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Globo traça estratégia para acabar com planos da Netflix no Brasil

Emissora vem esvaziando produções da concorrência

Globo traça estratégia para acabar com planos da Netflix no Brasil
Globo e Netflix estão travando guerra na busca por elenco - Foto: Divulgação

Daniel César

Publicado em 22/01/2021 às 04:23:00,
atualizado em 22/01/2021 às 08:48:17

A Globo tem uma estratégia clara para tentar impedir o crescimento da Netflix atacando diretamente as séries de conteúdo original brasileiro na plataforma de streaming. A emissora vem mirando nos principais nomes do serviço no Brasil e impedindo, assim, com que ela consiga renovar suas maiores produções para temporadas futuras.

O NaTelinha apurou que executivos da Globo fazem monitoramento completo de produções de streaming da Netflix no Brasil por identificar que, por enquanto, ela é a única ameaça ao reinado da emissora no quesito dramaturgia. E a estratégia traçada é a de contratar nomes essenciais que estão no elenco das principais séries da empresa concorrente e, assim, obrigar que o produto acabe cancelado ou suspenso.

Nos corredores da Globo fala-se que é praticamente impossível concorrer com esse esquema da emissora porque a oferta financeira é maior, por um período de tempo muito superior e, para piorar, a visibilidade entre fazer uma novela do canal e uma série da plataforma não tem comparação para artistas, por isso não há muito o que fazer nesse tipo de oferta.

A forma como a emissora carioca vem fazendo para derrubar os planos de crescimento artístico da Netflix no Brasil já vem de algum tempo e um dos exemplos foi com Emanuelle Araújo. A atriz era a protagonista de Samantha!, produção de humor do serviço, mas acabou se afastando do projeto para gravar Órfão da Terra (2019). Com isso, a plataforma até tentou suspender, mas não houve como manter tanto tempo a continuidade da história congelada e anunciou o cancelamento da produção.

Mais recentemente a estratégia se repetiu com Selton Mello, que recebeu duas ofertas irrecusáveis do Grupo Globo. A princípio, ele retomou a direção e assumiu o principal papel em Sessão de Terapia, que pagou o reforço de ficar disponível no Globoplay. Em seguida, a emissora o convenceu a voltar às novelas para interpretar Dom Pedro II em Nos Tempos do Imperador. A produção, prevista para estrear em março do ano passado, já era para estar encerrada desde setembro, mas a pandemia atrasou todo o processo. Desde que Selton assumiu tais compromissos, a Netflix não falou mais sobre a continuação de O Mecanismo, embora não assuma oficialmente o cancelamento da série de José Padilha, outro que migrou para o streaming do grupo Globo.

Globo tenta esvaziar a Netflix

A principal produção da Netflix em 2020, com direito até a figurar em listas internacionais de melhores séries do ano, foi Coisa Mais Linda. A segunda temporada da produção teve aceitação entre crítica e público, mas há mais de seis meses a plataforma não informou se haverá terceira temporada, já que não houve desfecho das personagens na história que se passa na década de 60.

E se a empresa quiser continuar a produção terá de esperar, uma vez que duas das protagonistas aceitaram a proposta da Globo para fazer novelas em 2021. Mel Lisboa foi escalada como vilã de Cara e Coragem, trama das 19h, prevista para entrar no ar no segundo semestre, substituindo Quanto Mais Vida Melhor, que por sua vez entrará no ar no lugar de Salve-se Quem Puder. Outra estrela da produção, Pathy Dejesus assinou com a Globo e estará em Um Lugar ao Sol, produção de Lícia Manzo para o horário das 21h e que já está em gravação, pois será exibida após o desfecho de Amor de Mãe.

Globo seduz com altos salários

A estratégia da Globo tem sido difícil da Netflix combater, já que a oferta financeira é irrecusável para a maioria dos artistas. A título de exemplo, a reportagem ouviu uma fonte que confirmou um salário de R$ 35 mil mensais para um dos nomes tirados da plataforma para fazer novela na Globo. O valor parece baixo, se considerar que o primeiro escalão da emissora receber mais de R$ 100 mil, mas não é bem assim.

Ao se verificar que um elenco permanece com salário fixo do canal por pelo menos 10 meses, o montante recebido pelo projeto chega à bagatela de R$ 350 mil, ao passo que o mesmo artista receberia R$ 25 mil por episódio em uma produção da Netflix. Raramente uma série da plataforma no país chega a 10 episódios, o que significa que a diferença anual é superior a R$ 100 mil, isso sem considerar benefícios como plano de saúde.

Netflix tenta reagir à Globo

A forma que a Netflix encontrou para reagir à Globo é gravar as produções em mais de uma temporada de uma tacada só, com isso, conseguiria manter o elenco intacto e livre de ofertas do canal carioca. Foi o que ela fez com O Escolhido, produção que contou com Paloma Bernardi, figurinha tarimbada das novelas, em seu elenco principal e que teve suas duas levas de episódios exibidos em seis meses de diferença. Além disso, a plataforma identificou que, gravando assim, conseguirá impedir que seu elenco feche com a Globo, já que o canal não costuma contratar ninguém que esteja no ar em outro lugar e isso inviabilizaria o assédio contra seus contratos.

Outra estratégia, embora em menor quantidade, é o contrato fixo, algo que a própria Globo costuma fazer e a empresa americana começou a lançar mão no Brasil nos últimos tempos. Mas isso apenas para casos excepcionais, como aconteceu com Bruno Gagliasso, que não pode negociar projeto por obra com a Globo e com Bruna Marquezine, outra exclusiva da plataforma e não pôde ser testada para papeis em novelas, como Pantanal.

Procurada sobre a renovação de Coisa Mais Linda e de O Mecanismo, a Netflix não respondeu.

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