Olhar TV

"Éramos Seis" encanta pela leveza, sem deixar dramaticidade de lado

Divulgação/ TV Globo

Publicado em 05/10/2019 às 21:58:36 ,
atualizado em 05/10/2019 às 22:07:02

Por: Thallys Bruno

Um clássico da literatura brasileira chega à televisão pela quinta vez. Após versões produzidas pela Record (em 1958), Tupi (1967 e 1977) e SBT (1994, a partir da trama de 77), “Éramos Seis” chegou à tela da Globo na última segunda-feira (30). Agora, a responsabilidade cabe à autora Ângela Chaves, escolhida para dar vida ao romance de Maria José Dupré na faixa das 18h e suceder “Órfãos da Terra”, novela de boa audiência e enredo problemático. E os primeiros capítulos vêm deixando uma ótima impressão para quem acompanha.

Seu ponto de partida é a história de Dona Lola (Glória Pires), uma sonhadora matriarca paulistana que faz de tudo para manter a sua família unida em meio às dificuldades dos anos 1920/30. Às voltas com o alcoolismo e o machismo do marido Júlio (Antônio Calloni), Lola se desdobra na criação dos filhos Alfredo (Pedro Sol Vitorino/Nicolas Prattes), Carlos (Xande Valois/Danilo Mesquita), Julinho (Davi de Oliveira/André Luiz Frambach) e Isabel (Maju Lima/Giullia Buscacio). Cada um deles guarda um importante conflito: Carlos e Alberto vivem brigando entre si, já que o primeiro é visto como o grande exemplo da família em detrimento da rebeldia do outro; enquanto Julinho e Isabel se envolvem, respectivamente, com a filha do comerciante Assad (Werner Schunemann), patrão de seu pai; e ela com um homem casado, o que escandaliza a todos.

Ao mesmo tempo, Lola encontra tempo para sua amizade com a fofoqueira vizinha Genu (Kelzy Ecard) e suas irmãs, Clotilde (Simone Spoladore) e Olga (Maria Eduarda de Carvalho). Júlio, por sua vez, enfrenta problemas com o alcoolismo, o que agrava sua agressividade com a família, e ainda mantém um caso extraconjugal com Marion (Ellen Rocche), dançarina de um cabaré, que se ilude na esperança de conquistar de vez o coração dele.

A atual versão, a julgar pelos primeiros capítulos, toma algumas pequenas liberdades: o tom do enredo é mais leve, um pouco mais solar, embora não dispense a necessária dramaticidade. A personalidade de Dona Lola, mais sintonizada com os novos tempos, mostra a matriarca com mais voz ativa, embora não descaracterize a essência da época. E a condução da autora Ângela Chaves, que se baseia especialmente nas versões escritas por Sílvio de Abreu e Rubens Ewald Filho, merece elogios pelo ritmo ágil e pela promissora construção dos perfis.

O conjunto de elenco também merece elogios. Glória Pires, que recebe a missão de encarnar a amorosa Lola, cumpre com perfeição e imprime elegância e carisma em sua composição, honrando o posto já ocupado por Gessy Fonseca (1958), Cleyde Yáconis (1967), Nicette Bruno (1977) e Irene Ravache (1994). Antônio Calloni também mostra segurança na pele de Júlio, um tipo detestável, cujo machismo (infelizmente) ainda é muito comum em nossa vida real.

No elenco coadjuvante, aplausos também para Kelzy Ecard, intérprete da adorável fofoqueira Genu, fazendo um trabalho totalmente diferente da submissa Nice de “Segundo Sol” (2018); Bárbara Reis, que volta à Globo emocionando como a amargurada Shirley, mãe de Inês (Gabriella Saraiva/Carol Macedo), que é o grande interesse amoroso de Carlos; bem como Maria Eduarda de Carvalho e Eduardo Sterblitch, que fazem de Olga e do farmacêutico Zeca um delicioso e divertido casal (bem aos moldes de Catarina e Petruchio, de “O Cravo e A Rosa” (2000-01)); e as grandiosas presenças de Denise Weinberg (Dona Maria, mãe de Olga) e Othon Bastos, o Júlio da versão de 1994, agora como Padre Venâncio.

Plasticamente, merece elogios também a abertura, mesclando as vivências da família com o contexto histórico da época, englobando fatos como a Revolução Constitucionalista de 1932, que marcou a transição da República Velha para a Era Vargas; bem como a caprichada reconstituição de época, nos belos cenários e figurinos. A trilha sonora é um destaque à parte, com versões gravadas por Roberto Carlos, Fafá de Belém, Carmen Miranda e Arnaldo Antunes, entre outras.

A primeira semana de Éramos Seis tem revelado uma história simpática, com agilidade e delicadeza na condução de seu enredo, porém, sem deixar de lado a necessária dramaticidade da obra original. Os capítulos têm sido deliciosos de acompanhar e o bom elenco – regido pela ótima direção de Carlos Araújo – dá conta do recado com competência. As boas impressões têm tudo pra se manter ao longo dos próximos meses e, com isso, conquistar o público.


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