Globo trouxe de volta

Cabrini conta como foi contratado pela Globo após furar exclusividade da Fórmula 1 pelo SBT

Cabrini lançou o livro No Rastro da Notícia narrando os bastidores da sua reportagens


Roberto Cabrini
Divulgação/SBT

O jornalista Roberto Cabrini lançou nesta semana o livro Rastro da Notícia, onde ele narra, em 300 páginas, os bastidores das suas principais reportagens ao longo de 43 anos de carreira. No capítulo "Senna: O dia que não terminou" o repórter investigativo revela o início da sua relação com o piloto e como foi recontratado pela Globo, após transformar a cobertura do SBT sobre a Fórmula 1, em 1991, em uma sensação no Brasil sem deter os direitos de transmissão.

Cabrini tinha acabado chefiar a cobertura da Copa do Mundo de Futebol, em 1990, na Itália quando recebeu a missão do superintendente artístico do SBT, na época, Luciano Calegari.

"Cabrini, tenho uma missão para você. A Shell está patrocinando boletins sobre a Fórmula 1. Eles serão exibidos antes dos telejornais, nas sextas e sábados antes do início das corridas, e depois haverá mais um na segunda-feira, com informações do que aconteceu no GP. Você deve trabalhar com as imagens geradas pelas agências de notícias. Quero que você assuma isso", comunicou Calegari, ao jornalista, em sua sala no SBT.

Em Rastro da Notícia, Roberto Cabrini explica que na época ( fim dos anos 80 e início dos 90), as corridas de Fórmula 1 tinha tanta atenção do telespectador e do mercado que mesmo a Globo sendo a única detentora de transmissão, todas as outras emissoras dedicavam um bom espaço em suas grades na cobertura das corridas.

"Cobrir só com imagens internacionais é frustrante. Posso ir às corridas?", questionou Cabrini, ao superintendente artístico do SBT. Luciano Calegari concordou com o pedido apostando no perfil do jornalista de buscar informações exclusivas, mas avisou: "Bem, viaja primeiro e depois a vê como fica. Duvido que a Globo permita que você receba credenciais".

O repórter solicitou o credenciamento à Foca (The Formula One Constructor´s Association' - Associação dos Construtores da Fórmula 1), liderado pelo poderoso Bernie Ecclestone, e conseguiu a autorização para a cobertura do Grande Prêmio dos Estados Unidos.

"As reportagens do GP ficaram perfeitas. Clima da corrida, detalhe da pista, entrevistas reveladoras com Ayrton Senna, Alain Prost e ainda uma exclusiva com Jack Sterwart...A cobertura foi um tremendo sucesso, chamando a atenção e repercutindo em jornais", conta Roberto Cabrini no livro, que durou cinco anos para ser escrito.

 Cabrini conta como foi contratado pela Globo após furar exclusividade da Fórmula 1 pelo SBT

Porém, o sucesso das matérias pelo SBT incomodou a Globo e ele nunca mais conseguiu se credenciar para as corridas de Fórmula 1 naquela temporada. "Se alguém imaginou que desistíamos da  cobertura, imaginou errado. Arrumei um jeito de mostrar o outro lado", diz o jornalista, na página 19.

Em seguida, Cabrini revelou qual foi sua estratégia para que a ausência de credenciamento não atrapalhasse a cobertura da F1 pelo SBT: "Quando o ele (fiscal da imprensa dos circuitos) descuidava da atenção, eu aproveitava para entrar onde as equipes instalavam seus escritórios móveis a cada Grande Prêmio. Ali caçava uma entrevista, uma imagem, algo que, muitas vezes, os credenciados não tinha se concentrado em fazer. Se eu não conseguisse acesso ao paddock, ia para as arquibancadas e mostrava a reação das pessoas e a repercussão nos jornais".

E continuou:"Não podia entrar nos treinos? Usava a criatividade e exibia as imagens mais inusitadas. O retiro de Ayrton Senna em Portugal, o processo de fabricação de um carro de Fórmula 1 na Maclaren, a ilha do Nigel Mansell (ilha de Man), o iate de Piquet em Mônaco".

A partir deste momento, mesmo sem credenciais, Roberto Cabrini conseguiu transformar a cobertura do SBT sobre a Fórmula 1 em uma sensação no Brasil.

Em outro trecho ele conta: "O ponto alto foi a entrevista exclusiva no Japão (com Ayrton Senna), no quarto de seu hotel, horas depois de se sagrar tricampeão mundial de Fórmula1"

A repercussão da cobertura do SBT a Globo que ágil rápido. Em janeiro de 1992, Roberto Cabrini recebeu uma ligação do Ciro José, diretor-geral de esportes da Rede Globo, na época. "Está na hora de você voltar à Globo", disse o diretor.

"Um convite irrecusável. Voltar à emissora, que depois de dez anos, para ser correspondente em Londres, com a missão de cobrir a temporada de Fórmula 1 e, no restante do tempo, todos os assunto que exigiam atuação de um escritório internacional. Guerra, atentados, reuniões de líderes mundiais - tudo. O repórter caçado por não ter credencial passaria a entrar pela porta da frente dos grandes prêmios", explicou Cabrini, sobre está passagem da sua carreira.

 Rastro da Notícia

Cabrini conta como foi contratado pela Globo após furar exclusividade da Fórmula 1 pelo SBT

Em No Rastro da Notícia, publicação da Editora Planeta, além dessa história,e outras, Roberto Cabrini narra como conseguiu descobrir o paradeiro de Paulo César Farias, tesoureiro do então presidente Fernando Collor de Mello e fugitivo da justiça na época, os bastidores da morte de Ayrton Senna e da investigação que expôs abusos sexuais cometidos contra crianças e jovens por importantes sacerdotes brasileiros, que teve repercussão internacional.

"O grande desafio foi o estar atento para evitar qualquer glamourização individual de forma que a história fosse sempre mais importante do que o repórter. Nossos dilemas são úteis à medida que indicam nossos limites e nossas encruzilhadas, mas estamos a serviço da reportagem e jamais o contrário. No final do dia contadores de histórias somos... E Isso é uma responsabilidade e também um sacerdócio", contou Roberto Cabrini, em entrevista exclusiva ao NaTelinha no início de novembro.

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