Reprise

Por que vale a pena rever O Clone, de volta no Viva

Marco na TV brasileira, novela de Glória Perez será reprisada 18 anos após estreia

Por que vale a pena rever O Clone, de volta no Viva
História de amor entre Jade e Lucas flerta com a ficção científica (Fotos: Globo/Divulgação)

Publicado em 09/12/2019 às 06:29:00 ,
atualizado em 09/12/2019 às 19:41:04

Por: Walter Felix

O ano vai chegando ao fim com a exibição de três novelas que marcaram o gênero. Talvez seja cedo para incluir Amor de Mãe nesse panteão, mas é certo que a produção traz à TV uma linguagem diferenciada, quase experimental, pautada pelo realismo e fidedigna aos nossos dias. Nas tarde da Globo, também é possível rever Avenida Brasil, trama dinâmica e popular que provocou verdadeira revolução na forma de ver e fazer novela, em 2012.

Completando a trinca, O Clone volta ao ar nesta segunda (9), às 23h, no Viva. A reprise, 18 anos após a primeira exibição, comemora os 10 anos do canal pago vinculado à Globosat. A escolha não poderia ser mais acertada: o folhetim foi um marco na TV brasileira entre 2001 e 2002 e deixou uma legião de fãs à espera de sua reexibição, agora na íntegra.

Escrita com esmero por Glória Perez, aliada à direção sempre sensível de Jayme Monjardim, O Clone conseguiu a proeza de colocar o Brasil na tela da TV ao mesmo tempo em que mudava os hábitos da população. Expressões, bordões e vestuários, tanto de árabes quanto de brasileiros retratados na história, saltaram da ficção para o cotidiano do país.

A trama era rocambolesca. Com a morte de Diogo (Murilo Benício), o padrinho dele, o cientista Albieri (Juca de Oliveira), decide clonar o irmão gêmeo do rapaz, Lucas (também interpretado por Benício). Vinte anos depois, a novela passa a girar em torno da expectativa pelo encontro entre Lucas e seu clone, Léo (Benício de novo), bem como a interação deste último com Jade (Giovanna Antonelli, em estado de graça no papel), grande amor do passado de Lucas.

Um melodrama dos bons, que flertava com ficção científica. Somava-se ao fio condutor um retrato da cultura islâmica - e seus costumes controversos, como a poligamia e a submissão da mulher -, além de uma abordagem cirúrgica da dependência química e a presença de tipos carregados de brasilidade, como Dona Jura (Solange Couto), a divertida proprietária de um bar em São Cristóvão.

A tragédia humana das drogas, que a teledramaturgia preferia negligenciar até então, foi mostrada com os personagens Mel (Débora Falabella, em um de seus melhores papéis) e Lobato (Osmar Prado, sempre ótimo). Poucas vezes se falou tão abertamente, de forma didática e eficiente, sobre o consumo de drogas como cocaína e crack. A novela deu seu alerta, com cenas fortes, texto e direção irretocáveis.

Glória Perez usou sabiamente o merchandising social para desenvolver personagens e tramas paralelas. A autora pode não ter inventado esse mecanismo, mas o consolidou com maestria e acabou criando essa espécie de fórmula, repetida, com sucesso, em títulos posteriores às 21h. Por essa e outras razões, O Clone se tornou, possivelmente, a novela mais importante daquele início de milênio.

Apesar do DNA brasileiro, a história é universal. Ainda hoje, é um dos títulos mais exportados da Globo, exibida em mais de 100 países. Em 2010, produziu-se um remake nos Estados Unidos, El Clon, destinado à comunidade hispânica local, mas sem o mesmo sucesso.

Mesmo com uma história bem amarrada, a ampla variedade de abordagens - clonagem, árabes e drogas foram só algumas delas - tinha tudo para confundir o telespectador e dar muito errado. A produção estreou dias após os atentados às Torres Gêmeas, nos EUA. Ao colocar muçulmanos em destaque, naquele contexto, corria-se o risco da rejeição do público.

Ao contrário, a cultura marroquina se tornou, para muitos, o principal atrativo. Mesmo em cenário insólito, o que se viu foi um grande sucesso popular. Vai ver Tio Ali (Stênio Garcia) tinha razão: estava escrito.



Melhores do Ano NaTelinha 2019: Vote e eleja os destaques do ano na televisão!


publicidade

LEIA TAMBÉM

publicidade

COMENTÁRIOS

Para comentar na página você deve estar logado com seu perfil no Facebook. Este espaço visa promover um debate sobre o assunto tratado na matéria. Comentários com tons ofensivos, preconceituosos, de propaganda e que firam a ética e a moral podem ser deletados. Participe!