"

“O direito de se tornar, de realizar o sonho que elas querem. Isso, pra mim, é a desigualdade do Brasil mesmo. É algo básico que nós queremos. Dignidade, saúde, trabalho, bom emprego. É questão de olhar para os dois lados da moeda”, complementa.

Na novela das seis, Samuel é meio-irmão de Tonico, personagem de Alexandre Nero, com quem vive se estranhando por causa de Pilar (Gabriela Medvedovski). Em breve, ele salva a vida do político e o parentesco entre eles será revelado, mas isso não vai amolecer o coração do deputado, pelo contrário.

“O Jorge/Samuel, independentemente de qualquer coisa, é um cara bom, homem estudioso, delicado, gentil, e quando precisa é uma fera. Da parte dele, ele fez o que precisa ser feito”, avalia. “E todo esse ódio e racismo do Tonico, tudo isso que ele ainda vai fazer, vem do caráter dele”, adianta.

Michel Gomes compara o Brasil de Nos Tempos do Imperador com o de hoje: \"Queremos o básico\"

Além do dono do jornal O Berro, o engenheiro e a médica precisam lidar com o recalque de Zayra (Heslaine Vieira). Obcecada por Samuel desde que era uma menina, a jovem não aceita o amor dos dois, e vive fazendo de tudo para separá-los.

“É um relacionamento difícil, com muitas intervenções, pessoas tentando separar o casal. Era muito difícil para um casal inter-racial, ainda mais naquela época. Mas acho que, como a maioria, eles merecem ser felizes”, torce, Michel.

Ator já foi vítima de preconceito no bairro onde mora

Michel Gomes compara o Brasil de Nos Tempos do Imperador com o de hoje: \"Queremos o básico\"


Nascido e criado em Padre Miguel, zona Oeste do Rio de Janeiro, Michel Gomes iniciou seus estudos de teatro aos 10 anos na TVV – Talentos da Vila Vintém, onde permanece até hoje. “Se tem algo que eu gosto é de falar de onde venho, quem eu sou, qual é a minha história”, declara.

Aproveito a deixa para indagar sobre a postura de Zayla, princesa da Pequena África que renega seu povo, e o ator nega conhecer alguém como a personagem, e elogia sua intérprete.

“Eu, particularmente, não conheço ninguém que renega suas origens, mas claro que existe. A Heslaine [Vieira], inclusive, está fazendo brilhantemente esse papel, está dando show”, avalia.

Já entrando no tema racismo, Michel Gomes passou por uma situação chata recentemente, e no próprio bairro onde mora atualmente, enquanto estava sozinho, de moto.

“É o Brasil sendo Brasil”, alega. “É o que acontece com a gente, são as duras de rotina. Quando tirei o capacete, me reconheceram e me trataram como um cidadão, de alguma forma”, relata. 

Michel Gomes elogia críticas políticas na novela

A estreia de Michel Gomes no cinema foi em 2002 como o Bené, parceiro de crimes na infância de Zé Peqeno (Leandro Firmino), no filme Cidade de Deus. Em 2008, era a vez de o ator, hoje com 32 anos, protagonizar Última Parada 174, de Bruno Barreto.

Michel Gomes compara o Brasil de Nos Tempos do Imperador com o de hoje: \"Queremos o básico\"

Baseado em história verídica, o filme conta a trajetória do jovem Sandro, sobrevivente da chacina da Candelária, no Rio de Janeiro, que morreu pelas mãos da polícia durante o sequestro de um ônibus, na zona Sul da cidade.

“Esse foi um grande filme que fiz na carreira, que marcou, e foi onde, com certeza, eu tive mais dificuldade de fazer. Sendo muito jovem, fazendo um personagem que vivia numa violência única, um menino de rua que carregava toda uma carga muito forte nas costas”, analisa.

Sobre a preparação para o papel, Michel conta ter começado os testes sem saber ao certo detalhes. “O filme, também, é bem pesado, exige muito da gente. O Bruno Barreto só me contou depois, mas eu comecei os testes com 17 anos e fiquei quase um ano, uma vez por semana, indo fazer testes”, recorda.

“Depois que entrei para o filme, ele me falou que estava me amadurecendo, porque eu era muito jovem. Aí, começamos a preparação com uma galera maravilhosa. Foi sensacional ter feito esse filme”, comemora.

Caminhamos para o final da conversa e o mocinho de Nos tempos do Imperador elogia a iniciativa de Thereza Falcão e Alessandro Marson em incluir críticas ao governo atual na novela de época. “Eles são maravilhosos! Tenho muito respeito e carinho por eles. Conseguiram mandar muito bem”, observa.

Michel Gomes compara o Brasil de Nos Tempos do Imperador com o de hoje: \"Queremos o básico\"

“Passaram-se todos esses anos e, ainda assim, vemos a violência com os negros, cada vez mais, esse Brasil que vivemos de desigualdade. Conseguir abordar isso de uma forma que se vê nos dias de hoje é muito louco”, fala, surpreso.

“As coisas continuam as mesmas desde que o Brasil é Brasil, mas podemos fazer diferente. É o futuro, o entretenimento, os sonhos, a geração e as oportunidades para que realmente se torne um país igual para todos”, deseja. O ator conclui nosso bate-papo fazendo suspense sobre trabalhos futuros. “Tenho recebido convites, mas não posso confirmar nada ainda”, finaliza.




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