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Levantamento

Com promessa de "acabar com a mamata", Bolsonaro gasta "uma Band" em TV pública

Gestão gastou quase R$ 1 bilhão em dois anos

Jair Bolsonaro durante discurso transmitido pela TV Brasil
Bolsonaro não cumpriu promessa e vem gastando alto para manter a EBC - Foto: Divulgação
Daniel César

Publicado em 18/01/2021 às 04:30:30

Uma das principais promessas de governo de Jair Bolsonaro era "acabar com a mamata", termo repetido milhões de vezes pelos seguidores, referindo-se a intenção de colocar um ponto final na EBC, mantenedora da TV Brasil, emissora pública criada na batuta da era Lula. Agora, dois anos depois de ter vencido as eleições, o presidente da República não apenas deixou de cumprir o que havia prometido publicamente, como vem gastando mais que a Band e a RedeTV! em repasses anuais de dinheiro público para mantê-la.

Levantamento do NaTelinha realizado junto ao Portal da Transparência do Governo Federal revelou que, apenas em 2020, foram repassados R$ 489.309.887,57 para a EBC. Embora a TV Brasil seja o principal chamariz da entidade, ela também é responsável por manter a Agência Brasil, além das Rádio Nacional e MEC FM e o programa A Voz do Brasil. Os números do levantamento se referem ao valor liquidado, pois é o que melhor descreve o gasto público no Brasil.

A título de comparação, como as emissoras abertas ainda não divulgaram seu balanço referente ao ano-fiscal de 2020, a reportagem fez o levantamento com os gastos da administração de Bolsonaro em 2019, seu primeiro ano de governo, e o repasse foi ainda maior: R$ 509.703.493,50. Para se ter uma ideia da situação, mesmo com a TV Brasil tendo audiência pífia, a EBC recebeu um orçamento superior ao da Band e da RedeTV! no ano retrasado, quando as duas faturaram entre R$ 300 e R$ 400 milhões e ocuparam fatia muito maior de espaço junto ao Ibope, já que fecharam com a quarta e quinta colocação no ranking nacional.

Os dados chamam ainda mais a atenção se somados, pois em metade de sua administração, Jair Bolsonaro autorizou o repasse de praticamente R$ 1 bilhão para a EBC, entidade que ele jurou que encerraria logo em seus primeiros meses de governo. Em dois anos, o governo federal repassou dinheiro público que equivale a um SBT e a meio orçamento da Netflix, por exemplo, mesmo sem ter nenhum resultado de audiência.

Bolsonaro e os diretores da EBC

A reportagem teve acesso a um documento da EBC, que detalha a remuneração de seis diretores da entidade mantenedora da TV Brasil. Somados, eles receberam mais de R$ 115 mil apenas no mês de dezembro. Atual presidente da entidade, assumindo o posto no ano passado após ser diretor de marketing do SBT, Glen Lopes Valente recebe R$ 22.760,27.

Mas o maior salário entre os diretores é da chefia de jornalismo, que está a cargo de Sirlei Batista. A jornalista, que tem em seu currículo uma vida dedicada a programas de TV Pública, como a NBR, a Voz do Brasil e a Rede Nacional de Rádio, recebeu em dezembro o equivalente a R$ 26.479,57, mais do que os militares que comandam a entidade.

Bolsonaro, a EBC e a pandemia

Com promessa de \"acabar com a mamata\", Bolsonaro gasta \"uma Band\" em TV pública

A EBC já foi alvo de críticas em 2020, quando o governo federal decidiu comprar em regime de emergência partida da seleção brasileira, que não teria transmissão de nenhuma emissora de TV aberta e que gerou uma série de burburinhos por parte da imprensa. Mas chama a atenção que, depois de desistir de acabar com a entidade, o presidente vem mantendo altos índices de repasse em plena pandemia.

Segundo informações da imprensa, o Governo Federal irá desembolsar o equivalente a R$ 58,20 por dose da Coronavac, vacina desenvolvida pelo Instituto Butantan. Isso significa dizer que os gastos com a EBC em 2020 permitiria a Jair Bolsonaro adquirir a bagatela de mais de 8 milhões de doses, o que seria suficiente para imunizar toda a população do Amazonas, que sofre um caos na saúde neste momento, nas duas doses necessárias.

Outra comparação para facilitar a compreensão é com os famosos cilindros de oxigênio, que faltaram em Manaus e provocaram o caos na cidade. Levantamento do NaTelinha indica que um cilindro de 20 litros de oxigênio custa em média R$ 1.300,00, o que significa dizer que o governo Bolsonaro poderia ter comprado o equivalente a mais de 376 mil cilindros. Enquanto os artistas se reuniram para adquirir os insumos, a TV Brasil negociava com a Record, uma das emissoras mais apoiadora da presidência, a compra dos direitos para exibir Os Dez Mandamentos.



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