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Marcelo Adnet sobre ser xingado por apoiadores de Bolsonaro: "É estar do lado certo"

Humorista completa 40 anos e fala sobre carreira, vida pessoal, projetos e política em entrevista exclusiva


Marcelo Adnet sorrindo
Marcelo Adnet comemora 40 anos neste domingo (5)

Um dos humoristas mais talentosos da nova geração, Marcelo Adnet completa 40 anos neste domingo (5) e em conversa com NaTelinha, ele fala sobre a vida, carreira e se derrete pela filha Alice, de nove meses. De repouso por conta de uma pequena cirurgia após um acidente doméstico, Adnet jura que não é workaholic.

"Eu faço as coisas até onde dá e faço quando eu tenho paixão por ela. No nascimento da Alice, eu estava com Adnet na CPI, estava compondo os sambas, mas tudo de casa e sem colocar o trabalho em primeiro lugar. Eu boto em primeiro lugar a minha família, a minha saúde e a minha felicidade porque colocar a carreira em primeiro lugar e colocar as coisas abaixo dela, eu acho um erro fatal. O trabalho é muito importante, mas não é o mais importante que a gente tem na vida e isso tem que ficar claro", admite.

Ser xingado diariamente por defensores do presidente Jair Bolsonaro não o irrita. Pelo contrário. Para Adnet, é a certeza de que está do lado certo e de que o humor é uma arma poderosíssima contra o preconceito, a opressão e os poderes estabelecidos. Ainda em casa por conta da pandemia, ele conta em primeira mão que acaba de escrever dois projetos para 2022. “Um deles é para qualquer momento. É um projeto desligado de política, de noticiários e de tudo e outro é um projeto para a eleição no ano que vem. Vamos ver se esses projetos vão adiante ou não”, torce Adnet.

Confira a entrevista:

Você está fazendo 40 anos. É bom ou é ruim? Se sente mais seguro em relação a tudo na vida? Ou começou aquela fase de dor aqui, dor ali?

Eu me sinto mais seguro e me sinto feliz. Não me sinto velho ou envelhecido. Sei que tenho mais responsabilidades na vida e essas responsabilidades têm as suas vantagens como é por exemplo a minha filha, Alice. É uma responsabilidade e a maior alegria da minha vida. Outro dia, choveu para caramba e eu escorreguei aqui em casa. Cai de lado e pensei: ‘vai ficar tudo roxo’. Ficou roxo e inchado e com o passar do tempo o roxo saiu , mas continuou inchado e aí eu fui ao médico e ele disse que o sangue tinha ficado represado e eu teria que fazer uma cirurgia. Fiz a pequena cirurgia anteontem e estou deitado vendo televisão com um dreno. Vou passar o dia do meu aniversário com um dreno enfiado na perna. Mas, o fato de estar abraçado com a Alicizinha é uma delícia. Ah... essas coisas fazem parte. A primeira cirurgia que eu faço na vida, perto dos meus 40 anos, mas para não correr o risco de empedrar o sangue.

Marcelo Adnet

Para quem disse que não iria postar uma foto da filha, você queimou a língua bonito. Como é ser pai de uma menina e como é acompanhar a evolução de Alice, que dá para perceber que é uma criança bem-humorada e antenada?

Marcelo Adnet - Ela é muito esperta, muito inteligente. Nessa pandemia, eu pude acompanhar mais de perto porque eu não saio de casa e eu estou sempre com ela. Eu vejo todos os dias e acompanho toda a evolução. Qualquer coisinha que mude, eu estou anotando. Noto tudo, passo a passo, cada avanço e faço isso com o maior orgulho, a maior felicidade. Eu tenho um pouco de receio de ficar postando fotos dela porque é um neném e não tem muita consciência sobre isso, mas rola um baita orgulho e uma baita felicidade de dividir com as pessoas essa beleza.

Marcelo Adnet sobre ser xingado por apoiadores de Bolsonaro: \"É estar do lado certo\"

Estava vendo que você é tetracampeão com sambas enredos no Carnaval de São Paulo e ainda tem a São Clemente no Rio em 2022. Como e quando descobriu essa vocação?

Marcelo Adnet - A gente foi eliminado da São Clemente. Ano passado a gente ganhou. Mas esse ano, eu estou assinando o samba da Acadêmicos do Sossego, no Grupo de Acesso no Rio, e sou carnavalesco da Botafogo Samba Clube junto com Ricardo Hessez em um enredo homenageando João Saldanha, que é um dos grandes ídolos da minha mãe. Foi um cara que eu aprendi a admirar na minha infância, um jornalista maravilhoso. Fora essas dois episódios no Rio, eu venci com as parcerias que eu estava, nós ganhamos quatro sambas: três no Grupo Especial, Gaviões da Fiel, Dragões da Real e Rosas de Ouro, e Leão da Itaquera, no Grupo de Acesso. Eu amo samba e sempre amei. É uma coisa que eu não me vejo mais fora e foi importante ter perdido na São Clemente para lhe dar com a derrota também. Até porque faz muito parte quando entram 15 sambas em uma disputa, 14 vão perder. A probabilidade de perder é grande e você precisa saber lidar numa boa . Vai ser um desfile lindo em homenagem ao Paulo Gustavo e se houver uma segurança sanitária, eu quero muito desfilar mesmo não sendo o meu samba.

Podemos dizer que você é workaholic?

Olha, eu não me acho workaholic. Eu faço as coisas até onde dá e faço quando eu tenho paixão por ela. No nascimento da Alice, eu estava com ‘Adnet na CPI’, estava compondo os sambas, mas tudo de casa e sem colocar o trabalho em primeiro lugar. Eu boto em primeiro lugar a minha família, a minha saúde e a minha felicidade porque colocar a carreira em primeiro lugar e colocar as coisas abaixo dela, eu acho um erro fatal. O trabalho é muito importante, mas não é o mais importante que a gente tem na vida e isso tem que ficar claro.

Você é jornalista formado, mas nunca exerceu a função. Já imaginou você trabalhando na imprensa no atual momento político e setorista em Brasília? Como seria?

Marcelo Adnet - Eu sou jornalista formado e já exerci a função como estagiário. Fui assessor de imprensa e já me imaginei trabalhando no momento atual político do Brasil e acho que eu seria um comentarista, alguém que bota opinião na política. Eu não consigo não botar a minha opinião. Para mim é muito difícil não colocar opiniões que é uma coisa muito cara e deve ser exercida.

Como é ser xingado todos os dias por apoiadores de Bolsonaro?

É estar do lado certo (risos). Desde o início é ter que avisar e alertar que seria um governo péssimo, despreparado e excludente e aí está um governo péssimo, despreparado e excludente e tudo caríssimo no Brasil e o sujeito fala para comprar arma no lugar de feijão. Mas faz parte dessa maré política. Na hora, a esquerda está em cima, outra é a direita e nesse caso a extrema direita porque a direita achou que teria o poder, mas foi a extrema direita que roubou esse lugar. São coisas que fazem partes da balança e do vai e vem da política e da vida. São fases. Mas eu acho que eu não gostaria de abrir mão da minha opinião para não ser xingado. Ser xingado é consequência de ter uma opinião e expressar essa opinião. Acho que essas pessoas que têm influência e que têm seguidores deveriam opinar mais invés de buscar um caminho de não agressão, de não contrariar e a tender por uma certa chapa branca. Mas é importante dizer que as pessoas devem opinar se elas gostam do assunto. Se elas não gostam, elas não são obrigadas a opinar.

Marcelo Adnet

O humor crítico continua sendo uma arma poderosa contra o preconceito, a opressão?

Marcelo Adnet - Sim. O humor continua sendo uma arma contra o preconceito, a opressão e aos poderes estabelecidos porque ele é uma crítica que é feita por outro lugar. Não é uma crítica acadêmica, científica. É uma crítica que nos pega em outra região do cérebro que é muito mais divertido, mais fácil de compartilhar, de viralizar, de rir e de brincar. É importante pra caramba e os governantes sabem disso e procuram muitas vezes se apropriarem dessas armas do humor para tentar ampliar suas bases eleitorais e suas mensagens. Eu acho que o humor é uma arma muito, muito poderosa e acho que existe essa consciência no meio política.

O que mais te tira do sério?

Marcelo Adnet - É a falta de poder dialogar com educação. Dialogar e trocar ideia sem partir para agressão. Não conseguir dialogar me tira do sério.

Você tem projetos para a televisão em 2022?

Marcelo Adnet - Tenho dois projetos para 2022. Inclusive estou acabando de escrever para apresentar e um deles é para qualquer momento. É um projeto desligado de política, de noticiários e de tudo e outro é um projeto para a eleição no ano que vem. Vamos ver se esses projetos vão adiante ou não.

E o Botafogo sobe para a primeira divisão? Se tivesse dinheiro qual o jogador da série A você contrataria para ajudar o Alvinegro?

Marcelo Adnet - Eu acho que ele sobe, mas como botafoguense, a gente está preparado também para ele não subir. Tem que trabalhar essas expectativas. Se eu tivesse dinheiro e traria o Hulk, do Atlético Mineiro.

Tem algum arrependimento?

Marcelo Adnet - Todos nós temos arrependimentos na vida, coisas que com certeza que a gente faria diferente. Mas, é preciso ter a consciência de que não existe o voltar atrás. O passado não se muda. Ele se estuda e, principalmente, você faz as pazes com o passado para seguir adiante. Não importa se a sua vida foi muito bacana ou se ela foi terrível. Se erros foram cometidos. O que importa é saber lidar com isso.

Quais são as características que você acha que pegou muito e aquelas que pegou de menos?

Marcelo Adnet - Eu sou um cara generoso. Acho que eu sou um cara de diálogo, conciliador, mas eu sou extremamente ansioso e irrequieto. Então com esse dreno na perna, eu não sinto dor nenhuma, mas sinto um incômodo porque sei que ele está ali. (gargalha). Meus dois defeitos são esse : ser ansioso e irrequieto.

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