Coluna do Sandro

SBT precisa investir no jornalismo se quiser concorrer com a Record

Emissora completa 40 anos em 2021 e tem a chance de refletir sobre seu futuro

SBT precisa investir no jornalismo se quiser concorrer com a Record
Dudu Camargo e Marcão do Povo no Primeiro Impacto - Reprodução: SBT

Sandro Nascimento

Publicado em 07/10/2020 às

Em 2021, o SBT completa 40 anos, realizando um sonho de Silvio Santos a partir da TVS (1976 - 1981). Neste período, a emissora se firmou de forma ligeira como uma opção ao padrão de qualidade da Globo, com programas de baixo custo e extremamente populares. Seu DNA sempre foi se comunicar com a massa. Porém, diferente dos seus programas de auditório, até hoje não consegue atingir esse target com um jornalismo de qualidade e com credibilidade. Com isso, há anos, caminha no contrafluxo do mercado publicitário e fecha a porta para a entrada de novos anunciantes.

Embora o SBT esteja praticamente empatado na vice-liderança com a Record na média geral do Ibope, o faturamento anual está bem inferior ao da sua concorrente. A Record vem registrando uma receita líquida de R$ 2,21 bilhões contra cerca de R$ 1,1 bilhão do canal da Anhanguera - médias referentes aos balanços contábeis publicados nos últimos anos pelas duas empresas.

Essa alta diferença no financeiro se explica pela ausência de produtos na grade do SBT que possam atender as demandas dos profissionais da publicidade. No período da manhã, como exemplo, os anunciantes acabam optando em exibir suas peças publicitárias de lançamentos de carros e outros bens duráveis nos intervalos da Record com o Fala Brasil e o Hoje em Dia.  No mesmo horário, o SBT tem o sanguinário Primeiro Impacto e os desenhos animados do Bom Dia & Cia.

Os programas infantis estão inviabilizados de conseguir anunciantes diante dos excessos de regulamentação do governo. E os programas policiais sempre tiveram uma função de alavancar a grade, mas nunca foram bons negócios do ponto de vista financeiro.

SBT já foi referência para o jornalismo da Globo

Num momento que o mercado de TV aberta enfrenta uma das suas piores crises de faturamento, não investir numa programação em sintonia com o meio publicitário faz o SBT perder dinheiro. Na TV americana, referência da brasileira, a ABC, CBS, NBC investem em jornalismo nacional e regional, ao vivo, como o Good Morning America e o Today.

Recentemente, a Record fechou um contrato milionário de um ano com o Bradesco em seu projeto de pílulas de jornalismo ao longo da programação. O canal tem produtos como o Domingo Espetacular, Câmera Record o e o Repórter Record. Quais são os destaques do jornalismo no SBT?

Mas nem sempre foi assim na emissora. Nas décadas de 80 e 90, a direção tentou se aproximar do mercado e passou a investir em jornalismo tendo profissionais como Boris Casoy, Lillian Witte Fibe, Heraldo Pereira, Mônica Waldvogel, Zileide Silva, César Tralli, Eliakim Araújo (1993-1998), Leila Cordeiro e tantos outros.

Foi o período onde virou referência até na Globo com a câmera nervosa do Aqui Agora e o cargo de editor-chefe como âncora, aposentando os locutores, à frente do telejornais. Na época, passou a ofuscar os produtos da líder e o canal carioca iniciou processo de esvaziamento da concorrente com os convites de contratações.

Hoje, após não renovar com Rachel Sheherazade e a possível saída de Roberto Cabrini, sobrou para o jornalismo do SBT o Dudu Camargo e o Marcão do Povo como suas principais estrelas. Não se discute a capacidade deles de serem bons comunicadores, conversar com a massa não é tarefa fácil, mas não gozam de prestígio jornalístico para convencer a publicidade de grandes marcas.

O SBT precisa aproveitar que a tecnologia barateou a transmissão do jornalismo, a chegada do 5G vai melhorar ainda mais, e retomar investimentos e revigorar o setor em 2021, num pós-pandemia. No ano em que festejará seus 40 anos, a emissora precisa refletir e iniciar o desenho do seu futuro, não pode ser refém de referência apenas de um programa de domingo.


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